Por Coelho Neto (1890)
Tomou a bacia, despejou-a no balde, segurou-o pela alça e, com o jarro na outra mão, saiu em passos leves. Outra vez só, ele empenhou-se em uma luta íntima dialogando com um outro eu prudente e covarde que lhe abrandava e arrefecia os estos passionais.
"Ora! Que tem? Falo, digo-lhe a verdade: não pode zangar-se. Que mal há nisso? Se fosse uma proposta infame, mas... dizer-lhe que a amo muito e muito, consultá-la antes de pedi-la ao pai?" "E se ela revoltar-se?" "Revoltar-se por quê?" "Mas admitamos que se revolte..." "Não há razão para isso..." "Ora, não há razão... Não é em um quarto de um leito, que um homem faz propostas de casamento a uma menina... "Mas se eu estou doente..." "Espere. Não é decente. Não é correto..." "Correto... pois falo...! Que pode acontecer? Se ela tomar a mal e queixar-se ao pai,
digo tudo, caso e está acabado..." "Pois sim..." "Pois sim mesmo..." Mas o balde tilintou no corredor.
— Dá licença?
— Pois não, miss.
E Carlota entrou, pôs em ordem o lavatório, substituiu a toalha e, enquanto, de costas, fazia, às pressas, a cama de Ruy Vaz, Anselmo, com os olhos nas tranças louras, dialogava com o outro eu tímido e vitorioso:
"Então? Por que não lhe falas agora? Fala!..." "Falo mesmo..." Mas não ousou sair do silêncio e foi Carlota quem o quebrou:
— E o senhor não come?
— Não sei ainda, miss; se o médico permitir..
— Pois sim. Nós podemos arranjar alguma coisa, não será bem feita, mas como o senhor não pode sair... — Muito obrigado.
A campainha tiniu e soaram passos fortes no corredor da entrada.
— Parece que está aí o seu companheiro com o doutor. Bem, então, se precisar alguma coisa..
— Sim, miss.
— Até logo... Estimo as suas melhoras.
— Miss... sussurrou o enfermo, mas era tarde. Ruy Vaz bradava do corredor:
— Então! Como vamos? Oh! Miss...
— Diabo! Justamente quando eu ia dizer-lhe tudo!
O Teixeira, médico e filósofo, era um belo homem, moreno e atarracado, de espessos bigodes negros, olhos vivos, gestos largos. Entrou descerimoniosamente, pisando forte e Anselmo, que mal o conhecia, sentou-se para recebê-lo.
— À vontade. Então que há?
Ruy Vaz apareceu com uma cadeira, mas o médico já se havia sentado à beira da cama, enquanto Anselmo arregaçava lentamente a manga para mostrar-lhe o braço. Ele curvou-se e examinou com cuidado, tocando o cordão que cedia molemente ao tato.
— Dói?
— Muito, doutor!
— É a primeira vez que tem isto?
— Não senhor; tive em criança, mas não assim com esta violência.
— Neste mesmo braço?
— Sim senhor.
— Teve febre?
— Tive.
Tomou o pulso e ficou um instante atento; depois, voltando-se para Ruy Vaz, que se conservava de pé junto ao leito:
— Tem ainda alguma, mas pouca. Isto não tem valor. Vou fazer uma receita.
Levantou-se e, enquanto lavava as mãos, perguntou: Também é poeta?
— Não, senhor: estudo Direito.
— Qual estuda! — contrariou Ruy Vaz. Abandonou a academia no terceiro ano para fazer literatura. É mais um para a fome.
O médico meneou com a cabeça e esticou o beiço desanimadamente:
— Ah! Meu amigo, a literatura, entre nós, não dá para o charuto. O nosso povo não lê por indiferença e por indolência, nem tem ainda o espírito preparado para compreender a obra da Arte. O que ele quer, por enquanto, é o maravilhoso: está ainda no período infantil do deslumbramento. Quais são os romances preferidos? São os de complicado enredo, os magnificentes, os emaranhados que não passam de ampliações de contos de fadas para crianças grandes. Não há ainda o critério estético; não sei se posso dizer assim. O leitor não se preocupa com a substância nem com a forma; a inverosimilhança é o seu ideal, quanto mais irreal melhor. Dê o senhor a um homem um bom estudo de caracteres e uma fábula bem lantejoulada que ele não hesitará um momento. Se os senhores quisessem tentar o gênero Ponson, isso sim... mas psicologias... hum! Voltou-se para Ruy Vaz, caramunhando: Agora, eu te digo: também não vou muito com as tais psicologias. A ciência tem o seu lugar no real; o romance faz-se de sonhos e, até para o equilíbrio intelectual, acha necessária a discriminação — a cada um o que lhe cabe: ao sábio, a investigação; ao poeta, a fantasia. Cada macaco no seu galho. Eu, por exemplo, depois de um livro científico gosto de repousar em uma página de Dumas ou de Mery, como depois de umas horas de trabalho no meu gabinete, sinto-me bem no meu jardim, olhando as flores, ao fresco da tarde. É um alívio. Não posso com as tais psicologias, são quase sempre falsas — os autores não estudam caracteres, fazem-nos para as situações que imaginam. Há coisas absurdas... Por exemplo... Ia demonstrar a existência das "coisas absurdas", mas Ruy Vaz puxou-o pela manga do casaco:
— Não; tem paciência: vem receitar primeiro. Quando começas com a literatura, não te lembras de mais nada. Ainda, que o rapaz está aí que não pode.
— Espera, homem; pediu o médico pachorrentamente.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.