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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Maria, adormecida há vinte anos naquele torpor de espírito que lhe paralisara todas as faculdades da inteligência, acordou subitamente ao som daquela voz, que outrora tinha ouvido entre pragas e sangue, e que agora maviosa e humilde implorava o perdão a seus pés. Surpreendida e atônita como quem despertava bruscamente de um profundo dormir, sua alma vacila alguns momentos como que procurando em vão reatar ao presente um remoto passado; mas enfim clareando-se-lhe subitamente as idéias como por uma inspiração do céu:

— Para perdoar-te, respondeu com voz calma e firme.

Os olhos do ermitão, até ali extintos e cravados no chão, encheram-se de luz e volveram-se para o céu.

— Eu vos dou infinitas graças, meu Deus, murmurou ele levantando-se dos pés de Maria, por me terdes concedido a inefável consolação de ouvir o meu perdão dos próprios lábios de minha vítima, e de vos terdes dignado baixar vossas vistas sobre este mísero pecador para torná-lo instrumento da vossa bondade e misericórdia.

Mateus e sua mulher, que atônitos contemplavam de parte aquela cena tocante e quase sobrenatural, como que custando ainda a capacitar-se do que viam e ouviam, possuídos a um tempo de timidez e respeito, até ali não se tinham atrevido a aventurar uma só palavra. Mateus por fim aproximou-se respeitosamente do ermitão e disse-lhe:

— E nós, Gonçalo, acaso já nos conheces? não te lembras mais do velho Mateus?

— Há muito já te reconheci, Mateus, a ti e a tua boa mulher. Mas desculpaime; este inesperado encontro, este abalo tão profundo... ah! perdoai-me... preciso também de vosso perdão...

E como a emoção embargava-lhe as falas, ele abraçou-os chorando.

CAPÍTULO III

A CONVERSÃO

Passados aqueles momentos de emoção, e dissipado algum tanto o assombro que deixara nos ânimos aquele extraordinário acontecimento, o ermitão abriu a porta da capela e convidou os romeiros a entrarem. Ali prostrou-se perante o lindo altar, em que resplandecia a imagem da Santa Virgem; em fervorosa oração renderam graças à miraculosa Senhora pelos assinalados benefícios que dela acabavam de receber.

O disco do sol já se elevava no horizonte; a multidão dos romeiros já começava a inundar o pequeno templo, que mal os podia conter, e sussurrava como um enxame de abelhas em manhã de primavera a entrarem e saírem pela estreita porta da colmeia. Era já tempo de deixar o ermitão, que naqueles dias não pertencia a si, e tinha de dar atenção a milhares de romeiros. Antes porém de se separarem , Mateus pediu a Gonçalo que lhe contasse o que lhe tinha acontecido desde o seu desaparecimento de Vila Boa até aquela época, e que série de singulares acontecimentos o tinha levado a fundar aquela capela e a viver vida de austeridades e penitências no meio daqueles desertos.

— Mateus, lhe responde o ermitão, a história de meus desvarios e desgraças é bastante longa, e decerto não exiges de mim que a conte aqui em alguns momentos e no meio deste tumulto. Durante os dias que aqui tiverdes de demorar, vinde todas as tardes àquela choupana que ali vedes; é ali a minha morada. Posto que me seja bem doloroso rememorar um passado de crimes, misérias e fraquezas, a vós nada devo ocultar; para me tornar digno do vosso perdão é meu dever tudo confessar-vos, e também para que fiqueis conhecendo e proclameis por toda a parte quão valioso e sublime é o poder daquela piedosa Virgem, a cuja celestial proteção devo a existência neste mundo, e por cuja intercessão espero no outro a salvação eterna.

Durante todo o tempo que estiveram no Muquém, os nossos romeiros todos os dias ao declinar do sol dirigiam-se à cabana do eremita, que distava como cinqüenta passos da capela. Era um pequeno rancho coberto de palhas de bagaçu com uma porta e uma janela, mas fresco e asseado.

Tinha junto à porta uma frondosa sucupira, única árvore de algum vulto que se notava naquela paragem. A sucupira diz-se que tem a propriedade de atrair o raio, mas Gonçalo dizia sorrindo:

— Nada no mundo desafia mais os raios da cólera celeste do que o pecado, e eu sou o maior dos pecadores.

De feito depois da morte de Gonçalo o raio derribou aquela árvore, que o céu parecia ter respeitado somente enquanto prestava uma sombra ao piedoso eremita. Junto à cabana havia também um cercado, que Gonçalo amanhava com suas próprias mãos cultivando algumas flores, com que enfeitava os altares da Virgem; e era esta ocupação a única distração que concedia aos rigores de sua vida ascética e solitária.

(continua...)

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