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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Quais são os nossos primeiros atores? São os que mais impressionam pela dicção, pelo gesto adequado e comedido, pela sobriedade da expressão, pela naturalidade? Não, são os mais palhaços, os mais grotescos. Tal, é grande porque deforma o rosto em máscara de sânie; aquele outro faz delirar a platéia com uma frase decomposta, com um gesto indecoroso ou com um meneio impudico. Colaboram com os autores, os libretos são apenas indicações, a obra teatral é feita no palco. O escritor dá o esqueleto sobre o qual os atores atiram a imundície a que chamam "graça" e, com razão, porque o povo ri. As nossas primeiras damas, quais são elas? São as que melhor interpretam? Não, são as mais bem feitas e as que se desnudam com mais impudor. Quando ouvires dizer, tu que ainda não conheces os segredos e a gíria dos bastidores: "Fulana é a artista de mais talento dos teatros", convence-te de que a citada estrela é a mulher de pernas mais grossas e não faz questão de as mostrar ao público lascivo. As ovações delirantes são feitas à nudez, as flores que juncam os palcos vão com direção aos leitos. E as artistas conhecem tão bem o seu público que não dão um passo em cena que não seja requebrado e garantem as peças com saracoteios. Quando anunciarem a queda de uma dessas moxinifadas, que dão aos seus autores o título de "laureados", podes dizer, com certeza, que os interpretes estavam reumáticos e por isso não puderam desconjuntar-se.

O teatro nacional assenta sobre as cadeiras das mulheres. A nossa arte é uma saturnal com fogos de bengala e jongo. O jongo é tudo. Estamos como os de Israel em Faran — desanimados e desprovidos. Deixemos a Arte, que é a deusa única e verdadeira, e adoremos o bezerro de ouro que é uma infâmia. Sejamos romanos em Roma. Vamos escrever uma revista.

Assim falava Ruy Vaz quando bateram à porta. Era Crebillon, ia despedir-se. Entrou um momento sem tirar o chapéu, lançou um olhar aos tristes aposentos e exprobrou:

— Deixarem um palácio por este tugúrio... Francamente?.

— Mas aqui temos paz.

— E lá também teriam se houvesse ordem. — E louça...

O abolicionista falou da sua caçada e, despedindo-se, ofereceu a casa em que se havia aboletado — na rua da Assembléia, por cima de um armazém de víveres. Vivenda principesca.

Correram serenos os primeiros dias. Anselmo abrasava-se em amor pela meiga e loura Gretchen, que enchia a casa com a sua voz cristalina, quando, uma manhã, Ruy Vaz, que se havia levantado muito cedo para corrigir as provas de um romance, que vendera ao Garnier, vendo que ele não aparecia, chamou-o da sala anunciando-lhe o sol. O estudante não respondeu. O romancista, impressionado, foi ao quarto. Anselmo, muito encolhido, voltado para a parede, ardia em febre.

— Tu estás com febre, homem.

— Sinto-me muito mal; dói-me todo o corpo, não posso mover este braço.

— Mas que é?

— Linfatite.

— Como diabo foste arranjar isso?

— Sei lá. Não conheces por aí algum médico?

— Conheço. Queres?

— Sim.

— Vou ver se encontro o Teixeira.

O estudante tiritava e encolhia-se, enquanto o romancista preparava-se para ir ao banho.

— Queres que diga lá dentro que estás doente?

— Sim; é bom; pode acontecer-me alguma coisa.

— Qual! Isso passa com uma xaropada qualquer.

— Não é tão fácil assim. Já estive entre a vida e a morte com um acesso destes. É coisa séria e dói como o diabo!

— Pois eu falo à Gretchen, à tua Gretchen. — Sim.

E o romancista, tomando a saboneteira, atirou a toalha ao ombro e seguiu para o banheiro.

Logo que o romancista saiu, Anselmo que, nesse tempo, andava extasiadamente pelas sagas, todo enlevado no amor ideal de Carlota, pôs-se a compor um poema como o de Tristão. E, para que nada lhe perturbasse o doce sonho, nem a visão, nem o ruído, voltou-se para a parede fugindo ao real para isolar-se no imaginário. Estava ali como o valente guerreiro depois da luta tremenda com Morolt. A dor que sentia não era a de um abcesso que se ia formando, senão a de uma ferida ganha no estupendo duelo em que se empenhara com o monstro, mas, dentro em pouco, ela surgiria com o bálsamo paregórico, ela, a divina Isolda, Isolda cuja voz abrandava a cólera das vagas, Isolda que fizera, com temeridade, com que ele aparelhasse uma nau e saísse ao mar afrontando tormentas e a desigual peleja com o gigante que era o terror e o flagelo da Irlanda.

Era tão suave aquele idílio espiritual que operava como um sedativo. As dores iam cedendo e ele sentia um bem estar geral de corpo e de alma enquanto devaneava, fugindo à realidade. Mas o romancista reapareceu, esfregando a cabeça desesperadamente:

— Estás melhor?

— Ora! Pensas então que isto vai assim? Olha o cordão linfático; voltou-se e, arregaçando a manga da camisa, mostrou o braço nu, empolado e rubro.

— Ó diabo! — exclamou Ruy Vaz. Isso até parece aneurisma. E deu-se mais pressa em vestir-se, impressionado com o que vira.

— Falaste lá dentro?

— A pequena saiu com o pai. Está lá a velha, a Babel, confundindo línguas e cerzindo meias. Não falei, porque estou certo de que pioravas se aquela nixe viesse fazer-te companhia. Bem, agora fica tranqüilo um instante enquanto vou, num pulo, À Rua da Glória ver o Teixeira. Acendeu um cigarro e, da porta quarto, perguntou à meia voz: Tens dinheiro?

— Nada... E tu?

— Ora! Isso é que é o diabo. Tu não podes ficar sem remédios e inanido. Como há de ser? Também para perder o dia na cidade à caça de uns cinco ou seis mil réis magros e tu aqui abandonado não me parece razoável.

— Olha, leva o meu Musset ao Cunha.

— Quanto pode dar o Musset?

— Não sei. Se queres leva também Os Miseráveis.

— Acho melhor. E que queres da cidade?

— Cigarros.

— Não, para o estômago.

— Sei lá! Não tenho apetite. Traze café.

(continua...)

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