Por Camilo Castelo Branco (1864)
Explicou Mafalda ao padre o motivo a cujo respeito se lhe pedia aviso.
O clérigo tomou rapé, reflectiu, consolidou o seu raciocínio com outra pitada, e disse:
- A minha opinião é que a Sr.a D. Mafalda case com o Sr. Afonso. Fernão, fraco do peito para rir, tossiu uns frouxos de riso que desconcertaram a gravidade do reverendo.
Mafalda fitou os olhos em seu pai, receando que o esforço o estivesse mortificando. Padre Joaquim, voltando-se à menina, disse no tom de quem dá satisfação:
- Dar-se-ão caso que eu dissesse algum despropósito?... Parecia-me que sendo os dois contraentes primos em primeiro grau, obtida a devida dispensa, nada mais acenado para o fim de melhorar a situação apertada do Sr. Afonso...
- Não disse despropósito nenhum, padre Joaquim - acudiu Fernão de Teive. - Pelo contrário, aventou a mais moral e desejável das saídas nestes apertos. Mas o que nós queríamos era socorrê-lo sem que ninguém casasse.
- Parece-me isso justo e exequível. É mandar-lhe dinheiro por pessoa capaz - respondeu categoricamente o sacerdote.
Fernão, com prazenteiro rosto, acudiu:
- Quer o padre Joaquim ir a Paris? Não temos outra pessoa que o iguale em capacidade.
- Irei ao fim do mundo no serviço de V. Exª.
- E se o primo Afonso - disse Mafalda - rejeitar o dinheiro?
- Se rejeitar o dinheiro, volto com ele para casa; sinal é que lhe não é preciso.
- Se o rejeitar por ser de condição independente e tomar como esmola o favor do pai? - replicou Mafalda.
- Nesse caso cito-lhe os meus autores nas matérias vaidade, soberba e orgulho; e hei-de convencê-lo a aceitar o dinheiro.
- Vai o padre a Paris -disse Fernão.- Amanhã parte para o Porto: lá o dirigirão. Prepara tu, Mafalda, a bagagem do Sr. Padre Joaquim. Tira o necessário para o meu enterro e manda tudo mais que encontrares a Afonso.
- Enterro! - exclamou Mafalda, escondendo o rosto no seio do pai.Ao escurecer, recrudesceram os padecimentos de Fernão de Teive.
Por volta da meia-noite, com toda a luz da razão e clareza de voz, pediu os sacramentos, e conversou até às duas horas. Ao amanhecer dormiu um sono quieto, e acordou aflito. Pediu a extrema-unção e respondeu durante a cerimónia as palavras rituais em irrepreensível latim.
Depois chamou a filha, beijou-a e deu-lhe a beijar o crucifixo, que tinha entre mãos, reclinou-se para o ombro dela, dizendo:
- Sobre este ombro expirou minha irmã... Se alguma vez vires o filho da santa mulher, dá-lhe um abraço... e tu, filha... adeus até ao Céu.
Mafalda rompeu em altos clamores. Fez-lhe o pai um gesto de silencio com os olhos.
Foi este o derradeiro gesto daqueles olhos, fitos já na aurora da eternidade e fechados para sempre sob os lábios de sua filha.
XXII
Eram atrozmente verdadeiras as informações comunicadas pelo desembargador Figueiroa sobre a desfortuna de Afonso de Teive em Paris.
Os quinze mil cruzados, produto suposto da quinta de Ruivães, engoliu-os a voragem do jogo de fundos, à qual o alucinado moço se atirou às cegas, contando com a vicissitude favorável, por ter sido infeliz nas outras.
Resolveu matar-se. Esta deliberação contrabalançou as agonias da pobreza desesperada. Como via a morte no leve movimento de um gatilho, deixou de encarar o futuro. Que lhe importava morrer pobre?! Encheu-se de coragem e deu graças a Deus pela fortaleza que lhe dava. Juntou os objectos de ouro e pedras que reservara para aquela hora premeditada. Chamou o criado e disse-lhe:
- Vende isso que aí está. Creio que o valor dessas coisas bastará ao pagamento do que te devo em dinheiro e soldadas: se algum resto houver a maior, leva-o para te passares à tua terra.
- E o fidalgo onde fica?! - perguntou o Tranqueira.
- Aqui! - disse Afonso.
- Pois também eu, patrão! Já agora, tenha paciência; gastei a mocidade em sua casa; a velhice por cá a levarei nesta endiabrada terra, como Deus for servido. Guarde lá o fidalgo as suas coisas, que eu não as quero, nem lhe pedi nada. Para eu viver, bastame uma carroça e um cavalo estropiado. Arranje V. Exª a sua vida, que eu cá me irei arranjando.
- Cumpre as minhas ordens, Tranqueira! - replicou Afonso com fingida severidade.
- Perdoará, Sr. Afonso... - volveu o criado. - É a primeira vez que lhe desobedeço.
Eu não recebo nada enquanto o não vir com outro arranjo de vida.
- Faz o que quiseres... - redarguiu o moço, embolsando a punhados os objectos que oferecera ao criado, na intenção de sair para vendê-los.
Tranqueira desconfiou do intento suicida do amo. Apenas esta suspeita lhe saltou de repente ao ânimo, atravessou-se à porta do quarto, exclamando:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.