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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Quem é esta senhora ?— perguntou elle para dentro ao oreado que levantava a mesa, cantarolando.

O moço chegou-se, espreitou :

—É a Mercedes. — E fitando as botas d'Arthur com um bamboleamento triste de cabeça esguedelhada, repetiu ainda : — Estão na ultima. Já usted

Vê ! .

Arthur encolheu os hombros, furioso. De resto, observando os homens na rua, já pensara que o seu fato de Oliveira era mal talhado e provinciano : por isso só sahiu á noite, depois d'acceso o gaz.

Com que deleite pisou emfim as lages ainda humidas dos passeios, respirou a friagem d'inverno, o ar de Lisboa, que, depois do pesadume das ruasitas de Oliveira, lhe parecia ter a vitalidade oxygenada onde se dilatam as faculdades ! Embasbacava para as vitrines alumiadas das lojas ; estacava, pasmando para os rostinhos pallidos das mulheres que passavam; voltava-se com admiração para seguir as carruagens de criados perfilados ; e da claridade do gaz, da vastidão das ruas, da multidão sussurrante, vinha-lhe como que uma sensação de actividades espalhadas, de paixões, de grandezas vagas que o perturbava : era como se a atmosphera estivesse saturada das emanações d'uma vida rica, sábia, idealisadora e ardente ! Mas sentia-se acanhado : apesar de appetecer prodigiosamente uma gravata azul que viu n'um mostrador, não ougou entrar na loja ; o trotar das parelhas entontccia-o ; o andar desenvolto dos homens, fallando alto, dava-lhe um medo pueril d'aggressões ; tinha vergonha do seu velho pa letot, mais curto que as abas da sobrecasaca que trazia ; sentiu-se mesmo agradecido a um sujeito que lhe pediu lume, cortezmente, como se recebesse d'elle um acto de benevolencia. O homem, depois d'accender o charuto, disse para outro que esperava, assobiando :

— P 'ra o Martinho, hein

E Arthur foi-os seguindo timidamente, ancioso por Têr o Martinho ! Pareceu-lhe esplendido, com a accumulaçao dos chapéus altos entre os espelhos dourados, sob uma nevoa de fumo de tabaco, no brouhaha continuo das conversas. Não se atreveu a entrar. Á porta um grupo palrava, e Arthur contemplava-o de longe, com devoção, pensando que deviam ser poetas e estadistas . . . Subiu-lhe então de repente ao cerebro um vapor excitante de emanações intellectuaes : teve pressa de entrar n'aquella existencia — relacionar-se, regalar-se das discussões sobre Arte e Ideal, « ser tambem de Lisboa » !

Chamou uma tipoia, e mandou bater para a praga da Alegria, para a casa do Damião! Recomeçára a chover e o lagedo reluzia á luz do gaz. E encostado ao fundo do coupé que trotava ao comprido das grades escuras do Passeio, Arthur ia pensando no fato novo que faria e nos philosophos qne ia de certo encontrar na catacumba » do Damião.

Ao toque da campainha, uma mulher de pelle multo branca e fitas vermelhas no cabello fêl-o entrar n'uma sala esteirada, para lhe dizer que o snr. Damião tinha partido para o Algarve. Examinou rapidamente Arthur, e accrescentou logo — que se S. S. a desejava quartos, os do snr. Damião estavam

devolutos . . .

— Não, obrigado, eu vinha só procural-o.

—Ai, póde V. S. a entrar. — E n'uma voz muito cantada, muito lisboeta : —O snr. Damião estava muito contente. É a casa mais socegada do bairro, tudo na maior limpeza. A snr. a D. Ermelinda até me diz sempre : Oh, D. Joanna (é o meu nome, minha mana é Adelaide) oh, D. Joanna, diz-me a snr. a D. Ermelinda, a senhora faz mal em ter tanto cuidado com os hospedes, olhe que não lh'O agradecem! E vae eu, digo-lhe : Oh, D. (damonos muito) digo-lhe eu, olhe que é genio; em não tendo tudo a preceito estou n'um phrenesi. O snr. Damião tinha um quarto só. Tenho tambcm o Faria, ha-de conhecer, o Fariazinho . . .

Aquella verbosidade sem motivo entontecia Arthur. Repetia, cumprimentando :

Sim, eu hei-de voltar.

Ai, póde vir agora. Eu não gou de ceremoAias. Até a D, Ermelinda me diz sempre : Oh, D.

Joanna, por quem é, a senhora deve-se pôr no seu lugar. E digo-lhe eu : Oh, D, Ermelinda, que quer, são genios ! E todo o murido me estima. O Fariazinho está em minha casa ha dous annos. Póde-ihe perguntar...

— Pois eu hei-de voltar — interrompeu Arthur, atarantado. Deu as boas noites, desceu rapidamente a escada.

Aquella ausencia do Damião contrariava-o. Estava muito desconsolado. Contava com o DamFáo para o guiar, lhe mostrar Lisboa, apresental-o a escriptores, escutar o seu drama, e a sua partida para o Algarve parecia alargar em torno d'elle uma solidão inesperada.

Felizmente tinha as cartas d'apresentação do Rabecaz.



(continua...)

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