Por Eça de Queirós (1925)
No largo, a manhã resplandecia. Depois dos dias de chuva, aquelle sol delicioso dava á cidade a alegria d'um renascimento : até dous moços que n'um pateo lavavam uma carruagem a baldes d'agua e os gallegos que palravam á beira do chafariz, pareciam tão satisfeitos como os canarios que gorgeavam nas janellas. Mas Arthur estava como que desencanta' do : Damião partira, o famoso Melchior perdia-se no vago, e n'aquella cidade tão cheia sentia a concavidade da solidão ! A sua vontade, que á maneira d'um invalido precisava ser constantemente estimulada e ajudada, recahia desfallecida : a celebridade, as relações, os amores — tudo o que em Oliveira lhe parecera de conquista tão facil, á mão, recuava agora para cimos inaccessiveis : tinha a sensacão de massas do obscuridade, suffocantes como abobadas, que o encarceravam no anonymato. As vitrines das lojas, os altos predios, as carru agens, davam-lhe uma oppressño indefinida ; sentia circular em redor um enorme egoísmo burguez, feito do orgulho do dinheiro e do degprezo das idéas ; o os rostos, como as fachadas, tomavam para elle um
aspecto obtuso e duro que alguns pobres versos delica,dns nunca poderiam commover ! O sentimento da sua solidão sensibilisou-o : se adoecesse, pensou ! E, entontecido pelo movimento, abstracto, infeliz, ia descendo o Chiado, com os pés torturados pelo verniz novo aquecido, sentindo-se gebo odiando luisboa, furioso com o sapateiro ! Quando entrou no Hotel, atirou-se para cima da cama, e para se reconfortar com a certeza do seu talento, poz-se a relêr, aqui e além, os Esmaltes e Joias. Mas os versos que em Oliveira lhe pareciam d'um ideal tão nobre, lidos agora alli, em Lisboa, tinham um tom de pieguice pueril, DO meio das vagas grandezas que sentia em redor e dos vastos interesses que suspeitava. Veio-lhe uma desesperação, achou-se « burro b, pensou mesmo em voltar para Oliveira ; retinha-o porém uma curiosidade da Cidade, a esperança de a vêr, a Ella, e o desejo das satisfações que lhe podia dar o dinheiro, — theatros, mulheres . Que diabo ! tinha alli no bahú, em libras, um conto de réis ! E espreguiçou-se sobre o leito com voluptuosidade, como se recebesse de repente de todos os rostos lindos que entrevira, das vozes que na vespera lhe faziam pst, pst, por traz das taboinhas verdes, um effluvie aphrodisiaco. E desceu para o jantar, resolvido « a atirar-se n'essa noite á pandega b.
Como na vespera, os dous hespanhoes lá esta-
vam, e, soturno, ao pé da Mercedes, o sujeito calvo e baboso. Esperando a sopa, Arthur abriu o Jornql do Commercio que estava sobre a mesa, deu um olhar de lado á hespanhola— e, de repente, lembrouse de que talvez no hotel conhecessem o Melchior, um jornalista !
Perguntou immediatamente ao creado, que entrava com a sopa.
— Ah, o Melchiorzjnho ! — disse o moço ; e dirigindo-se ao calvo : — Oh snr. Videira, usted sabe onde está o Melchior
— O Melchiorzinho? — respondeu o calvo. — Na redacção do Seculo. P 'ra os lados da rua do Carvalho.
— Já vê usted ! — disse o creado com satisfação. Arthur, na sua alegria, indifferente ao jantar, agarrou o chapéu, correu á rua, tomou uma tipoia, foi á redacção do Secuto: o snr. Melchior tinha sahido, podia encontrai-o ao outro dia, á uma hora da tarde.
Aquella visita preoccupou Arthur toda a noite. Melchior era um jornalista, um litterato e a conversa rolaria de certo sobre livros, estylos, escolas ; desejava mostrar-se elevado nas criticas, original nas phrases ; preparou mesmo duas definições pittorescas de Lisboa e da Provincia :
« Lisboa é a estação central da intelligencia b.
«A Provincia é a penitenciaria do espirito D.
E ao outro dia, muito commcvido, apeava-se á porta da redacção. Um rapazito de blusa azul fel-o atravessar um pateo sujo, penetrar n'um corredor carunchoso, e abrindo uma porta :
Um sujeito, snr. Melchior !
A uma larga mesa coberta d'oleado, dous individuos trabalhavam. Um d'elles, de cabello escovinha, escaveirado e de lunetas defumadas, cortava tiras n'um jornal, com uma tesoura d'alf.aiate; o outro, baixo e grosso, com a cabeça fincada en tre os punhos, parecia absorvido no estudo d'uma folha de papel escrevinhada : ergueu-se bruscamen te, inquieto. Era Melchior. Tinha a calva precoce, chamada do deboche, sobre a qual repuxava um cabello fino como teias d'aranha ; sob o nariz carnudo, arqueava-se um bigode espesso.
Abriu a caTta do Rabecaz, de pé. As suas mãos papudas tinham uma ligei-ra tremura habitual, e apenas leu as primeiras linhas :
— Ah, perfeitamente ! . . . Tenha a bondade de se sentar, Pois não ! Por quem é, sente-se ! . . . E como vae elle, o maganão ? Hein ? Sempre patusco ? Se V. Ex. a me permitte, eu acabo aqui um pe z queno trabalho e sou todo seu. Tenha a bondade de se sentar. Isto está um pouco desarranjado. Se quer lêr os periodicos . , .
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.