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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Os jornais da guerra – tomam sobretudo à sua conta o infeliz Lord Derby. Este político é digno de piedade: todas as contrariedades por que tem passado a Inglaterra são-lhe atribuídas com um luxo de epítetos injuriosos e um hiperbolismo de verrina – que causa melancolia. A Vanity Fair, um jornal elegante, de boa sociedade, estimado, respeitável, abandona-se sobre Lord Derby a excessos que a política costuma reprimir. Às vezes começa os seus artigos com moderação, bom raciocínio, linguagem correcta: de repente, encontra na sua argumentação o nome de Lord Derby. Endoidece. Atira-se a ele, morde-o, espezinha-o, arranca-lhe pedaços de membros, bate-o como um bife, chafurda-o na lama, baba-se de cólera. Há dias representava Lord Derby, de joelhos diante do embaixador russo Schuvalloff, rogando-lhe que por piedade não humilhasse mais a Inglaterra: Lord Derby beijava-lhe as mãos, abraçava-lhe as pernas... Aqui traduzo:

– Fora daqui! – brada Schuvalloff.

– Não, conde, deixe-me estar a seus pés. Não humilhe mais a Inglaterra. Nós fazemos tudo. Retiramos a frota. Destruímos a frota. Quer que destruamos a frota? É só vossa excelência dizê-lo! É um momento, com dinamite.

– Fora daqui, pulha!

– Sim, sou um pulha! Obrigado. Que honra que vossa excelência se digne notar que eu sou um pulha! Sou-o realmente, já que vossa excelência o diz. Deixe-me beijar mais a sua mão; que quer que eu faça para lhe provar a minha adoração? Quer que cante de galo?

Neste momento o público, fora, vem fazer um charivari debaixo das janelas do embaixador. Uma pedrada quebra um vidro. E logo entra, arremessado pela janela, um gato morto.

Schuvalloff dá um pontapé em Lord Derby, exclamando:

– Vê, imbecil. Aí está já esse grosseiro povo da Inglaterra a insultar-me, a atirar-me bichos mortos.

– O gato morto? – grita Lord Derby. – O gato morto era para mim! Todos os gatos mortos são para mim! Eles sabem que eu mordo-me por gatos mortos. (Abraça-se ao gato morto, beija o gato morto.) Senhor conde, uma palavra! Diga que a Rússia, a santa Rússia, a nobre Rússia, a Rússia nossa ama –não há-de bater na Inglaterra, nem fazer-nos mal, nem assustar-nos. Diga-o, senhor conde! Veja: rojo a minha cabeleira no chão, verto as minhas lágrimas – apertando contra mim o meu gato morto!

– Fora daqui, covarde, ou trabalha o chicote – diz Schuvalloff.

– Eu saio, eu saio, excelentíssimo senhor. Vossa excelência mande; eu saio, eu saio aos recuões. Mas primeiro permita, dê licença, é um instante... (Atira-se-lhe aos pés e põe-se com humildade a lamber-lhe o verniz das botas.)

Que me dizem a este meio de fazer polémica – com um ministro da Inglaterra? O Echo, jornal de paz, procede de outro modo. Traduzo um dos seus últimos períodos:

«Os estudantes de medicina de Londres, que têm sido tão conspícuos em todas as manifestações belicosas dos últimos dias, escrevem uma carta ao Echo prevenindo-nos de que virão a esta redacção dar-nos uma correcção que, segundo eles, merece a maneira como temos castigado esta importuna e imbecil intervenção dos senhores estudantes nos meetings bélicos. Pois bem, prevenimos apenas os senhores estudantes disto: que há, empregadas na redacção e imprensa do Echo, cento e cinquenta pessoas, que a provisão de bengalas é sólida e que a vontade é boa. Que suas senhorias venham quanto antes.»

O Echo é um dos melhores e mais acreditados jornais de Londres. Naturalmente, os grandes jornais, os jornais-personagens, o Times, o Daily Telegraph, o Daily News, o Standard, o Morning Post, conservam uma compostura mais digna, e nunca perdem a linha majestosa. Mas tudo o que a ironia, o sarcasmo, a alusão pérfida, podem produzir de mais acerado é trocado entre eles numa prosa correcta e grave. São gentlemen que se trocam num salão injúrias bem redigidas, com uma atitude cortês, o fel no coração e o sorriso nos lábios. Nunca vi tanto ódio – sob tanta polidez.

XIV

Londres, 28 de Março [de 1878]

(continua...)

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