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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

-Mas olhe que pode dar muito, sem dar tanto. Parece-lhe então que esta subscrição é feita entre meia dúzia de pessoas? Anda nas mãos de muitas senhoras e de alguns homens; está nos mostradores das lojas, na Praça do Comércio, etc. Assine menos.

-Como, se está escrito?

-Deste 5 pode-se fazer muito bem um 3. Três contos já é uma boa assinatura. Há maiores, m as são de pessoas obrigadas pelo cargo ou pelos milhões; o Bonfim, por exemplo, assinou dez contos.

Rubião não pôde reter um risinho irônico; abanou a cabeça, e não recuou dos cinco contos. Só emendaria, escrevendo o algarismo 1 atrás,-quinze contos,-mais que o Bonfim.

-Seguramente, que pode dar cinco, dez ou quinze contos, tornou o Palha; mas o seu capital precisa cautelas, você está entrando muito por ele. .. Repare que já lhe rende menos.

Palha era agora o depositário dos títulos de Rubião (ações, apólices, escrituras) que estavam fechados na burra do armazém. Cobrava-lhe os juros, os dividendos e os aluguéis de três casas, que Ihe fizera comprar algum tempo antes, a vil preço, e que Ihe rendiam muito.

Guardava também uma porção de moedas de ouro, porque Rubião tinha a mania de as colecionar, para a contemplação. Conhecia, mais que o dono, a soma total dos bens, e assistia aos rombos feitos na caravela, sem temporal, mar de leite. Três contos bastavam, insistiu ele; e provou a sinceridade pelo fato de ser justamente marido da fundadora da comissão. Mas o Rubião não desistiu dos cinco, aproveitou a ocasião para pedir-lhe mais dez; precisava de dez contos. Palha coçou a cabeça.

-Você desculpe, disse-lhe ao cabo de alguns instantes, mas para que é que os quer? Não está certo que vai perdê-los, ou arriscá-los, ao menos?

Rubião riu da objeção.

-Se eu estivesse certo de que os perdia, não vinha buscá-los Pode ser arriscado, mas não é sem arriscar que se ganha. Preciso deles para um negócio,-quero dizer, três negócios. Dous são empréstimos seguros, e não passam de um conto e quinhentos. Os oito contos e quinhentos são para uma empresa. Por que abana a cabeça, se não sabe de que se trata?

-Por isso mesmo. Se você me consultasse, se me dissesse que empresa e que pessoas eram, eu veria logo se podia arriscar-se; e receio muito que nada preste, a não ser o dinheiro que se perder. Lembra-se das ações daquela Companhia União dos Capitais Honestos? Disse lhe logo que este título era enfático, um modo de embair a gente, e dar emprego a sujeitos necessitados. Você não quis crer, e caiu. As ações estão por baixo, e já este semestre não há dividendos

-Pois venda justamente essas ações; contento-me com o sólido.

Ou então dê-me da caixa da nossa casa. . . Passo logo por aqui, se você quiser,-ou mande-me lá a Botafogo. Caucione umas apóli-ces, se lhe parecer melhor...

-Não, não faço nada, não dou os dez contos, atalhou fogosa-mente o Palha. Basta de ceder a tudo; o meu dever é resistir. Emprés-timos seguros? Que empréstimos são esses? Não vê que Ihe levam o dinheiro, e não lhe pagam as dívidas? Sujeitos que vão ao ponto de jantar diariamente com o próprio credor, como um tal Carneiro, que lá tenho visto. Dos outros não sei se Ihe devem também; é possível que sim. Vejo que é demais. Falo-lhe por ser amigo; não dirá algum dia que não foi avisado em tempo. De que há de viver, se estragar o que possui? A nossa casa pode cair.

-Não cai, acudiu o Rubião.

-Pode cair; tudo pode cair. Eu vi cair o banqueiro Souto, em 1864.

Rubião remoía os conselhos do sócio, não por serem bons nem prováveis, mas por achar neles uma intenção maviosa, revestida de forma crua. Agradeceu-os de coração, mas rejeitou-os; precisava dos dez contos. Podia ter mais tento, dali em diante, e afirmava-lhe que seria menos fácil. De resto, possuía de sobra, tinha dinheiro para dar e vender. . .

-Para vender só emendou o Palha.

E, depois de um instante

-Bem, agora é tarde, amanhã levo-lhe os dez contos. E por que os não há de ir buscar lá à nossa casa ao Flamengo? Que mal lhe fizemos nós? Ou que lhe fizeram elas? porque a zanga parece ser com elas, visto que o vejo aqui. Que foi, para castigá-las? concluiu rindo.

Rubião desviou os olhos do sócio, cuja palavra Ihe parecia afiada de ironia,-como de pessoa que soubesse tudo, e risse dele. Quando lhos tornou, viu o mesmo semblante interrogativo, e respondeu

-Não me fizeram nada; lá irei amanhã à noite.

-Vá jantar.

-Jantar, não posso, tenho uns amigos em casa; vou de noite. E querendo rir-Não as castigue, que não me fizeram nada.

-Alguém o possui, refletiu Palha logo que ele saiu; alguém, por inveja às nossas relações.. . Também pode ser que Sofia lhe fizesse alguma para arredá-lo de casa. ..

Rubião assomou outra vez à porta; não tivera tempo de chegar à esquina. Voltava para dizer que, precisando do dinheiro cedo, viria buscá-lo ao armazém; de noite iria então visitá los. Precisava do dinheiro até às duas horas da tarde.

CAPÍTULO CIX

(continua...)

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