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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Depois, quem sabe? Entre o Cavaleiro e ele afogadamente se enroscava todo um passado de camaradagem, apenas entorpecido - que talvez revivesse nesse encontro, os enlaçasse logo num abraço penetrante, onde os antigos agravos se sumiriam como um pó sacudido... Mas para que imaginar, remoer? Uma necessidade se sobrepunha, iniludível - a de comparecer logo de manhã em Oliveira, no Governo Civil, requerendo a supressão do Casco. Dessa pressa dependia o seu sossego de vida e de inteligência. Nunca ele lograria trabalhar na Novela, trilhar folgadamente a estrada de Vila-Clara, sabendo que em torno o outro, pelas quelhas e sombras, rondava com a espingarda. E para não regressar aos costumes bravios dos seus avós, circulando através do Concelho entre as carabinas dos criados, necessitava o Casco domado, imobilizado. Era pois inadiável correr ao Governo Civil, para bem da Ordem. E depois, quando ele se encontrasse no gabinete do Cavaleiro, diante da mesa do Cavaleiro - a Providência decidiria... - "A Providência decidirá!"

E, ancorado nesta resolução, o Fidalgo da Torre parou, olhou. Levado pela quente rajada de pensamentos, chegara à grade do Cemitério da Vila que o luar branqueava como um lençol estendido. Ao fundo da alameda que o divide, clara na claridade triste, o escamado Cristo chagado e lívido, sobre a sua alta cruz negra, pendia, mais dolorido e lívido no silêncio e na solidão, com uma tristissima lâmpada aos pés esmorecendo. Em torno eram ciprestes, sombras de ciprestes, brancuras de lápides, as cruzes rasteiras das campas pobres, uma paz morta pesando sobre os mortos; e no alto a lua amarela e parada. Então o Fidalgo sentiu um arrepiado medo do Cristo, das lousas, dos defuntos, da lua, da solidão. E despediu numa carreira até avistar as casas da Calçadinha, por onde descambou como uma pedra solta. Quando se deteve no largo do Chafariz, um mocho piava na torre da Câmara, melancolizando o repouso da VilaClara apagada e adormecida. Mais impressionado, Gonçalo correu à taberna da Serena, recolheu os criados que esperavam jogando a bisca lambida. E com eles atravessou de novo a Vila até a cocheira do Torto - para recomendar que lhe mandassem à Torre, às nove horas da manhã, a parelha ruça.

Através do postigo, que se abrira com cautela no portão chapeado, a mulher do Torto gemeu, indecisa:

- Ai, meu Deus, não sei se poderá... Ele às nove tem um serviço... Pois não faria mais conta aoFidalgo aí pela volta das onze?

- As nove! - berrou Gonçalo.

Desejava apear cedo ao portão do Governo Civil, para evitar a curiosidade daqueles cavalheiros de Oliveira - que, depois do meio-dia, se juntavam na praça, vadiando por debaixo da Arcada.

Mas às nove e meia Gonçalo, que até o luzir da madrugada se agitara pelo quarto num tumulto de esperanças e receios - ainda se barbeava, em camisa, diante do vasto espelho de colunas douradas. Depois aproveitou a caleche para deixar na Feitosa os seus bilhetes de pêsames à bela viúva, à D. Ana. Ao meio-dia, esfaimado, almoçou na Vendinha, enquanto a parelha resfolegava. E batia a meia depois das duas quando enfim se apeou em Oliveira diante do portão do antigo convento de S. Domingos, ao fundo da praça, onde seu pai, quando chefe do Distrito, instalara faustosamente as repartições do Governo Civil.

Àquela hora, já na frescura e sombra da Arcada, que orla um lado da praça (outrora praça da Prataria, hoje praça da Liberdade), os cavalheiros de Oliveira mais desocupados, "os rapazes", preguiçavam, em cadeiras de verga à porta da Tabacaria Elegante e da loja do Leão. Gonçalo, cautelosamente, baixara as cortinas verdes da caleche. Mas no pátio do Governo Civil, ainda guarnecido de bancos monumentais do tempo dos frades, esbarrou com o primo José Mendonça, que descia a escadaria, fardado. Foi um assombro para o alegre capitão, moço esbelto, de bigode curto, picado levemente de bexigas.

- Tu por aqui, Gonçalinho! E de chapéu alto! Caramba, deve ser coisa gorda!

O Fidalgo da Torre confessou corajosamente. Chegava nesse instante de Santa Irenéia para falar ao André Cavaleiro...

- Está ele cá, esse ilustre senhor?

O outro recuou, quase aterrado:

- Ao Cavaleiro?! É ao Cavaleiro que vens falar?!... Santíssima Virgem! Então desabou Tróia!

Gonçalo gracejou, corando. Não! não se passara desgraça épica como a de Tróia... De resto podia revelar ao amigo Mendonça o caso que o arrastava à presença augusta de Sua Exa. o Sr. Governador Civil. Era um homem dos Bravais, um Casco, que, furioso por não conseguir o arrendamento da Torre, o ameaçara, rondava agora a estrada de Vila-Clara, de noite, à espreita, com uma espingarda. E ele, não ousando "fazer alta e boa justiça" pelas mãos dos seus criados, como os Ramires feudais - reclamava modestamente da Autoridade Superior uma ordem para que o Gouveia mantivesse dentro da legalidade e dos Mandamentos de Deus o façanhudo dos Bravais...

- Só isto, uma pequenina questão de paz pública... E então o grande homem está lá em cima?Bem, até logo, Zezinho... A prima, de saúde? Eu naturalmente janto nos Cunhais. Aparece!

Mas o capitão não despegava do degrau de pedra, abrindo pachorrentamente a cigarreira de couro:

- E que me dizes tu à novidade? O pobre Sanches Lucena?...

Sim, Gonçalo soubera na Assembléia. Um ataque, hem? - Mendonça acendeu, chupou o cigarro:

(continua...)

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