Por Eça de Queirós (1925)
Houve risadas, a porta fechou-se bruscamente. Arthur foi subindo devagar. Viera-lhe uma recordação de quando era pequeno e estivera um verão no Porto, com seu pai, na estalagem do Leão d'Ouro. Pelas tardes queutes do domingo, cheias de pó, o creado levava-o a uma horta, para os lados da Lapa : comiam t)emogos ao pé d'um faval, onde sussurrava a agua das regas, e iam vêr os galegos dançar debaixo do parreiral, ao som da gaita-defolles que fazia mu-i-ñe-ra ! mu-i-ñe-ra ! Depois a caneca de vinho verde passava em redor ; sentiamse ao lado os pah ! seccos do jogo da bola ; então uma gallega erguia-se, e com as tranças louras cahidas sobre o collete escarlate, os braços abertos, punha-se a girar devagar ao churre-churre dos pandeiros ! — Ha quaü]to isso fôra ! Se seu pae o pudesse vêr a cora, em Lisboa, com dinheiro no bolso, manuscriptos no bâllú ! E reconfortado, estirou-se na cama, murmurando com voluptuosidade : Estou em Lisboa, estou em Lisboa !
Ao outro dia, depois do almoço, por um sol magnifico, Arthur preparou-se para ir visitar, eom a sna carta de recommendação, o sobrinho do Rabe-
caz, o gnr. Venancio Guedes. Para se apresentar com chic, comprou, n'uxn armazem de fato feito, um paletot de panno azulado com gola de velludo, que lhe aconselhou um caixeiro d'ar profundamente infeliz ; depois, n'um sapateiro, ornou-se de botas de verniz, e assim equipado, de luvas pretas, n'uma bella caleche, dirigiu-se ao largo do Carmo.
Um individuo barrigudo, de fartas suiças côr d'azeviche, abriu-lhe a porta, e com uma voz de trombone, roncou para dentro :
— Um sujeito que o procura, snr. Venancio !
— Mande entrar, snr. Ferraz !
O snr. Venancio, á mesa, almoçava. Os gestos miudinhos com que partia os seus ovos quentes, a sua carinha amarellada, de beiços finos, o cabello correctamente acamado, revelavam um individuozinho meticuloso, muito admirador do seu director geral. Abriu a carta do Rabecaz, e começou a lêl-a, puxando os pellos do bigodinho louro, aparados á tesoura. No quarto proximo, por traz d'um reposteiro azul, uma voz cantava aos berros :
Acceita o sabre de meu pae I
Acceita o sabre: Acceita o sabre'
Nas paredes pendiam gravuras violentamente coloridas, onde se distinguiam damas e cavalleiros entre paisagens idyllieas ; um papagaio, no poial de
pedra da janella, meneava-se no seu poleiro, e o snr. Ferraz esperava com uma das mãos papudas apoiada á mesa, a outra encostada com chic ao quadril obeso.
O snr. Venancio poisou a carta, ageitou nervosamente o robe-de-chambre sobre o peito, e com uma vozinha acre, ás fisgadas :
— Mas eu não conheço littcratos ! Eu não conheço litteratos, meu caro senhor ! Quer que o apresente. Mas a quem A quem ? Se eu não conheço ninguem !
Acceita o sabre, o sabre, o sabre,
Acceita o sabre do papá, Pan, pa, pa, pa pum t
gritava a voz estridente.
— Eu vivo muito retirado, meu caro senhor. Vivo para as minhas occupações. Não conheço d'essa gente , . .
Arthur, já envergonhado, acudiu :
—O tio de V. Ex. a que talvez V. Ex. a soubesse a morada do snr. Melchior Cordeiro . . . Venancio teve um pulinho de contrariedade :
— E V. S. a a dar-lhe ! Eu nõ,o conheço ninguem ! O reposteiro azul abriu-se, e um rapaz de grandes bigodes appareceu, exclamando com impeto :
— Salta o almocinho ! Papagaio roal I Ferraz amigo, og manjares I
— Tu conheces um Melchior Cordeiro ? — disse Venancio, voltando-se para elle, acamando nervosamente o penteado.
O outro estacou, baixou levemente a cabeça a Arthur, e retorcendo vivamente o bigode com ambas as mãos :
— Melchior Cordeiro, Melchior Cordeiro . . . —
murmurava.
Arthur olhava-o quasi com anciedade ; na rua, pregões cantavam, e para o lado do quartel soavam cornetas d'exercicio.
— É um jornalista lembrou Arthur.
— Não conheço ! — E dirigindo-se jovialmente ao papagaio : — Papagaio real ! Viva a Carta Cons titucional !
— Já vê — disse Venancio, com regosijo mal reprimido. — Ninguem conhece semelhante gente. — E poz-se com satisfação a esgaravatar os ouvidos.
Arthur, profundamente despeitado, tomou o cha Péu.
— E o senhor meu tio ainda se embebeda todas as noites ? — perguntou o Venancio, continuando a partir os seus ovos.
Arthur, petrificado, baubuciou :
— Não me consta, não me consta . .
Mas o sujeito barrigudo abrira a porta, e descendo a escada, furioso, Arthur sentia ainda os gri-
tos do papagaio e a voz jubilante do outro cantar desesperadamente :
Acceita o sabre, o sabre, o sabre!
Acceita o sabre, o sabre do meu papá !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.