Por Camilo Castelo Branco (1864)
Soçobrado por um revés, perde metade do seu capital. Desanima e esmorece em força moral. Vai a medo à barra do Potosi e crê que está ali um abismo a tragar-lhe o restante e depois a ele. Que fará empobrecido no extremo? Venderá a casa, a quinta, a capela e o túmulo de sua mãe? Lembra-lhe a mãe, e invoca a alma santa a coadjuvá-lo na empresa imoral. A santa infunde-lhe uma insuperável desanimação diante do perigo.
Associa-se a jogadores felizes. Balanceia-lhe a fortuna entre pequenos desastres e pequenos lucros. Ao fim de oito meses, a sociedade quebra, e Afonso de Teive tem de seu algumas libras, e cinquenta que o Tranqueira delicadamente lhe introduz na sua gaveta, os seus ordenados e economias de muitos anos.
O criado amigo, testemunha das lágrimas e das vertigens, ousa aconselhá-lo que volte para Ruivães e se restaure limitando-se ao rendimento de sua casa. Afonso enfurecia-se contra o criado, exclamando: "Sabes O que é a minha casa de Ruivães?
São quarenta carros de pão cada ano." "E vinte pipas de vinho e uma de azeite", Ajuntou o criado. "Que vale tudo isso?", perguntou Afonso. O Tranqueira fez a conta pelos dedos e respondeu: "Feitas as despesas do granjeio, vale seiscentos mil-réis." "E hei-de eu viver com seiscentos mil-réis por ano!", exclamou Afonso. "Eu, habituado ao luxo, com vinte e cinco anos, com precisão de aturdir a minha existência nos prazeres, que só a muito dinheiro se encontram em toda a parte do mundo!"
O criado encolheu os ombros e disse entre si: "Valha-nos a alma de minha santa ama e senhora!"
Medita Afonso vender o resto do seu património; e para logo lhe ocorrem estas palavras da última carta de sua mãe moribunda: "Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus ta der, como tempo de merecer o Céu. Aqui nasceu teu pai, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens nela a sepultura de teus pais e avós. "
Desfalece-lhe a sacrílega coragem de negar a sua mãe o derradeiro pedido. Mas a necessidade atroz obriga-o a desviar os olhos de um túmulo para enxergar não longe a indigência em Paris, a indigência relativa com as galas do passado.
Estas agonias são as supremas de sua vida. Palmira, a memória da mulher fatal, nem por sonhos ó perturba. Aparelham-se afrontamentos maiores. A vergonha de pobre mostra-se-lhe mais aviltante que a vergonha de atraiçoado. Pensa, sonha, contorcese,.alenta-se, desmaia, recobra-se, sempre a cismar na reabilitação pelo ouro, na reparação do seu capital; porém, de que modo, sem capital nenhum?... Salvadora ideia!... Escreve ao tio Fernão deste teor:
Perdi-me, perdi o que trouxe de Portugal, estou pobre. Eis-me mais castigado que o padecente dos pardieiros das Taipas. Ele refugiou-se aos quarenta anos, ainda rico do mundo. Eu tenho vinte e cinco anos, a honra perdida, a reabilitação impossível, aptidão para nada, o espírito derrancado no gozo de infames delícias; e, para sustentar esta vida corroída de lepra, resta-me a quinta de Ruivães. Eu sei que a fome não iria lá bater-me às portas, sei que ainda tenho de meu o talher na sua mesa, meu tio, mas Afonso de Teive antes de estender a mão à piedade mesmo dos seus há-de esconder a sua ignomínia num destes cômoros de terra onde os sepultados não têm nome. Minha mãe pediu-me que não vendesse a casa onde está o jazigo de meus avós. Os meus avós são os do meu tio Fernão de Teive. Aqui venho eu oferecer-lhe a minha quinta.
Compre-ma. meu tio, que a vontade de minha mãe está cumprida. Lá fica Mafalda, o anjo, para ajoelhar diante daquelas lápides sagradas. Compre-ma, sendo eu, de mãos postas, pedirei a minha mãe que perdoe ao réprobo, que lhe vendeu os ossos, na véspera do dia da fome. Seu sobrinho, Afonso.
Fernão, lida a carta, em presença de Mafalda, abriu os braços à filha, que parecia finar-se neles. Das ânsias e lágrimas saiu ela com uns gritos aflitíssimos, pedindo ao pai que valesse a Afonso, sem demora. Fernão, carecedor de ser consolado da desgraça do sobrinho, tinha de aquietar o alvoroço da filha prometendo e cumprindo logo tudo que fosse da vontade dela, que era também um dever dele a cumprir já com o parente, já com a memória de sua irmã. Foi instantâneo o contentamento de Mafalda.
- E depois? - exclamou ela. - E depois meu pai, em se lhe acabando o dinheiro da quinta, quem lhe acudirá?
- Nós - respondeu de alegre aspecto o pai.
- Nós? - tornou ela entre alegre e amargurada. - Mas não vê o que ele diz?
- Que diz ele, criança, que diz ele? Lê-me tu o que ele diz...
- Olhe, meu pai.. "Afonso de Teive antes de estender a mão à piedade mesmo dos seus há-de esconder a sua ignominia num destes cômoros de terra onde os sepultados não têm nome." O meu pai entende isto muito bem...
- Entendo: mas não me assusto. A gente há-de pensar; primeiro, o essencial, é mandar-lhe o dinheiro e dizer-lhe que os túmulos de Ruivães, e as casas, e as terras, são dele, como até aqui.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.