Por Camilo Castelo Branco (1862)
Depois de ceia, Tomásia saiu a uma varanda de cantaria que dominava dilatadas várzeas orladas de arvoredo.
Os padres, o sargento-mor e eu ficámos praticando em sistemas de governo e discutindo as vantagens da representação nacional sobre o alvitre dum só homem. Os ardores da polémica eram refrigerados com beijos no pichel, beijos longos, longos, e absorventes como beijos de amantes.
O sargento-mor, como já não entendesse as teorias absolutistas dos irmãos, nem as minhas de emancipação social, adormeceu encostado ao espaldar duma cadeira de couro.
A questão foi esmorecendo consoante as forças intelectuais iam convergindo para o lavor da digestão. A ceia tinha sido pouco menos chorumenta que o jantar. Afora duas galinhas, amarelas de gordas, com o seu préstito de salpicões, no centro da mesa, estava o alguidar do anho assado, que lourejava estirado sobre um vasto plano de arroz, atauxiado de rodelas de lingüiça.
Três padres foram deitar-se, e o mais letrado dos quatro, padre João, disse-me se eu queria ir à varanda ver o rio prateado pela Lua e as penumbras dos altos serros circumpostos à graciosa aldeia.
Quando passávamos para a varanda, parei, e pedi ao padre que parasse.
Estava Tomásia cantando uma toada popular, triste como todas as cantilenas do Minho e Trás-osMontes. A melancolia não a dava a letra menos que a música. Dizia assim:
Teus cabelos me prenderam, E teus olhos me mataram;
Teus lindos pés me fugiram,
Quando morta me deixaram.
Entre as mãos frias de neve Um raminho me puseste;
Levaste as rosas e os cravos, Deixaste murta e cipreste.
Entrei de surpresa na varando e disse à maviosa cantora:
- Quem lhe ensinou essa letra tão triste e bonita? - Ai! - exclamou ela -, não cuidei que estava aí...
Estas cantigas eram as de menina de Chaves.
- Quem era a menina de Chaves?
O padre tomou à sua conta a resposta, e disse:
- Era a namorada dum meu condiscípulo no Seminário de Braga, que morreu de amores por ele no Convento de Sant’Ana, e ele também morreu por ela. Eram ambos de Chaves. Eu fiquei com o papelinho em que a coitada escreveu as coplas que minha sobrinha canta a chorar.
- E está a chorar! - disse eu, vendo-lhe nos olhos espelhado um raio da Lua.
- Não que eu - disse Tomásia entre risonha e lagrimosa - tenho uma pena da criatura!...
- Dela somente? - interrompi.
- E dele, que lá foi procurá-la ao outro mundo.
As lágrimas desta mulher que nome têm se não são a sublime poesia da ternura, que eu ainda agora encontro pela primeira vez!..., disse eu entre mim, de modo que o estômago me não ouvisse. E as cinzas, que foram coração, estremeceram levemente.
VII
Ao amanhecer do dia seguinte ouvi a voz do sargento-mor, que passeava no pomar contíguo à casa.
Desci ao pomar e perguntei-lhe se tinha resolvido seriamente dar-me sua filha.
O velho encostou o queixo às mãos, que assentavam sobre uma bengala alta de cana encostada em marfim, e disse:
- Eu tenho uma só palavra: sou o sargento-mor de Soutelo, cavaleiro professo na Ordem de Cristo desde 1812 e cavaleiro da Ordem da Verdade, filha de Cristo, desde que me conheço. Dou-lhe minha filha, com a condição de que o Sr. Silvestre há-de viver comigo, enquanto eu vivo for; depois, se quiser, leva a mulher para sua casa. Não a doto com isto nem com aquilo. Tudo que eu tenho e tem meus irmãos dela é. O senhor entra aqui mais como filho que como genro. Come, bebe e veste da casa. Os rendimentos da sua aplique-os ao desempenho dela, que, pelos modos, o senhor lá por esse mundo gastou muito e mal. Pagou o tributo: todos o pagam cada um por seu feitio. Eu também as fiz boas, e vi-as fazer piores a meus padres, quando já tinham a cabeça rapada. Agora com águas passadas não mói o moinho. Faça-se homem, e descanse. Mande ao diabo as extravagâncias e os prazeres das cidades. Aqui é que reina a paz e a alegria nas boas consciências. Prosseguiu o sargento-mor até que a filha assomou à janela da cozinha, dizendo:
- Venham daí o almoço.
- O senhor vai hoje ou fica? - perguntou, no caminho para casa, o velho.
- Vou dar as providências necessárias e voltarei, passados vinte dias, para ficar.
- Isso é decidido? É palavra de cavaleiro?
- Não mereço que o respeitável pai de Tomásia me faça essa pergunta.
- Desculpe à minha satisfação estas dúvidas. Boas são as venturas de que a gente duvida, quando as tem já na mão.
E abraçou-me com os olhos húmidos.
Estávamos à mesa. Tomásia, segundo o seu costume, andava da sala para a cozinha, levando e trazendo pratos e iguarias.
O pai mandou-a sentar ao meu lado.
Padre João, meu vizinho da direita, rolou o abdómen para dar lugar à sobrinha.
Tomásia parecia outra no acanhamento e não desfitava os olhos do pai.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.