Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#ensaio_literari#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

A casa n.º 97 ainda conserva em tradicional tabuleta o antigo letreiro: Fábrica de Fundas do Vannet; mas eu aposto que o seu atual proprietário e fabricante não será capaz de exclusivamente com o produto da venda de fundas levantar casarão igual àquele que ficou mencionado.

Por quê?...

Quem puder explique ou resolva este problema econômico e medicinal ou cirúrgico. Eu que não sou economista, nem médico prático, apenas chego a compreender a causa pelo modo seguinte:

No tempo do velho Vannet todos os homens que, por qualquer causa, se sentiam com o que vulgarmente se chama quebradura ficavam realmente quebrados e recorriam ao prudente socorro das fundas; hoje em dia, porém, as fundas se tomaram muito menos necessárias, porque observa-se que alguns quebrados apresentam o curioso fenômeno de se acharem mais inteiros, e se podem quebrar duas vezes, isto é, à direita e à esquerda, avulta ainda mais a saúde perfeita, de modo que as fundas de Vannet não têm mais a extensa procura do outro tempo.

Esta explicação pode afigurar-se demasiado metafísica, mas eu asseguro que, pelo contrário, ela é filha legítima da escola realista.

Aquela casa n.º 113, ainda do lado esquerdo, acanhada, estreita, mas de três pavimentos, cujo letreiro chamador de fregueses anuncia o Café de Londres, e excelente Restaurant, foi levantada no lugar onde se mostrava a antiga e pequena casa térrea de duas portas, que ainda em 1838 era loja de livros do Albino Jordão.

Lembro-me sempre dele! lembro-me da sua modesta loja de livros novos e velhos, de obras encadernadas ou em brochura, que se vendiam ali a barato preço. Em meu tempo de estudante fui freguês do Albino Jordão e entre outras obras comprei-lhe as Memórias Históricas de Pizarro e as Memórias para Servir à História do Reino do Brasil, do Padre Luís Gonçalves dos Santos, por alcunha o - Perereca -, as quais de tanto socorro me têm sido em estudos, como este que estou fazendo.

O Albino Jordão era, quando o conheci, homem já velho, vestindo sempre jaqueta, e desde muito cego e surdo. Contra a cegueira não tinha recurso, que não fossem a memória surpreendente e o tato explicavelmente aprimorado; contra a surdez, que não era completa ou absoluta, socorria-se de famosa e tradicional buzina, que o fazia ouvir o que os fregueses da loja procuravam.

Albino Jordão tinha dois ajudantes, meninos ou rapazes de quatorze a dezesseis anos, de instrução nula e de pouco zelo: quando eles, porém, não serviam de pronto a algum freguês e demoravam-se, procurando o livro pedido, o cego levantava-se da sua cadeira, punha a buzina ao ouvido, e ciente do que se pedia, ia sempre certeiro e sem nunca enganar-se tomar o livro na estante e o lugar onde estava, ainda mesmo quando lhe era necessário subir por pequena escada portátil para ir buscá-lo.

Eram na verdade admiráveis a memória, o tato e o tino que a cegueira apurava naquele velho cego, mas, para que pudessem tanto, era só e exclusivamente ele o ordenador e colocador dos livros nas estantes da sua loja.

Albino Jordão foi, como livreiro, contemporâneo dos notáveis e célebres livreiros Saturnino, João Pedro da Veiga e Evaristo Ferreira da Veiga, filhos do primeiro; mas em sua loja, que não podia rivalizar com a daqueles, vendia em geral obras já usadas, livros em segunda mão, e portanto baratíssimos, e se por isso deve ser tido em conta do primeiro alfarrabista da cidade do Rio de Janeiro, foi de tanto proveito para o público, e de tão sã consciência na sua indústria, que nunca lhe caberia o nome feio que os estudantes do Imperial Colégio de Pedro II deram ao vil belchior de livros velhos estabelecido na vizinhança daquele colégio da Rua de S. Joaquim, nome um pouco obsceno que a principio se estendeu a todos os chamados hoje alfarrabistas.

A Rua do Ouvidor deve perpetuamente lembrar o seu Albino Jordão, o primeiro livreiro que teve, o precursor, ou antecessor dos Srs. Laemmert, Garnier e ainda outros, o Albino Jordão, enfim, cuja buzina foi tão famosa como a tesoura de Mme Joséphine, e muito mais útil do que ela, se as minhas excelentíssimas leitoras permitem que eu assim o pense.

CAPÍTULO 15

Como em viagem pela Rua do Ouvidor entramos no quarteirão que demora entre as de Gonçalves Dias e da Uruguaiana e não achando aí casas célebres no passado, vejo-me baldo de matéria, e por isso mesmo falo mais do que nunca, ocupando os meus companheiros de viagem com observações sobre os bondes e sobre o famoso e vizinho Alcazar, depois chamado Teatro Lírico Francês, planta daninha que nos veio de França. Como enfim conto curiosa história que é da Rua do Ouvidor, mas que eu não digo nem quando, nem em que loja de modista se passou; dou à história forma de romance, e nela muitas lições morais, e principalmente a última, que é de fazer arrepiar os cabelos.

O quarteirão da Rua do Ouvidor que fica entre as Ruas de Gonçalves Dias e, antiga da Vala, hoje da Uruguaiana, não me lembra casas célebres, nem fatos que não sejam da atualidade.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5152535455...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →