Por Coelho Neto (1890)
— Bem, mas o essencial é o médico. Até já.
Ruy Vaz foi à estante de Anselmo, tomou os dois poetas, fez um embrulho e partiu.
Só, o enfermo tornou ao sonho, mas não com a mesma tranqüilidade nem com o mesmo gozo, porque outra visão surgia, por vezes, fazendo desaparecer a meiga Isolda: era o casal unido dos velhinhos: ele morto, ela longe!... Ah! Se eles o vissem naquela extremidade, em tamanho abandono, sem ter à cabeceira uma pessoa amiga que dele cuidasse, que lhe refizesse o leito, que lhe chegasse aos lábios escaldados o copo de água fresca, que pensasse na hora dos remédios, que lhe preparasse a dieta! Entanto a mãe, sempre que praticava a caridade, dizia: "Deixem-me dar aos que precisam... Tenho um filho, não sei que há de ser dele neste mundo... Assim, se ele, algum dia, tiver fome ou frio, Deus há de deparar-lhe alguém que lhe faça o mesmo que agora faço"... E ele ali estava sozinho, talvez perto da morte, sem uma pessoa que lhe pusesse na mão a vela que ilumina a sombra derradeira, sem uma pessoa que lhe ouvisse a última palavra, só, numa casa estranha, entre gente estranha.
E julgava-se vítima da injustiça dos homens. Sentia que não era um nulo, tinha grande confiança no seu espírito e como que pasmava de que o não julgassem como merecia. As idéias fervilhavam-lhe no cérebro. Ali mesmo, sob aquela formidável pressão moral, moral, sentia-se como um gênio e via as suas "criações" desfilarem aereamente, vindo de todos os lados, baixando do teto, surgindo dos cantos, saltando das paredes e ouvia um sussurro de vozes à distância, mas tudo se desfazia, sumia-se. Tornava ao real, com a sensação de alívio de quem atravessa um túnel e, depois da asfixia subterrânea, ganha, de novo, o pleno ar, a luz dos campos.
Voltou-se no leito doridamente. Um relógio soou. Que horas seriam? A sede começava a abrasá-lo. Passando a língua pelos lábios sentiu-os secos, gretados. Ergueu-se com sacrifício, o braço encolhido, encheu o copo e bebeu avidamente, conservando-se um de pé, defronte do espelho, a mirar-se.
Achou-se desfigurado, muito pálido, os olhos cavados, o cabelo crescido e hirsuto; apalpou as pomas das faces passou a mão pela fronte derreando o cabelo e, lentamente, tornou ao leito, mas uma sinistra idéia no espírito.
Estirando-se, passou e repassou a mão pelos ossos das pernas, moveu a rótula, abarcou as coxas, tomou entre dois dedos o ápice dos ilíacos, depois, de uma a uma, as costelas, tocou os ossos da face e das têmporas, circulou as órbitas afundando o indicador, por fim pôs-se a arrepelar o couro cabeludo como se quisesse sentir todo o esqueleto.
Era a morte — ela ali estava, debaixo daquela camada de carne que mal a encobria. Teve medo, sentou-se no leito lançando olhares vagos, procurando ouvir rumores, num grande e ansioso desejo de viver. E como que lhe ia faltando o ar, o ambiente refazia-se. Ergueu-se, atafulhou os pés nas chinelas e saiu para a sala.
A luz reanimou-o, respirou largamente, livremente e lançou os olhos às estantes procurando um livro, mas bateram à porta. O coração teve um sobressalto, e, comovido, ergueu-se da cadeira onde se havia deixado cair e, pé ante pé, sutilmente, encaminhou-se para o parto; deitou-se e cobriu-se. Bateram de novo, falou então:
— Entre.
Era Carlota. Não o vendo na sala, a menina deteve-se perguntando: Se podia entrar.
— Entre, miss. Estou de cama.
— Está doente?! — exclamou ela penalizada.
— Bem doente.
— Que tem?
— Não sei Meu companheiro foi chamar um médico. Entre.
— Ela atreveu-se, vagarosamente, como em receio: vendo-o, porém, deitado, acreditou avançando então até o leito impressionada. Estava mais linda que nunca. Os cabelos brilhavam-lhe como se neles houvesse um pouco do sol que andava lá fora dourando as árvores; os olhos pareciam mais azuis, os lábios tinham mais cor e evolava-se-lhe um tal perfume do corpo que, mesmo à distância como ficara, lá chegava ao enfermo beneficamente o delicioso aroma. Olharam-se algum tempo. Ele esteve para falar-lhe do seu amor, propondo desposá-la, mas o ar sereno, frio, indiferente da jovem desconcertou-o.
— Tem febre?
— Muita, miss.
— Mas o médico vem, não é?
— Vem. Meu companheiro foi buscá-lo.
— Então... sorriu e disse, com um leve acento: Não há perigo. Se o senhor fosse estrangeiro, isso sim! Mas brasileiro, não há perigo. Com licença. — Pois não, miss.
Saiu para a sala. Anselmo ouvia desvanecidamente o roçar leve da vassoura e o farfalho dos papéis varridos, depois as cadeiras arrastadas e as surdas pancadas do espanador nos móveis, até que ela apareceu de novo à porta do quarto:
— Dá licença? — Pois não.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.