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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

No ano seguinte, 1844, improvisaram em rival impossível da Candiani outra cantarina de nome Delmastro; rompeu a luta apaixonada entre Candianistas, quase todos, e Delmastristas em minoria furente.

Um dilúvio de flores em cada noite de ópera italiana marcava os triunfos da Candiani.

Mme Finot prelibava sempre o odorífico preço de cada um daqueles dilúvios.

O delírio era tanto que até deu-se a um jasmim proveniente da província do Pará, e então novíssimo na cidade do Rio de Janeiro, o nome de Candiani. Foi lembrança de estudantes, em gratidão aos quais a cantarina em uma das noites de ópera mostrou-se ao público entusiasmado com o jasmim no peito: façam idéia do palmejar e dos aplausos frenéticos que então houve!...

E quem mais Candianista se exaltava era Mme Finot, que, quase posso jurá-lo, nunca tinha ouvido, nem jamais ouviu cantar a Candiani.

Não sei, não posso dizer se foi quando começavam a chegar de França as flores artificiais do célebre Constantino que principiaram a murchar as da loja de Mme Finot, que foi aos poucos descendo do seu elevado e famoso pedestal.

Antes, porém, da época ou data da sua decadência, Mme Finot viu a sua loja amorosamente aristocratizada.

Avivarei recordação do que se passou em... não quero marcar o ano, foi depois de 1840; mas, lembrando fraqueza humana, não levarei minha indiscrição até o ponto de declinar grande nome histórico.

Dizem-me que Mme Finot fora bonita; mas no tempo em que pude e posso dar testemunho do que ela me pareceu devo crer que ela pertencia ao belo sexo, somente pelo fato de pertencer ao sexo feminino.

Em compensação, porém, ela, ou por cálculo ou por inocente escolha, reunia e expunha em sua loja uma plêiade de raparigas floristas, a nenhuma das quais faltava o viço da mocidade, e a uma ou outra acrescia o dom de mais ou menos boniteza.

De uma dessas meninas se apaixonou em retour de lajeunesse um velho septuagenário, notabilidade política da mais elevada posição social, titular... etc... sábio e poeta inspirado de antiga reputação.

Dia por dia lá se encaminhava a passos lentos e quase rastejantes o ilustre velho para a loja de Mme Finot e ali ficava duas ou três horas ao lado da menina que o encantara, lendo-lhe às vezes ternos cantos poéticos que o pobre amor anacrônico lhe inspirava.

No fim das duas ou três horas de lirismo o septuagenário apaixonado, combinando o próprio gosto com o preço da tolerância da dona da loja, comprava bonitas e caras flores que deixava nas mãos e ao colo da menina florista, e saia para curtir saudades até o dia seguinte.

E logo que ele saia, Mme Finot sem riso nem careta, perfeita filósofa positiva, guardava na gaveta o produto das flores vendidas ao grande titular, enquanto as raparigas em zombarias mal-abafadas metiam à bulha a menina adorada, a quem aliás invejavam aquele amor que, embora limitado ao gozo de poesias e de flores, era em todo caso preferência e distinção.

Durou alguns meses este amor platônico e lamentável de velho: veio pôr-lhe termo a morte deste.

Asseguravam alguns íntimos amigos do notável personagem que os cantos e liras com que ele exaltava a sua ternura e a beleza da menina florista eram repassados de doce melancolia, magistrais sob o ponto de vista da arte, e surpreendentes na idade do poeta pela viveza da imaginação.

Ao pressentir, porém, a morte, o sábio arrependeu-se da mísera fraqueza e queimou seus terníssimos versos, extinguiu os testemunhos líricos do amor de septuagenário por menina.

Depois desta indiscreta revelação de caso que muitos observaram, como eu, mas que por ventura já esquecido estava, não devo ocupar-me mais de Mme Finot, e portanto - disse. E peço aos meus leitores três Ave-Marias para que Deus nos livre e guarde da fraqueza humana igual à daquele varão ilustre estadista, sábio e poeta, que ao aproximar-se dos oitenta anos se apaixonou por menina florista de menos de vinte primaveras.

Neste quarteirão da Rua do Ouvidor as celebridades se acotovelavam ao lado esquerdo.

Segue-se à casa n.º 95 a de 97; à de Mme Finot a florista, a casa onde explorou boa mina de ouro, vendendo fundas, M. Vannet, um dos mais antigos franceses da Rua do Ouvidor.

"Ouro é o que ouro vale."

Ao velho Vannet serviram as fundas para fundar tão boa fortuna, que sem outra fonte de recursos, e sem esgotar o capital adquirido, ele fez construir a casa de três pavimentos na mesma rua, esquina da de Gonçalves Dias, e .hoje também célebre, porque nos pavimentos superiores se acha estabelecido o Hotel Fréres Provençaux, cuja nomeada é contemporânea e, portanto, não pode entrar nestas Memórias.

(continua...)

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