Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo seguiu pensativamente por defronte do Correio; torneou a branca escadaria da igreja de S. Bento; meteu, alheado e sem reparar, pela estrada plantada de acácias que conduz ao Cemitério. E, naquele alto da Vila, donde, ao desembocar da Calçadinha, se abrange a largueza rica dos campos desde Valverde a Craquede - sentiu que também na sua vida, apertada e solitária como a Calçadinha, se alargara um arejado espaço cheio de interessante bulício e de abundância. Era o muro, em que sempre se imaginara irreparavelmente cerrado, que de repente rachava. Eis a fenda facilitadora! Para além reluziam todas as belas realidades que desde Coimbra apetecera! Mas... - Mas no atravessar da fenda fragosa decerto se rasgaria a sua dignidade ou se rasgaria o seu orgulho. Que fazer?...
Sim! seguramente! Estendendo os braços ao animal do Cavaleiro conquistava a sua Eleição. O círculo, enfeudado aos Históricos, elegeria submissamente o Deputado que Ó chefe Histórico ordenasse com indolente aceno. Mas essa reconciliação importava a entrada triunfal do Cavaleiro na quieta casa do Barrolo... Ele vendia pois o sossego da irmã por uma cadeira em S. Bento! Não! não podia por amor de Gracinha! - E Gonçalo suspirou, com ruidoso suspiro, no luminoso silêncio da estrada.
Agora, porém, durante três. quatro anos, os Regeneradores não trepavam ao Governo. E ele, ali, através desses anos, no buraco rural, jogando voltaretes sonolentos na Assembléia da Vila, fumando cigarros calaceiros nas varandas dos Cunhais, sem carreira, parado e mudo na vida, a ganhar musgo, como a sua caduca, inútil Torre! Caramba! era faltar cobardemente a deveres muito santos para consigo e para com o seu nome!... Em breve os seus camaradas de Coimbra penetrariam nos altos Empregos, nas ricas Companhias; muitos nas Câmaras por vacaturas abençoadas como a do Sanches; um ou outro mesmo, mais audaz ou servil, no Ministério. Só ele, com talentos superiores, um tal brilho histórico, jazeria esquecido e resmungando como um coxo numa estrada, quando passa a romaria. E por quê? Pelo receio pueril de pôr a bigodeira atrevida do Cavaleiro muito perto dos fracos lábios de Gracinha... E por fim esse receio constituía uma injúria, uma nojenta injúria, à seriedade da irmã. Porque Portugal não se honrava com mulher mais rigidamente séria, de mais grave e puro pensar! Aquele corpinho ligeiro, que o vento levava, continha uma alma heróica. O Cavaleiro?... Podia S. Ex.' sacudir a guedelha com graça fatal, jorrar dos olhos pestanudos a languidez às ondas - que Gracinha permaneceria tão inacessível e sólida na sua virtude como se fosse insexual e de mármore. Oh, realmente por Gracinha, ele abriria ao Cavaleiro todas as portas dos Cunhais - mesmo a porta do quarto dela, e bem larga, com uma solidão bem preparada!... E depois não se cuidava de uma donzela, nem duma viúva. Na casa do largo de El-Rei governava, mercê de Deus, marido brioso, marido rijo. A esse, só a esse, competia escolher as intimidades do seu lar - e nele manter quietação e recato. Não! esse receio de uma imaginável fragilidade de Gracinha, da sua honrada, altiva Gracinha esse receio, perverso e louco, certamente o devia varrer, com o coração desafogado e sorrindo. - E, na clara solidão da estrada, Gonçalo Mendes Ramires atirou um gesto decidido e terminante que varria.
Restava porém a sua própria humilhação. Desde anos, ruidosamente, conversando e escrevendo, em Coimbra, em Vila-Clara, em Oliveira, na Gazeta do Porto - ele demolira o Cavaleiro! E subiria agora, de espinhaço vergado, as escadarias do Governo Civil, murmurando o seu - peccavi, mea culpa, rnea maxima culpa?... Que escândalo na cidade! - "O Fidalgo da
Torre lá precisou e lá veio..." Era o transbordante triunfo do Cavaleiro. O único homem que no Distrito se conservava erguido, pelejando, trovejando as verdades - desarmava, emudecia, e encolhidamente se enfileirava no séquito louvaminheiro de S. Exa." Bem duro!... Mas, que diabo, havia superiormente o interesse do país! - E, tão admirável lhe apareceu esta razão, que a bradou com ardor na mudez da estrada: - "Há o país!..."
Sim, o país! Quantas reformas a proclamar, a realizar! Em Coimbra, no quinto ano, já se ocupara da Instrução Pública - duma remodelação do Ensino, todo industrial, todo colonial, sem latim, sem ociosas belas-letras, criando um povo formigueiro de Produtores e de Exploradores... E os camaradas, nos sonhos ondeantes de Futuro, quando repartiam os Ministérios, concordavam sempre: - "O Gonçalo para a Instrução Pública!" Por essas idéias poderosas, pelo saber acumulado, todo ele se devia à Nação - como outrora, pela força, os grandes Ramires armados. E pela Nação cumpria que o seu orgulho de homem cedesse ante a sua tarefa de cidadão...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.