Por Eça de Queirós (1912)
A criança estendeu os braços pequeninos. Cristóvão com cuidado e docemente a foi pondo ao ombro. Mas, bruscamente, os seus joelhos vergaram, tocaram a rocha, sob o imenso peso que o esmagava, Ah! quanto pesava o menino! Com custo, se firmou nas suas velhas pernas doridas. Desceu, arrimado ao seu bastão, o caminho escorregadio, mergulhou na água os pés – e logo a corrente mugiu furiosamente em redor, atirando a espuma até os pés da criança. Arquejando, Cristóvão rompeu a água. O vento imenso silvava, e atirava-lhe sobre os olhos, que a umidade embaciava. os seus longos cabelos grisalhos. Ele disse: “Ah! meu menino, meu menino!” A cada passo sentia que o leito limoso do rio lhe fugia sob os pés. Todo ele tremia, firmado no bordão. E a água, toda branca de espuma, empurrava-o furiosamente, com um marulho medonho. Na densa escuridão, nada distinguia, nem sabia onde estava a outra margem. Grossas pedras de granizo de repente caíram, e o menino, arrepiado, todo se aconchegava à sua face. Já a água temerosa lhe chegava ao peito. Tropeçou numa rocha, e, quando se susteve, sentiu a água, furiosa, gelada, correndo a roçar-lhe as barbas. Arrojou o bordão, e com as mãos ambas ergueu o menino ao ar. Mas mal o podia sustentar, grandes vagas já lhe batiam a face. Arquejando, parava para respirar fora da água, e bebia a espuma turva e amarga. Grossas traves que a corrente acarretava, batiam-lhe o corpo. Os seus pés rasgavam-se em pedras agudas. E ele, num esforço enorme, os braços esticados ao alto e todo a tremer, sustentando o menino, arrojava o peito para a frente, com gemidos que eram mais fortes que o vento. Duas vezes os seus joelhos fraquejaram, ia cair sob a força da torrente; duas vezes, com esforço sobre-humano, se manteve firme, erguendo ao alto o menino. A água já lhe chegava pela barba, e a espuma das vagas umedecia-lhe os olhos. E, sempre arquejando, rompia, com as mãos a tremer todas do peso imenso do menino. Mas os seus pés encontraram uma rocha firme, e a água desceu outra vez até ao peito. Na rocha resvaladiça, porém, os seus passos mal se podiam sustentar. E era por um esforço da alma, que se empinava arquejando. Mas ia saindo do rio, A água já lhe descera à cintura. E o fragor da corrente parecia abrandado e como remoto. Grandes pedras emergiam da água. Já apenas tinha mergulhado os pés, que ele sentia dilacerados. Um esforço mais, e estava na margem, salvo, apertando contra o peito o menino.
Mas, naquele esforço supremo toda sua vida se fora. Não podia mais. E já se sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou que não parasse, que marchasse ainda, o conduzisse à casa de seu pai. E Cristóvão, arquejando, começou a trepar o íngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade traspassava o ar – e Cristóvão tiritava, com o seu pobre saião de estamenha encharcado, que ia pingando na terra mole. E mais baixo murmurava: “Ah! meu menino! meu menino!”
Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os seus cabelos caídos sobe a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais até a morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha, desfalecido, de se pender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.
— Oh meu menino, onde é a casa de teu pai?
— Mais longe, Cristóvão, mais longe...
E aquele bom gigante, agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já subia por trás das linhas dos cerros.
Mas Cristóvão parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra, arquejando.
— Onde é a casa de teu pai?
— Muito longe, Cristóvão, mais longe...
Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossa gotas de sangue, rompeu a caminhar,sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino – e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.
FIM
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.