Por Eça de Queirós (1925)
sahida o empregado lhe quiz vêr as malas, Arthur, empúrrado, atarantado, envergonhado, não encontrava as chaves. As mãos tremiam-lhe, sentia-se timido, quasi tinha saudades da casa das tias, da pequenez d'Oliveira d'Azemeis. E depois, @om o seu bilhete de bagagem, muito embaraçado, quasi affli Oto, errava pela grande sala d'espera, dando aqui e além um olhar aos annuncios, onde se lia em grandes letras nomes de cidades — Sevilha, Cor dova, Madrid, Paris — que lhe representavam ci vilisagões magnificas e lhe davam um acanhamento
Emfim, um carregador, que parecia occupado por deleite proprio em resmungar blasphemias, leVou-lhe com um ar soturno o bahú a uma caleche, o cocheiro bateu para o HespanhoJ.
Á beira do assento, com as mãos nos joelhos, -Arthur, atravez dos vidros embaciados, ia olhando ávidamente as fachadas das casas, os cartazes nas esquinas, a prolongação das ruas. Gallegos curvados sob o barril chapinhavam na lama, gente passava encolhida sob os guarda-chuvas. Teve um espanto ao Vêr de repente os arcos do Terreiro do Paço, o rio, Ü1astreagões de esquadras ! Pela rua da Prata, ia lendo ávidamente as taboletas. Quem viveria n'aquellas altas casas, cerradas ainda ? Áquella hora, de certo, os jornalistas, as duquezas, dormiam, de dag agitações intellectuaes e amorosas da noite , . . — uma felicidade exuberante encheu-lhe subitamente o peito.
A caleche parou.
Da escada do Hespanhol, sombria, sahia um cheiro enjoativo de amoniaco. Um oreado, de suiças e cabelleira esguedelhada, que o tratou por usted, levou-o para um quarto pequeno, forrado de papel verde. A janella abria para um saguão melancolico e a agua que cahia da goteira cantava em baixo n'um balde de zinco.
D'ahi a pouco, encolhido nos lençoes, Arthur dormia profundamente,
Acordou ao ruido da porta : o creado, em mangas de camiga, com um par de bota8 na mão, dizia reprehendendo-o :
— Então usted não vae comer São horas. Já usted vê ! La comida é ás cinco.
Cinco horas já ! Arthur sentia os rins doridos ; o tom crepuscular do quarto, ruido de pratos que ouvia ao lado, o rabujar d'uma creanga, deramlhe uma vaga tristeza.
O oreado, então, revirou as botas na mão, considerou um momento com melancolia o elastico esfiado e o tacão tombado, e rosnou :
— Estão na ultima . . .
Arthur fez-se vermelho.
— Pois quando usted quizer eomer, é lá em bai• xo — accrescentou o homem. E antes de sahir, arrastando os sapatos achinelados, repetiu ainda, indicando com tristeza as botas : — Estão na uktima ! Já ugted vê !
Servia-se a sopa, quando Arthur se veio sentar timidamente á mesa. Defronte d'elle, dous hespanhoes, de barbas d'azeviche e faces cavadas, comiam, soturnos, com as capas ao hombro ; na outra extremidade estava uma rapariga gordita e baixa' bonita, de robe-de-chambre escarlate e penteado alto ; ao pé d'ella um individuo calvo, de cachaço fradesco, muita côr nas faces rechonchudas, um bigodito grisalho, via-a jantar, com uns olhinhos de ternura babosa, fazendo entre os dedos bolinhas de pão.
Arthur admirou um momento as altas fachadas fronteiras, tão nobres » ! Depois, escutou os hespa• nhoes, que devoravam e fallavam baixo, desconfiados ; e tendo distinguido os nomes de Castellar, Py y Margall, Contreras, concebeu logo uma immensa admiração por elles. Eram republicanos perseguidos ; de certo se tinham batido em barricadas, conspiravam ; e como um d'elles estendia o braço para as azeitonas, Arthur apressou-se a chegar-lhe o prato respeito Qnente. O individuo disse, com gravidade, gracias, cabattero b e Arthur, muito lisonjeado, pensou que mais tarde poderia conhecel-os, ouvir-lhes episodios historicos, ligarem-se em sympathias revolucionarias ! . . . Que boa idéa vir para o Hespanhol ! Tudo alli lhe agradava — o aparador envernisado, o espelho com o caixilho resguardado por uma gaze côr de rosa, e o retrato de Prim, n'um cavallo empinado, agitando um estandarte. E foi quasi com orgulho que, depois do café, accendeu o seu charuto e se foi encostar á varanda : a tarde limpára, as ruas seccavam sob o norte frio ; uma carruagem que passou, com dous creados de casacos brancos, fel-o pensar que talvez fosse Ella, a sua desconhecida do vestido de xadrez : quando se agachou para espreitar, entreviu um homem gordo de lunetas ! Mas todos os seus desejos d'amores, de luxo, de celebridade, tinham-se posto a chalrar como passaros acordados. Examinava ávidamente as toitettes dos homens ; achou adoraveis duas senhoras que atravessavam a calcada, com os vestidos apanhados, mostrando as saias brancas que lhes batiam o tornozelo. Nunca imaginára Lisboa tão vasta, tão apparatosa, e parecia-lhe que as idéas deviam ter de certo a amplidão das ruas, e os sentimentos a elegancia dos vestuarios.
A rapariga de robe-de-chambre escarlate veio então debruçar-se á varanda proxima : erguia o rosto, olhava o céu e o tempo. Arthur achou-a deliciosa, com o seu pescoço muito branco, as fórmas copiosas, toda roliça e calida.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.