Por Eça de Queirós (1900)
A face de Gonçalo ardia na sombra, devorando as revelações do Administrador. Depois, com lentidão, como descobrindo candidamente todos os recantos da sua alma:
- Eu, na realidade, também conservo a antiga simpatia pelo Cavaleiro. E certas questõesíntimas, adeus!... Envelheceram, caducaram, tão obsoletas hoje como os agravos dos Horácios e dos Curiácios... Como você lembrou há pouco, com razão, nunca se ergueu entre nós morte de homem. Que diabo! Eu fui educado com o Cavaleiro, éramos como irmãos... E acredite você, Gouveia! Sempre que o vejo, sinta um apetite doido, mas doido de correr para ele, de lhe gritar: "Oh! André! nuvens passadas não voltam, atira para cá esses ossos!" Creia você, não o faço por timidez... E timidez... Oh! não, lá por mim, estou pronto à reconciliação, todo o coração ma pede! Mas ele?... Porque, enfim, Gouveia, eu, nas minhas Correspondências para a Gazeta do Porto, tenho sido feroz com o Cavaleiro!
João Gouveia parou, de bengala ao ombro, considerando o Fidalgo com um sorriso divertido:
- Nas Correspondências? Que tem você dito nas Correspondências? Que o Sr. Governador Civilé um déspota e um D. Juan?... Meu caro amigo, todo o homem gosta que, por oposição política, lhe chamem déspota e D. Juan. Você imagina que ele se afligiu? Ficou simplesmente babado!
O Fidalgo murmurou, inquieto:
- Sim! Mas as alusões à bigodeira, à guedelha...
- Oh! Gonçalinho! Belos cabelos anelados, belos bigodes torcidos não são defeitos de que ummacho se envergonhe... Pelo contrário! Todas as mulheres admiram. Você pensa que ridicularizou o Cavaleiro? Não! anunciou simplesmente às madamas e meninas, que lêem a Gazeta do Porto, a existência de um mocetão esplêndido que é Governador Civil de Oliveira.
E parando de novo (porque defronte, na esquina, luziam as duas janelas abertas da sua casa), o Administrador estendeu o dedo firme para um conselho supremo:
- Gonçalo Mendes Ramires, você amanhã manda buscar a parelha do Torto, salta para a suacaleche, corre à cidade, entra pelo Governo Civil de braços abertos, e grita sem outro prólogo: "André, o que lá vai, lá vai, venham essas costelas! E como o circulo está vago, venha também esse círculo!" - E você, dentro de cinco ou seis semanas, é o Sr. Deputado por Vila-Clara, com todos os sinos a repicar... Quer tomar chá?
- Não, obrigado.
- Bem, então viva! Tipóia amanhã e Governo Civil. Está claro, é necessário arranjar umpretexto...
O Fidalgo acudiu, com alvoroço:
- Eu tenho um pretexto! Não!... Quero dizer, tenho necessidade real, absoluta, de falar com o Cavaleiro ou com o Secretário-Geral. E uma questão de caseiro... Até por causa dessa infeliz trapalhada o procurava eu hoje a você, Gouveia!
E aldravou a aventura do Casco, com traços mais pesados que o enegreciam. Durante semanas, aferradamente, esse fatal Casco o torturara para lhe arrendar a Torre. Mas ele tratara com o Pereira, o Pereira Brasileiro, por uma renda esplendidamente superior à que o Casco oferecia a gemer. Desde então o Casco rugia, ameaçava, por todas as tabernas da Freguesia. E, nessa tarde, surde duma azinhaga, rompe para ele, de varapau erguido! Mercê de Deus, lá se defendera, lá sacudira o bruto, com a bengala. Mas agora, sobre o seu sossego, sobre a sua vida, pairava a afronta daquele cajado. E, se o assalto se renovasse, ele varava o Casco com uma bala, como um bicho montês... Urgia pois que o amigo Gouveia chamasse o homem, o repreendesse rijamente, o entaipasse mesmo por algumas horas na cadeia...
O Administrador, que escutara palpando a garganta, atalhou logo, com a mão espalmada:
- Governo Civil, caro amigo, Governo Civil! Esses casos de prisão preventiva pertencem ao Governo Civil. Repreensão não basta, com tal fera!... Só cadeia, um dia de cadeia, a meia ração... O Governo Civil que me mande um ofício ou telegrama. Você realmente corre perigo. Nem um instante a perder!... Amanhã tipóia e Governo Civil. Mesmo por amor da Ordem Pública!
E Gonçalo, compenetrado, com os ombros vergados, cedeu ante esta soberana razão da Ordem Pública:
- Bem, João Gouveia, bem!... Com efeito é uma questão de Ordem Pública. Vou amanhã aoGoverno Civil.
- Perfeitamente - concluiu o Administrador puxando o cordão da campainha. - Dê recados meusao Cavaleiro. E só lhe digo que havemos de arranjar uma votação tremenda, e foguetório, e vivas, e ceia magna no Gago... Você não quer tomar chá, não? Então, boas-noites... E olhe! Daqui a dois anos, quando você for ministro, Gonçalo Mendes Ramires, recorde esta nossa conversa, à noite, na Calçadinha de Vila-Clara!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.