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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Tomásia trajava de cetim azul. Fora mandado vir de Chaves o vestido. A irmã do juiz eleito, que estivera a banhos na Foz, penteou-a à moda do Porto; mas a minha noiva, vendo-se ao espelho, desmanchou o penteado e formou da grande trança loura um diadema, sem mais enfeites que uma rosa de Alexandria. Por cima dos ombros, que o vestido deixava nus, lançou Tomásia um xaile de Tonquim escarlate, que eu havia mandado a minha mãe e ela nunca vestira.

Saímos para a igreja entre alas de activo bombardeamento. Eram centenares de pessoas de ambos os sexos.

As velhas erguiam as mãos aos céus, exclamando:

- Como tu vais linda! Bendito seja Deus! Pareces Nossa Senhora!

Confessamo-nos, comungamos e recebemos as bênçãos.

Desde que saímos da Igreja até à entrada de casa caminhámos sempre debaixo de nuvens de flores. O estrondo dos bacamartes era atroador e os dois sinos da freguesia repicaram desde que saímos do templo até ao anoitecer desse dia.

Meia hora depois que chegámos entrei no quarto de minha mulher e encontrei-a de joelhos diante duma imagem de S. João dos Bem-Casados.

Ergueu-se ela, benzendo-se, e esperou que eu a beijasse pela segunda vez. Penso que o público me releva a confissão de que, ao dar-lhe este segundo beijo, encontrei os lábios. Era o instinto das sensações agradáveis, mas honestas, que ensinou a minha mulher o segredo do máximo prazer de um beijo.

Estava o almoço na mesa.

O EDITOR AO RESPEITÁVEL PÚBLICO

Os autógrafos do meu amigo Silvestre da Silva carecem de nexo e ordem desde a data do seu casamento. Salta logo aos olhos que o ilustre autobiógrafo, chegado ao macro da bem-aventurança, quedou-se a repousar da peregrinação - Deus sabe quão penosa! - que trouxera pelas precipitosas veredas do seu passado.

Vejo aqui muito fragmento de obras bosquejadas, sobre assuntos de higiene caseira. Os mais aproveitáveis tendem a mostrar que a deusa da fortuna é a predilecta amiga dos que submetem a vida ao regime suave da matéria e só exercitam seu espírito para corrigir-lhe as demasias. Estes trechos soltos acho-os enfaixados sob o título: A Felicidade pelo Estômago.

Há outros manuscritos que encarecem o egoísmo, mas o racional egoísmo de Bentham. É esta uma das máximas: “O homem só vive bem com os outros quando vive mais para si”. E neste ponto de sentenças podia eu mostrar, se tivesse paciência para copiá-las, que Silvestre da Silva, se cultivasse o género, poderia ser um La Rochefoucauld fora de Soutelo.

Pospondo como coisas da segunda ordem as manifestações intelectuais de Silvestre, vou tentar, auxiliado pelos apontamentos dele, e notícias que alcancei, organizar a sucessão dos factos posteriores ao casamento.

Silvestre foi eleito presidente da Câmara de Carrazedo de Montenegro, que assim se denomina o conselho onde a ventura lhe bafeja o outono da vida. Estreou-se nas funções municipais mandando construir uma porca nova para o sino da igreja e compor uma estrada descalçada que lhe passava à porta; depois propôs em sessão que se pedisse ao Governo uma estrada do Porto a Chaves, com um ramal por Soutelo.

Este alvitre criou-lhe créditos, que foram um espeque à sua reputação algum tanto abalada com o facto de consumir os dinheiros do cofre municipal na reconstrução do caminho de sua exclusiva serventia. Mais meiga lhe soprou a aura popular, quando ele, mediante a solicitude do deputado, que fizera eleger, conseguiu que o conselho de Carrazedo absorvesse, na divisão do território, outro conselho limítrofe.

Nas próximas eleições, Silvestre da Silva, sem inculcar-se aos povos, nem recomendar sua candidatura, foi eleito deputado, contra a vontade das autoridades.

Tomásia, sabendo que seu marido se apartava dela no segundo ano de casada, fez tamanha e tão sincera choradeira que Silvestre desistiu da candidatura e fez que no escrutínio suplementar saísse deputado o juiz eleito, que também não serviu por se ter recusado a prestar o juramento, como legítima que era de entranhas.

O Governo chamou ao seu partido a influ6encia de Silvestre e conseguiu fazer eleger no seu círculo um candidato desconhecido dos eleitores. Ganhou com isso o genro do sargento-mor uma comenda para seu sogro e outra para ele, e uma abadia pingue para o padre Atanásio, tio de sua mulher. Em consequência do que todos os padres voltaram a sotaina e proclamaram a legitimidade da Senhora D. Maria II, com grande desgosto do juiz eleito, que rompeu relações com a família dos renegados, ou arrenegados, como ele dizia.

Desta desavença resultou que os jornais do Porto agrediram Silvestre da Silva, acoimando-o de desviar os dinheiros do Município em benefício das suas propriedades.

(continua...)

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