Por Camilo Castelo Branco (1864)
- E aceitará? - replicou Mafalda. - Tomará a dádiva como esmola?
- Ó mulher! - retorquiu o velho -, tu estás uma argumentadora dos meuspecados!... E o mais é que lembras com juízo essa espécie!... O doido é capaz de rejeitar, se eu dou dinheiro e quinta! Pois bem: diga-se-lhe que eu compro a quinta, e mande-se-lhe os quinze mil cruzados, que é o valor da coisa. Vou amanhã ao Porto! O dinheiro está aí. Fico sendo o proprietário de três quintas de Afonso. Cá te ficam, menina. Tu, depois, a teimares no propósito de morrer solteira, dá-lhas, se ele viver. Que mais quer a minha filha?
Mafalda ajoelhou a beijar-lhe as mãos. Ergueu-a o pai com muita ternura, enxugoulhe as lágrimas no lenço em que embebia as dele e disse, sofreando os soluços:
- Que esperas tu deste rapaz, Mafalda? Quando virá Deus em auxilio desse tão fraco e desventurado coração? Filha... estima-o; mas não o ames assim com esse amor que te devora a mocidade! Que vinte e quatro anos os teus tão desconsolados e estranhos às menores alegrias da tua idade!... E tu não cais em ti, filha, não vês que Afonso está cada vez mais longe de te avaliar!
- Sei, meu pai - respondeu Mafalda com serenidade.
- E então?... sabes, e não te vences...
- Não posso vencer-me. Deus sabe que lhe tenho pedido auxilio, e nem assim... - As lágrimas saltaram-lhe novamente, e logo os arquejos do peito, ansioso de ar.
- Pois bem, meu amor - tomou o pai, duplicando as meiguices-, eu absolvo a tua fraqueza, já que o Altíssimo te não fortalece. Quem sabe, filha, quem sabe os segredos do porvir? Há milagres mais assombrosos. Pode ser que ele ainda venha para ti com o coração purificado e o tributo da mocidade avaramente pago. Mais bom marido será então. Que te diz lá no intimo a voz do teu anjo? Serei profeta, minha filha, serei?
Mafalda sorriu-se e murmurou:
- E não podia ser assim, meu pai?! Às vezes, sonho-o; tenho horas em que me julgo louca, no meu contentamento sem causa, sem esperança!... Três canas recebi dele em oito meses, e que frias expressões! Quando eu o considerava esquecido, por amor daquela criatura, é que ele me escrevia mais amorável; agora, que é livre, e de mais a mais infeliz, parece que nem sequer me estima! E ainda assim, meu pai, eu tenho presságios, em meu coração, alegres como a sua profecia.
- Pois então pede a Deus que mede vida para que eu os veja realizados. -- mas, filha, a realização da profecia, se vier, já me não achará vivo.
XXI
Decorridos seis meses, Fernão de Teive, perigosamente enfermo e desenganado, dialogava assim com sua filha, ajoelhada sobre o estrado do leito, com a face inclinada aos lábios requeimados dele:
- Bem to disse eu, menina. A realização da profecia, se vier, encontra-me sem vida.
- Não há-de morrer, meu pai-clamou Mafalda beijando-lhe a fronte.
- Não peças a Deus isso, que os meus padecimentos são incomportáveis... Verdade é que te deixo quase sozinha; mas aí estão teus tios de Barcelos que te levarão para a sua companhia enquanto não puderes voltar à casa onde morre teu pai. Não chores assim, que me afliges, Mafalda... Triste coisa que um moribundo não possa falar aos seus com a presença de espírito dos que esperam viver muito... E, afinal, Deus sabe quem vive e quem morre!... Pois então, menina, que tem que conversemos placidamente...?! Bem... esse ar de conformidade está bem ao rosto angélico de minha filha... Falemos no nosso Afonso... Inventa lá tu um meio de lhe mandar recursos. Se é verdade o que soubemos por via do tio desembargador, o rapaz está mal. O jogo dos fundos arruinou-o segunda vez, ou reduziu-o a muito pouco...
- Mas as últimas cartas - atalhou Mafalda - não falam em negócios...
- Pois isso é que mais me persuade da informação do tio de Lisboa. Se Afonso prosperasse, dizia-o; ele, que se cala, é que está desgraçado.
- Oh! meu Deus! -exclamou a filha. - Diz bem, meu pai, Afonso está desgraçado... Não o confessa para que lhe não mandem alguma esmola os parentes.
- Isso mesmo; e por isso mesmo pensemos em remediá-lo com todo o melindre. Não te ocorre nada, filha?
- Manda-se-lhe o dinheiro, peço-lhe eu muito que o aceite... ele há-de condoer-se das minhas palavras...
- Não gosto desse meio: desaprovo a invenção. Aí vem padre Joaquim dar-nos aviso.
Padre Joaquim era um modelo de padres, capelão da casa, havia trinta e cinco anos; padre que se me ia fugindo deste romance por um cabelinho: o que seria novidade nos meus livros. Quando eu puder arquitectar uma novela sem padre, hei-de chamar-me romancista puxado de imaginação. O mestre dos escritores floridos, Almeida Garrett, segundo disse e provou, tinha o vezo dos frades. Ele e eu, cá muito no coice processional dos seus discípulos, havemos de fazer amar os frades e os padres, pelo menos os padres-capelães bem procedidos e venerandos como padre Joaquim, capelão da casa de Fonte Boa.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.