Por Eça de Queirós (1875)
Instintivamente porém começou a detestar Amaro. Sempre fora inimigo de padres! Achava-os um "perigo para a civilização e para a liberdade"; supunha-os intrigantes, com hábitos de luxúria, e conspirando sempre para restabelecer "as trevas da Meia-Idade"; odiava a confissão que julgava uma arma terrível contra a paz do lar; e tinha uma religião vaga - hostil ao culto, às rezas, aos jejuns, cheia de admiração pelo Jesus poético, revolucionário, amigo dos pobres, e "pelo sublime espirito de Deus que enche todo o Universo"! Só desde que amava Amélia é que ouvia missa, para agradar à S. Joaneira.
E desejaria sobretudo apressar o casamento, para tirar Amélia daquela sociedade de beatas e padres, receando ter mais tarde uma mulher que tremesse do Inferno, passasse horas a rezar estações na Sé, e se confessasse aos padres "que arrancam às confessadas os segredos de alcova"!
Quando Amaro voltara a freqüentar a Rua da Misericórdia, ficou contrariado. "Cá temos outra vez o marmanjo!", pensou. Mas que desgosto, quando reparou que Amélia tratava agora o pároco com uma familiaridade mais terna, que a presença dele lhe dava visivelmente uma animação singular, "e que havia uma espécie de namoro"! Como ela se fazia vermelha, mal ele entrava! Como o escutava, com uma admiração babosa! Como arranjava sempre a ficar ao pé dele nas partidas de quino!
Uma manhã, mais inquieto, veio à Rua da Misericórdia, - e enquanto a S. Joaneira tagarelava na cozinha, disse bruscamente a Amélia:
- Menina Amélia, sabe? Está-me a dar um grande desgosto com essas maneiras com que trata o Sr. padre Amaro.
Ela ergueu os olhos espantados:
- Que maneiras? Ora essa! Então como quer que o trate? É um amigo da casa, esteve aqui de hóspede...
- Pois sim, pois sim...
- Ah! mas sossegue. Se isso o quezila, verá. Não me torno a chegar para ao pé do homem.
João Eduardo, tranqüilizado, raciocinou que "não havia nada". Aqueles modos eram excessos de beatério. Entusiasmo pela padraria!
Amélia decidiu então disfarçar o que lhe ia no coração: sempre considerara o escrevente um pouco tapado - e se ele percebera, que fariam as Gansosos tão finas, e a irmã do cônego que era curtida em malícia! Por isso mal sentia Amaro na escada, daí por diante, tomava uma atitude distraída, muito artificial; mas, ai! apenas ele lhe falava com a sua voz suave ou voltava para ela aqueles olhos negros que lhe faziam correr estremeções nos nervos, - como uma ligeira camada de neve que se derrete a um sol muito forte, a sua atitude fria desaparecia, e toda a sua pessoa era uma expressão contínua de paixão. Às vezes, absorvida no seu enlevo, esquecia que João Eduardo estava ali; e ficava toda surpreendida quando ouvia a um canto da sala a sua voz melancólica.
Ela sentia de resto que as amigas da mãe envolviam a sua "inclinação" pelo pároco numa aprovação muda e afável. Ele era, como dizia o cônego, o menino bonito: e das maneirinhas e dos olhares das velhas exalava-se uma admiração por ele que fazia ao desenvolvimento da paixão de Amélia uma atmosfera favorável. D. Maria da Assunção dizia-lhe às vezes ao ouvido:
- Olha para ele! É de inspirar fervor. É a honra do clero. Não há outro!...
E todas elas achavam em João Eduardo "um presta para nada"! Amélia então já não disfarçava a sua indiferença por ele: as chinelas que lhe andava a bordar tinham há muito desaparecido do cesto do trabalho, e já não vinha à janela vê-lo passar para o cartório.
A certeza agora tinha-se estabelecido na alma de João Eduardo - na alma, que como ele dizia, lhe andava mais negra que a noite.
- A rapariga gosta do padre, tinha ele concluído. E à dor da sua felicidade destruída juntava-se a aflição pela honra dela ameaçada.
Uma tarde, tendo-a visto sair da Sé, esperou-a adiante da botica, e muito decidido:
- Eu quero-lhe falar, menina Amélia... Isto não pode continuar assim... Eu não posso... A menina traz namoro com o pároco!
Ela mordeu o beiço, toda branca:
- O senhor está a insultar-me! - e queria seguir, toda indignada.
Ele reteve-a pela manga do casabeque: '
- Ouça, menina Amélia. Eu não a quero insultar, mas é que não sabe. Tenho andado, que até se me parte o coração. - E perdeu a voz, de comovido.
- Não tem razão... Não tem razão, balbuciava ela.
- Jure-me então que não há nada com o padre!
- Pela minha salvação!... Não há nada!... Mas também lhe digo, se tornar a falar em tal, ou a insultar-me, conto tudo à mamã, e o senhor escusa de nos voltar a casa.
- Oh menina Amélia...
- Não podemos continuar aqui a falar... Está ali já a D. Micaela a cocar.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.