Por Eça de Queirós (1900)
- De repente, com um aneurisma, a ler o Notícias!... Pois ainda há três dias a Maricas e eu jantamos na Feitosa. Até eu toquei a duas mãos, com a D. Ana, o quarteto do Rigoletto. E ele bem, conversando, tomando a sua aguardentezinha de cana...
Gonçalo esboçou um gesto de piedade e tristeza:
- Coitado... Também há semanas o encontrei na Bica-Santa. Bom homem, bem-educado... E aítemos agora a bela D. Ana vaga.
- E o círculo!
- Oh, o círculo! - murmurou o Fidalgo da Torre com risonho desdém. - A mim antes me convinhaa viúva. É Vênus com duzentos contos! Infelizmente tem uma voz medonha...
O primo Mendonça acudiu, com interesse, uma convicção dedicada:
- Não! não! na intimidade, perde aquele tom empapado... Não imaginas! até um timbre natural,agradável... E depois, menino, que corpo! que pele!
- Deve ficar esplêndida agora com o luto! - concluiu Gonçalo. - Bem, adeusinho! Aparece nosCunhais... Eu corro ao Cavaleiro, para que Sua Exa. me salve com o seu braço forte!
Sacudiu a mão do Mendonça, galgou a escadaria de pedra.
Mas o capitão, que metera para a travessa de S. Domingos, desconfiou daquela história de ameaças, de espingardas... "Qual! Aqui anda Política!" E quando, passada uma hora lenta, repenetrou na praça e avistou a caleche da Torre ainda encalhada à porta do Governo Civil correu à Arcada, desabafou logo com os dois Vila-Velhas, ambos pensativamente encostados aos dois umbrais da Tabacaria Elegante:
- Vocês sabem quem está no Governo Civil?... O Gonçalo Ramires!... Com o Cavaleiro!
Todos em roda se mexeram, como acordando, nas gastas cadeiras de verga - onde os estenderam sonolentamente o silêncio e a ociosidade da arrastada tarde de verão. E o Mendonça, excitado, contou que desde as duas horas e meia Gonçalo Mendes Ramires, "em carne e osso", se conservava fechado como Cavaleiro, no Governo Civil, numa conferência magna! O espanto e a curiosidade foram tão ardentes que todos se ergueram, se arremessaram para fora dos Arcos, a espiar a bojuda varanda do convento, sobre o portão - que era a do gabinete de Sua Excelência.
Precisamente. nesse momento, José Barrolo, a cavalo, de calça branca, de rosa branca na quinzena de alpaca, dobrava a esquina da rua das Vendas. E o interesse todo daqueles cavalheiros se precipitou para ele, na esperança de uma revelação:
- Oh Barrolo!
- Oh Barrolinho, chega cá!
- Depressa, homem, que é caso rijo!
Barrolo, ladeando, abeirou da Arcada; e os amigos imediatamente lhe atiraram a nova formidável, apertados em volta da égua. O Gonçalo e o Cavaleiro cochichando secretamente, toda a manhã! A caleche da Torre à espera, com a parelha adormecida! E já começavam a repicar os sinos da Sé!
Barrolo, num pulo, desmontou. E enquanto um garoto lhe passeava a égua - estacou entre os amigos, com o chicote detrás das costas, pasmando também para a varanda de pedra do Governo Civil.
- Pois eu não sei nada! O Gonçalo a mim não me disse nada! - afirmava ele, assombrado. Também já há dias não vem à cidade... Mas não me disse nada! E da última vez que cá esteve, nos anos da Graça, ainda destemperou contra o Cavaleiro!
A todos o caso parecia "de estrondo"! E subitamente um silêncio esmagou a Arcada, trespassada de emoção. Na varanda, entre as vidraças abertas vagarosamente, aparecera o Cavaleiro com o Fidalgo da Torre, conversando, risonhos, de charutos acesos. Os largos olhos do Cavaleiro pousaram logo, com malícia, sobre "os rapazes" apinhados em pasmo à borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de visão. S. Exa. remergulhara no gabinete - o Fidalgo também, depois de se debruçar na varanda, espreitar a caleche da Torre. Entre os amigos rompeu um clamor:
- Viva! Reconciliação!
- Acabou a guerra das Rosas!
- E as correspondências da Gazeta do Porto?...
- É que houve peripécia tremenda!
- Temos o Gonçalinho Administrador de Oliveira!
- Upa, Exmo Sr., upa!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.