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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

De 1810 a 1816 ou pouco além deste ano houve, entre outras ignoradas, duas irmãs muito procuradas como habilíssimas costureiras: eram do Brasil e moravam na Rua do Fogo, hoje dos Andradas, e perto do então chamado Largo da Sé: sei os seus nomes; julgo, porém, que não me é preciso decliná-los.

O certo é que modista foi planta nova e francesa que por ventura já se cultivava em outras ruas, quando em 1823 ou em 1824 começou a predominar na Rua do Ouvidor Mlle Joséphine.

Não posso determinar precisamente o ano da revelação dessa celebridade:

Mlle Josóphine foi talvez a primeira, e com certeza uma das primeiras que marcaram a época da hégira das francesas para a Rua do Ouvidor.

Mlle Joséphine foi a modista da primeira imperatriz do Brasil, e, portanto, de todas as senhoras da corte, e, portanto, de quantas outras senhoras tinham pais e maridos dispostos a pagar freqüentemente a habilidade e a fama da modista, cuja tesoura de imperial predileção cortava cara e desapiedadamente.

E por isso mesmo era célebre, e a melhor possível, e a mais desejada, a tesoura da incomparável Joséphine.

A casa da modista começara com a denominação de Mlle Joséphine; casando-se, porém, esta algum tempo depois com Mr. Quelque Chose, já era tanta e tão proveitosa a fama do nome da modista, que mulher e marido acordaram em conservá-lo na designação da loja, que ficou denominada de Mme Joséphine.

Eclipse do marido que com espirituoso materialismo reconheceu quanto o nome da esposa valia mais do que o seu na grande realidade da vida.

E por isso mesmo, na ignorância do nome do marido eclipsado, eu o chamei acima Mr. Quelque Chose que em bom português se traduz por - ilustríssimo senhor Coisa Nenhuma.

Em compensação Mme Joséphine foi grande coisa, e no seu tempo não houve modista que retalhasse mais fazendas e ganhasse mais dinheiro; e ela era mais do que intérprete fiel das modas de Paris, era a própria moda.

Raramente e só obrigada determinava ou ajustava o preço do vestido que devia fazer; com o seu português afrancesado costumava dizer: "Sou artista e ainda tenho de imaginar a minha obra: como hei de marcar o preço do vestido que vai sair das inspirações que eu tiver?..."

Não se resistia à modista que considerava o vestido que cortava e enfeitava como poema ou painel da sua tesoura.

A Rua do Ouvidor não pode esquecer e deve honrar a memória de Mme Joséphine, que foi matriarca das modistas francesas.

Se a Rua do Ouvidor quiser algum dia ter as suas armas, não pode adotar melhor emblema do que a Tesoura; mas precisamente a Tesoura de Mme Joséphine.

Rica e saudosa da França, a famosa modista depois de longos anos de trabalho e de economias deixou o Rio de Janeiro, e lá na pátria tomou o nome do marido, ficando por sua vez eclipsada, e perdendo a sua autonomia. Asseveram-me que em Paris Mme Joséphine acabou pobre e muito triste por história de eclipse.

Pouco adiante da casa n.º 89 temos que demorar-nos de novo, considerando a de n.º 95, placa, que é atualmente Depósito de Máquinas Americanas de Costura.

Por mais interessante que sejam as tais máquinas, a casa n.º 95 só me fará recordar a Loja de Flores de Mme Finot, uma outra das glórias passadas da Rua do Ouvidor.

Mme Finot (que por sinal era finíssima) floresceu (e não havia de florescer, sendo florista) ainda além do ano de 1850, tendo sido contemporânea, e no seu gênero igualadora da fama de Mme Joséphine.

Mme Finot, a sacerdotisa do seu templo de flora, fabricava e vendia flores, ramalhetes, capelas e outros tecidos e obras de flores artificiais; mas, servindo a encomendas feitas, compunha lindos e elegantes ramos de flores naturais, incumbindo-se de comprá-las quando isso lhe pediam e ganhando na incômoda comissão modestíssimo lucro de duzentos ou trezentos por cento.

Se ela era finíssima!

Em honra dos objetivos ninguém discutia o preço das flores naturais.

Entre os seus numerosos fregueses Mme Finot contava indefectivelmente no mês de dezembro com todos os jovens doutorandos da escola de Medicina, para os quais preparava muitas dezenas de ramos de 100 e 200 cravos naturais ornados de canotilhos, pois que então era de costume no ato solene do recebimento do grau oferecerem os novos doutores ramos de cravos aos lentes de sua predileção.

Este costume acabou, ou porque Mme Finot entendeu que eram de prata de lei os seus canotilhos, e rubis os cravos que enramava, ou porque alguns lentes da escola menos simpáticos acharam espinhos na festa de flores.

Em 1844, e ainda em 1845, Mme Finot não achou flores que lhe bastassem nos jardins da cidade, e fez de sua loja ativíssima casa de moeda, emitindo cravos, rosas, violetas, cravinas, etc.

Em 1843, estreara-se na cidade do Rio de Janeiro uma pobre companhia de ópera italiana, e nela a jovem cantarina, a Candiani, a quem faltava muito a arte, mas que positivamente possuía a voz mais doce e comovente que se tem ouvido no nosso teatro de canto.

A Candiani, que tinha açúcar nos gorgomilos, fez furor.

(continua...)

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