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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Naturalistas.

— Ah! E o senhor também? empertigou-se:

— Não, senhora; eu sou romântico.

— Ah! Romântico... Aqui os senhores podem fazer muitos romances.

— Pois não.

— Bem, até logo. — Até logo, miss.

Carlota tomou a bandeja com as duas xícaras escorropichadas e foi-se graciosamente, deixando um leve perfume na sala e no corredor.

— É amável, heim?

— Amável! Pois sim. Pois não percebeste que essa gentileza foi um pretexto!

— Pretexto... para quê?

— Para ela fazer o inventário dos nossos haveres, que são a fiança dos oitenta mil réis mensais. Pensas, talvez, que a pequena quer começar o flirt com um de nós? Estás enganado — o que ela quer é garantir-se. Enquanto falava, os seus lindos olhos azuis; mais avaros do que dois judeus, iam examinando minuciosamente os móveis, os livros, os quadros e tudo mais que aqui há e pesando, como conchas de balança, o valor de cada objeto. Ah! Meu amigo, essas criaturinhas românticas não têm alma de Jéssica, têm a usura de Shylock. Onde pensavas que existia amabilidade, só havia ronha e muita! Naquele peito farto não há coração: há uma bolsa. Garanto-te que essa suavíssima Carlota saiu daqui sabendo, melhor do que nós, o que há nesta sala e naquele quarto. Não te fies em olhos azuis nem em vozes que lembram citaras — essas criaturinhas são feitas de ganância e de hipocrisia. Sob essa aparência mística de anjos rafaelinos, há almas asquerosas e repugnantes como as figuras de Goya.

— E tu que és pessimista!

— Enganas-te: adoro a vida e agradeço-a a quem ma deu. Nunca me ouviste blasfemar, nunca me ouviste pedir a morte desesperado e enfarado do mundo — acho a criação maravilhosa, mas, meu caro, mestre Epicuro entendendo que o prazer é a base de todo o bem, não desconheceu a dor, não suprimiu as perfídias nem negou a existência do mal. A grande ciência do viver está justamente em saber a gente joeirar o seu trigo e escolher os frutos que deve saborear, para que lhe não suceda achar veneno onde só queria encontrar o sabor delicioso.

A rosa é uma maravilha de composição, é a forma, é a cor, é o aroma, mas se a colheres estabanadamente, podes espetar-te nos espinhos que a defendem; sábio é o que a obtém sem mágoa. Eu não falo mal de Gretchen, mostro apenas que ela tem espinhos, porque tenho grande prática da vida... e conheço as rosas. Hás de ver. Estás enamorado, quem te leva é o coração. És como um cego que vai guiado por um infante; hás de sentir a pancada quando ele levar-te pelos labirintos estreitos. Pensas, com certeza, que ela está, como a sunamita, a enlanguescer de amor...? Pois sim. Mete dinheiro na bolsa para o fim do mês. Mete dinheiro na bolsa.

Anselmo amuou. Não podia acreditar que criatura tão formosa e delicada fosse capaz de representar o indigno papel de arroladora de móveis. Via-a meiga, amável, carinhosa, mas, infelizmente, não durou muito a ilusão.

Dois dias depois de se haverem instalado, à tarde, puseram-se os dois a discutir o entrecho de uma revista de ano, porque Ruy Vaz entendia que era inútil trabalharem numa peça emocional, como queria Anselmo, um drama forte no qual jogassem paixões e aparecessem, sobre um fundo da vida social, caracteres minuciosamente estudados.

— Meu amigo, façamos uma revista. Não temos empresário nem público para a Arte. Onde entendes que deve entrar, com sutileza, o escalpelo da análise, metamos um ruidoso adufe; em vez do diálogo brilhante, demos um rondó brejeiro; em vez do lance dramático arranjemos um jongo, e teremos aplausos e o principal. O nosso teatro não é o que pensas. Leste nos críticos teatro é uma escola de Arte e de moral... isso não diz conosco. A barraca de Nicolo Musso, de que fala Hoffmann, onde representou Salvador Rosa, valia mais do que qualquer dos nossos teatros, que não são outra coisa mais do que casas bufas e de erotismo disfarçadas sob lantejoulas.

(continua...)

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