Por Machado de Assis (1878)
Maria das Dores, doente de uma paralisia ficou estupefacta quando viu entrar um desconhecido pela mão de Iaiá, um homem cujo traje e aspecto contrastavam com a nudez da casa. Interrogou a moça com os olhos; e Iaiá, depois de um instante de acanhado silêncio, respondeu com desgarre:
— É meu noivo, que vem vê-la. Quero que o conheça e não diga a ninguém, ouviu?
Dizendo isto, aproximou-o mais da paralítica. A boa velha contemplou-o alguns instantes, disse-lhe algumas palavras de conselho, pediu-lhe que fizesse feliz a sua filha de criação, e não obteve dele uma palavra ou um gesto de assentimento. Supô-lo comovido; mas ele estava simplesmente atônito.
Saindo fora de casa, assentaram-se à porta, na mesma pedra, assaz larga e extensa para dous.
— Foi preciso dizer-lhe aquilo, explicou Iaiá, porque eu desejo conversar com o senhor, e os noivos conversam mais à vontade. Demais, ela não é só paralítica; tem a vista fraca; amanhã posso substituí-lo, sem que ela dê pela mudança. Agora falemos de nós e daquela carta... E antes da carta, diga-me, sabia que eu estava aqui?
— Não; mas não vim até estes lados sem esperança de a encontrar. Já que fala na carta, deixe-me dar-lhe uma explicação; se a não dei até hoje, é porque não quisera voltar a um assunto, aborrecido para a senhora e para mim.
— Para o senhor?
— Para mim.
Iaiá apertou-lhe a mão com força.
— Vá, disse; também tenho de lhe dizer alguma coisa grave; mas ouçamos primeiro a sua explicação.
— Oh! custa pouco, acudiu Jorge. Escrevi o esboço da carta por me parecer que podia ser-lhe agradável. Lembra-se que uma vez me havia falado naquele sentido? Duvidei mais tarde, e disse-lho. Contudo, havia tanta incerteza e contradição entre suas palavras e ações, que não era difícil supor alguma cousa; há paixões que começam assim caprichosamente. A carta era um meio de dizer ao pretendente que seus suspiros podiam não ser inúteis. Era isso; só isso. Confesso que adotei o papel mais passivo, desinteressado, e não sei até se... creio que a senhora já o qualificou de ridículo. A forma podia não ser grave, mas a intenção era afetuosa, e se merecia um riso, também merecia um aperto de mão. Esboçada a carta, não a mandaria sem mostrá-la; foi o que fiz; mas sua reprovação foi tão eloqüente, que me fez cair em mim e reconhecer que a carta era de mais.
— Era de menos.
— Queria então que fosse eu próprio a Buenos Aires? perguntou Jorge sorrindo.
— Queria, se ao chegar lhe dissesse: — Pense em outra cousa; Iaiá não o ama.
— Para isso, basta que lhe não diga nada.
— Não o ama, repetiu a moça; não o ama, não o ama.
— Desta vez é sério e definitivo?
— Que admira? replicou a moça com gravidade. Não lhe parece a cousa mais natural do mundo que uma moça não ame o Procópio Dias? Não sei o que são os outros homens; poucos tenho visto; nossa vida é tão retirada! Mas, enfim, não me parece que o Procópio Dias seja homem de se ficar morrendo por ele. E contudo ele morre por mim. Meu coração perdoa-lhe; é o mais que pode fazer. Aceitá-lo seria impossível. Já reparou nos olhos dele? Têm às vezes uma expressão esquisita, que não vejo nos olhos de papai nem nos seus. Não gosto dele; não poderia gostar nunca.
Desta vez foi Jorge que lhe apertou a mão.
— Tem razão, disse ele; se o não ama deveras está tudo acabado. Não lhe digo que ele fosse um noivo perfeito; não podia ser; mas aceitável era. Hoje percebo que entre a senhora e ele há alguns contrastes; mas o que é que não concilia o tempo? Esqueça o que lhe disse a tal respeito; e assentemos não falar mais de semelhante assunto. Provavelmente não escreverei nada; é duro dizer a um homem que todas as suas esperanças são vãs.
— A paz do meu espírito não valerá esse sacrifício?
— Vale mais; posso fazê-lo. Iaiá refletiu.
— Não, não é preciso; não lhe diga nada; ele há de entender tudo.
Como fizessem uma pausa longa, viram duas ou três pessoas, que passavam embaixo, olharem para cima com certo ar curioso e indiscreto. Jorge ergueu-se.
— Estamos dando na vista, disse ele; hão-de supor que somos dous namorados.
— Sente-se, disse Iaiá em tom intimativo. E continuou: — Que perde o senhor com isso? Dirão que não tem mau gosto em amar uma moça bonita.
— Se dissessem que éramos dous namorados, erravam decerto, porque eu sei... eu suspeito que a senhora ama a outro. Uso dos meus direitos de confidente, exigindo que me diga a verdade.
— Toda, respondeu Iaiá, e era esse o ponto grave de que lhe queria falar. Ainda uma vez, o senhor estima-me? tem-me amizade sincera?
— Pois duvida?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.