Por Eça de Queirós (1912)
Chegaram lá de noite, e tendo obtido licença dos guardas para entrar, o saltimbanco foi logo a um desses judeus que trocam dinheiro, pediu emprestado o que era necessário para construir uma barraca, erguer os estrados, lonas vermelhas, e possuir um tambor que anunciasse o gigante. O judeu, tendo examinado Cristóvão e certo que era um monstro de boa mostra e de boa renda, contou, uma a uma, dez peças de prata na palma do saltimbanco: - e tendo assinado o papel diante do corregedor da feira, o saltimbanco partiu com Cristóvão, a construir a barraca. Toda a noite trabalharam, pregando, martelando, enquanto a mulher do palhaço cosia à pressa uma túnica escarlate para Cristóvão.
Ao outro dia tudo estava pronto, e posta sobre dois postes a grande peça de paninho branco, em que se anunciava o maior gigante e o maior atleta de Navarra e dos Mundos. Cristóvão, sentado numa vasta caixa que um tapete recobria, esperava, enquanto fora o saltimbanco, tocando o tambor, anunciava a maravilha, e a mulher, com cequins de metal nas tranças caídas, como uma moura, esperava diante de um prato de cobre, onde deviam cair as entradas.
A feira era enorme, num vasto prado que defrontava com os muros da cidade. As barracas de lona, de madeira, de tapetes, de ramagens, alinhavam-se em grandes ruas. No topo dos mastros flutuavam bandeirolas. E homens enfardelados como orientais, mulheres com plumas nas cabeças, outras com trajes de nações estranhas, conservavam-se por trás dos balcões, onde, segundo a rua, e os mesteres, se desdobravam panos, reluziam jóias em caixas gradeadas, se perfilavam os frascos de essências, se amontoavam as peles, se confundiam as armas tauxiadas. Noutras ruas, sob tendas de lona, havia cozinhas. grandes barricas de cerveja ou e vinho. E os saltimbancos ocupavam um lugar perto do rio, que longos olmeiros assombreavam. Em volta, por toda a vasta planície, era uma confusão de carros descarregados, de pilhas de madeira, de cavalgaduras presas pelas patas, de grandes gigos onde se debatiam aves.
Apenas as portas da cidade se abriram, a multidão começou a encher as ruas da feira, onde a erva desaparecera sob os pés. E bem depressa começou o vozear dos pregões, os brados dos que chamavam fregueses, os atabales tocando à porta das tabernas, as sinetas repicando.
Mas ninguém fazia maior barulho que o saltimbanco coxo, rufando desesperadamente o tambor, diante da tenda onde aquele bom gigante esperava, pensativo. Bem depressa, homens do burgo, mulheres com crianças pela mão, os feirantes, começaram a entrar, deixando cair uma moeda de prata no vasto prato de cobre. E apenas se levantava a cortina, era em todos os lábios um longo ah! lento e maravilhado. A barraca era alta, em forma de torre: - e, vestido com uma longa túnica escarlate, bordada a lantejoulas e ouropéis, com um turbante onde ondeavam enormes plumas verdes, um colossal alfanje de pau passado na cinta amarela, Cristóvão era, na verdade, um assombro, e como um ogro disforme dos contos de fadas. Cheio de timidez, não movia os braços: e um grande rubor invadia-o todo diante daquelas faces atônitas, onde havia terror da sua força, e como uma piedade da sua deformidade. As crianças escondiam-se nas saias das mães: - e os homens espantados, queriam apalpar a rijeza dos seus músculos. Cada grupo que saía ia contar nas tabernas, espalhar por toda a feira a maravilha daquele gigante. Já uma lenda circulava – e era ele, não outro, que derrotara o imperador da Ocitânia, matara um grande dragão que infestara os Algarves, e, só com a empurra, derrubara a torre construída pelo Diabo para o Roberto de Normandia. Todo dia uma grande fila esperou à porta da barraca – e à noite sobre o prato de cobre havia um monte de dinheiro esboroado.
Pouco a pouco, Cristóvão habituara-se à multidão – e mesmo, para fazer rir as crianças, fazia esgares, ou agarrava um homem pelas pernas e erguia-o como uma palha ligeira. Depois levantou com dois dedos uma barrica cheia de pedras, torceu com os dentes grossas barras de ferro, e de uma só pancada, com o punho fechado, fendeu uma mó de moinho.
À noite estava coberto de suor: - e enquanto o saltimbanco e a mulher, com a face radiante, faziam as pilhas do dinheiro, ele tomava ao colo e embalava a criancinha, que nos seus braços tinha um sono mais doce.
A sua fama correra no burgo – e o próprio príncipe que ali reinava, e o bispo, vieram em grande comitiva, com cavaleiros e pajens, ver o gigante. Foi grande neles a maravilha. E o príncipe, homem de grandes músculos, queria media as forças com Cristóvão, jogando a qual deles vergaria a mão do outro. E diante daqueles cavaleiros, por humildade, Cristóvão cedeu, e deixou que a mão cabeluda do príncipe vergasse a sua. Os cavaleiros aclamavam o Senhor. E o príncipe, radiante, despejou a sua bolsa cheia de ouro nas mãos de Cristóvão, isentou a barraca do saltimbanco de todos os impostos ao corregedor, e mandou, de noite, moços da cozinha com tochas, trazer uma perna de veado e empadões de sua mesa.
Toda a note, os saltimbancos, partindo o dinheiro, dava a sua metade a Cristóvão – que ele guardava numa cova, a um canto da barraca, coberto com uma mó de moinho. Depois ia pela feira solitário, e todo o serviço era ele que o fazia. Carregava as barricas de vinho, descarregava os fardos, limpava o chão das barracas, e, à porta das cozinhas, fazia a lavagem dos pratos de estanho.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.