Por Eça de Queirós (1925)
Foi então descendo ao acaso o Moinho de Vento, e ao passar por S. Pedro d'Alcantara, penetrou sob as arvores e foi encostar-se ás grades. A cidade cavava-se em baixo, no valle escuro, picado dos pontos de luz das jarmlas illuminadas, e, na escuridão, os telhados, os edifícios, faziam um empastamento de sombras mais densas. Aquellas luzes, debaixo d'aquelles tectos, que fermentação de vida ! Quantos amores, quantos m.ysterios, crimes talvez ! Alli, jornalistas compunham artigos, oradores preparavam discursos, estadistas conferenciavam, mulheres arigtoeraticas, nas suas salas, fallavam d'amores, e, nos pianos ricos, gemiam as cavatinas apaixonadas. Que grande, Lisboa !
Voltara-lhe a mesma sensação, sempre repetida, d'uma capital vasta, com uma intensa vida social, e olhava, vagamente exaltado, como se todas aquellas existencias accumuladas lhe mandassem ao coração o bafo das paixões que lhes suppunha.
Uma aragem fria fel-o encolher-se no seu paletot côr de pinhão. Foi descendo, parando junto ás oitrineg, voltando-se para os rostos pallidos das mulheres, meio escondidos sob mantas de lã ou véus escuros, seguindo com os olhos as lanternas das carruagens ricas, que punham claridades sobre os casacos claros dos lacaios. Descendo sempre, chegou janto do rio. Estava escuro, havia um friozinho cortante, e as lu zes dos mastros tremeluziam na noite. Veio-lhe, sem razão, uma melancolia, um sentimento de solidão. Áquella hora, todos estavam na suas casas bem mobiladas, no brilho das soirées, no conforto das convivencias intimas ; as mulheres recebiam os seus amantes, amigos discutiam, fumando, em volta do punch . . . Como conseguiria fazer conhecimentos, relacionar-se, viver, furar, n'aquella grande cidade rumorosa Agora tudo lhe parecia mais difficil, e as grandes fachadas sombrias das casas espalhavam em torno d'elle uma sensação d'isolamento, d'inaccessibilidade . . .
— V. Ex.a quer favorecer um chefe de familia desempregado — disse uma vu lamentosa ao pé d'clle.
Arthur aprumou-se e tirou cinco tostões da algibeira, que metteu na mão que lhe estendia um sujeito de chapéu alto e sobrecasaca coçada, a gola presa com um alfinete.
Aquella 'miseria entrevista entristeceu-o mais. O Aterro, longo, solitario, com um ventozinho frio, deu-lhe um sentimento de melancolia ; o coração confrangeu-se-lhe, sentiu a necessidade de voltar para o Hotel, vêr luz, estar debaixo d'um tecto, relêr o seu drama, para se fortalecer com a certeza do seu talento, e contar o seu dinheiro, para se animar com a evidencia dos seus recursos. Pôz-se a caminhar depressa pela rua do Arsenal ; mas no Terreiro do Paço perdeu-se : confundia as ruas largas, já um pouco desertas, parallelas, infindaveis. Andou, voltou: tinha vergonha de perguntar pelo Hespanhot. N 'uma rua estreita, vozes, por traz de taboinhas verdes, chamavam-no com psi-psts familiares ; dous bebados assustaram-no, cambaleando, praguejando, — e atarantado, já afflicto, chamou uma tipoia que passava devagar.
— P"r'o Hotel Hespanhot ! — disse, subindo para a tipoia.
O cocheiro fitou-o um momento, admirado, mas immediatamente bateu a parelha. Axthur sentou-se e acabava de fechar a vidraça quando o carro estacou.
CAPH'S.L
— Então
— Cá estamos, met amo. O H.espanhol é aqui. Arthur sahiu, vexado.
— Quanto é ? — perguntou timidamente ao cocheiro.
Uma placazinha ,
Com medo d'uma questão, Arthur pagou.
— Muito obrigado a, V. Ex. a, meu fidalgo — disse o homem.
No corredor do hotel, d'uma porta vivamente alumiada, sahiam sons de guitarra : uma voz mordente de mulher cantava n'um tom de malagueña :
A Ia puerta de mi casa Hay una piedra muy larga, La, ra, lá, lá.
E mãos batiam em cadencia, ao repenicar dos bordões.
Immovel, com o castiçal na mão, Arthur escutou : vozes hespanholas falla.ram desenvoltamente, rolhas de cerveja estalaram. Pensou que devia ser a rapariga do robe-de-chambre escarlate e os emigrados que recordavam canções das suas provincias, e aquil.lo pareceu-lhe muito poetico !
Uma voz forte d'homem elevou-se então : fazia estalar os dedos, e n'um rythmo de gaita-de-folles, cantarolava :
Doces galleguinos aires,
Quittadoilinos de penas
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.