Por Camilo Castelo Branco (1862)
Algumas vezes interrogava a minha consciência, perguntando-lhe se eu amava Tomásia. Não me respondia, por se julgar desautorizada para a resposta. Ao coração é que tocava o discutirmos semelhantes pontos de pouquíssima importância para o complemento da minha felicidade. Eu tinha lido a Bíblia e não vira lá os patriarcas oferecendo ou pedindo amor às mulheres com quem se esposavam. Booz não diz a Rute que a ama. Jacob, conquanto dessimpatize com os olhos doentios de Lia, não se declara amoroso de Raquel. Abraão casou com Sara sem se despender em maravalhas do coração. Na idade de ouro, a mulher era a fêmea do homem: casavam para procriarem, segundo suas espécies, e procriando envelheciam ditosos.
O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.
Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: “A Maria do Ribeiro ama o António da Capela.” Lá não se diz ama; é querem-se. “Querem-se” é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, em uma só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer cogitam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.
O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem subtilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimónio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.
Eu cismava estas e outras coisas quando me estava preparando para entregar a minha vida às quietas delícias dum casamento que faria rir de piedade os meus amigos.
IX
Fui.
No carvalhal que forma o ádito da povoação de Soutelo esperavam-me os quatro clérigos, o sargentomor, o abade, o boticário e o juiz eleito. Abraçaram-me todos sem ser apresentado aos três personagens que ampliavam o círculo das minhas relações. Aquela boa gente das aldeias vem direita a um homem, dá-lhe um abraço de amolgar as costelas e levanta-o ao ar na veemência de sua credulidade. Coisa que nunca por lá me disseram foi: “Aqui lhe apresento o Sr. Fulano”.
Os Fulanos da aldeia julgam-se sempre assaz visíveis para dispensarem que outrem diga deles: “Aqui lho mostro”.
Abalámos dali para casa.
Tomásia veio receber-me ao patim da escada e logo me perguntou pelo Agnus Dei. Mostrei-lho, tirandoo do peito. A contente moça beijou a relíquia e disse:
- Vê meu pai? Cá o tem ao peito. Vossemecê dizia que o Sr. Silvestre não punha isto!... Eu bem sabia que ele era cristão!
Estava a mesa posta e coberta de pratos de trutas e escalos, entre açafates de fruta.
Merendámos e ficámos em palestra na varanda de cantaria até ao toque das ave-marias.
Depois da reza saíram os convidados: os padres também saíram para rezar o breviário, o sargento-mor foi tomar um banho no rio e eu fiquei sozinho com tomásia.
Coaxavam as rãs e zumbiam os besouros. Dos soutos e carvalheiras vinha o pio gemente das corujas e dos mochos. Os morcegos voejavam por entre os pilares da varanda. Nas cortes vizinhas da casa balavam os cordeiros, e refocilavam-se as cabras, produzindo o som cavo do embate das marradas - divertimento que a humanidade usa com menos estrondo e mais às claras.
Tomei a mão de tomásia e disse-lhe:
- És muito minha amiga?
- Sou - respondeu ela, dando a outra mão, que eu apertei entre as minhas.
- És feliz em casar comigo?
- Agora é que tenho quanto desejo.
- E se eu não voltasse, se eu não casasse contigo, eras desgraçada?
- Deus me livre! Morria como a menina de Chaves.
- E se te dissessem que eu gostava doutra mulher, querias-me?
- Se o Sr. Silvestre gostasse doutra não me queria a mim.
- Mas se eu viesse a gostar depois de casado?
Tomásia retirou as mãos. Não sei se perdeu a cor, que era suficiente a claridade das estrelas para este estudo.
- Porque tiras as tuas mãos das minhas?! - perguntei.
Tomásia deu-as outra vez, sem responder.
Insisti na pergunta.
- Isso não pode ser - disse ela.
- O que não pode ser?
- Casar comigo e gostar doutra depois... Meu pai quis sempre muito a minha mãe, e todos os casados que conheço são como era meu pai.
- E eu serei como eles, minha amiga. Não penses mais nestas perguntas.
Abracei-a, dei-lhe um beijo na face e deixei-a ir dar as ordens para a ceia.
O beijo recebeu-o sem estremecimentos de pudor, como as donzelinhas dos romances.
X
Dois dias depois, às seis horas da manhã, ouvi um tiroteio que vinha soando das montanhas e vales convizinhos da aldeia.
Eram os amigos do sargento-mor, chamados e não chamados a festejar o casamento da morgada. Assim a denunciavam por ser filha única.
Encheram-se os extensos casarões de gente. Chamavam lá cobrados e casarões ao que nas terras onde já chegou a ilustração das palavras se chama “salas”.
Vinham à mistura com os lavradores muitas moças de alegres rostos, com abadas de flores desfolhadas. O juiz eleito vestia casaca e o boticário parecia trazer na gola da sua todo o laboratório farmacêutico.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.