Por Eça de Queirós (1900)
- Agora, meu amigo, com a tio do Cavaleiro ministro da Justiça e o José Ernesto ministro do Reino, vai Deputado pela círculo quem o André Cavaleiro mandar. E claro... O Sanches Lucena manteve sempre o seu lugar em S. Bento por uma indicação natural do partido. Era aqui o primeiro homem, o grande homem dos Históricos... Bem! Hoje, para decidir o Governo, como falta a indicação natural do partido, que resta? O desejo pessoal do Cavaleiro. Você sabe como o Cavaleiro é regionalista. Pelo círculo pois, logicamente, sai quem se apresente ao Cavaleiro como um bom continuador do Lucena, pela influência e pela estabilidade territorial... Noutro circulo ainda se podia encaixar à pressa um Deputado fabricado em Lisboa, nas Secretarias. Aqui não! O Deputado tem de ser local e Cavaleirista. E o próprio Cavaleiro, acredite você, está a esta hora embaraçado.
O gordalhufo murmurou com importância, através do imenso charuto que mamava:
- Amanhã já estou com ele, já sei...
Mas o Administrador emudecera, coçava o queixo, cravando em Gonçalo os olhos espertos, que rebrilhavam, como se uma ditosa idéia, quase uma inspiração, o iluminasse. E de repente, para o outro, que cofiava a barba retinta:
- Pois, meu caro senhor, até além de amanhã. Ficamos entendidos. Eu remeto o cestinho dosqueijos diretamente ao Sr. Conselheiro.
Tomou o braço de Gonçalo, que apertou com impaciência. E sem atender mais ao homenzarrão, que saudava rasgadamente, arrastou o Fidalgo para a Calçadinha silenciosa:
- Oh, Gonçalo, ouça lá... Você agora tinha uma ocasião soberba! Você, se quisesse, dentro depoucos dias, estava Deputado por Vila-Clara!
O Fidalgo da Torre estacara - como se uma estrela de repente se despenhasse na rua mal alumiada.
- Ora escute! - exclamou o Administrador, largando o braço de Gonçalo, para desenrolar maislivremente a sua idéia. - Você não tem compromissos sérios com os Regeneradores. Você deixou Coimbra há um ano, tenta agora a vida pública, nunca fez ato definitivo de partidário. Lá uma ou outra correspondência para os jornais, histórias!...
- Mas...
- Escute, homem! Você quer entrar na Política? Quer. Então, pelos Históricos ou pelosRegeneradores, pouca importa. Ambos são constitucionais, ambos são cristãos... A questão é entrar, é furar. Ora você, agora, inesperadamente, encontra uma porta aberta. O que o pode embaraçar? As suas inimizades particulares com o Cavaleiro? Tolices!
Atirou um gesto, largo e seco, como se varresse essas puerilidades:
- Tolices! Entre vocês não há morte de homem. Nem vocês, no fundo, são inimigos. O Cavaleiroé rapaz de talento, rapaz de gosto... Não vejo outro, aqui no distrito, com quem você tenha mais conformidade de espírito, de educação, de maneiras, de tradições... Numa terra pequena, mais dia menos dia, fatalmente, se impunha a reconciliação. Então seja agora, quando a reconciliação o leva às Câmaras!... E repito. Pela círculo de Vila-Clara sai Deputado quem o Cavaleiro mandar!
O Fidalgo da Torre respirou, com esforço, na emoção que o sufocava. E depois dum silêncio em que tirara o chapéu, abanara com ele, pensativamente, a face descaída:
- Mas o Cavaleiro, como você disse, é todo local, todo regional... Não quererá impor senão um homem como o Lucena, com fortuna, com influência...
O outro parou, alargou os braços:
- E então, você?... Que diabo! Você tem aqui propriedade. Tem a Torre, tem Treixedo. Sua irmã hoje é rica, mais rica que o Lucena. E depois o nome, a família... Vocês, os Ramires, estão estabelecidos, com solar em Santa Irenéia, há mais de duzentos anos.
O Fidalgo da Torre ergueu com viveza a cabeça:
- Duzentos?... Há mil, há quase mil!
- Ora, aí tem! Há mil anos. Uma casa anterior à monarquia. Pelo menos coeva! Você é portantomais Fidalgo que o Rei! E então, isso não é uma situação muito superior à do Lucena? Sem contar a inteligência... Oh! diabo!
- Que foi?
- A garganta... Uma picadita na garganta. Ainda não estou consolidado.
E decidiu logo recolher, gargarejar, porque o Dr. Macedo proibira as noitadas festivas. Mas Gonçalo acompanhava até a porta o amigo Gouveia. E, conchegando o abafo de lá, a Administrador resumiu a sua idéia:
- Pelo círculo de Vila-Clara, Gonçalinho, sai quem o Cavaleiro mandar. Ora, o Cavaleiro, creiavocê, tem imenso empenho de o eleger, de o lançar na Política.
Se você portanto estender a mão ao Cavaleiro, o círculo é seu. O Cavaleiro tem o maior, o maioríssimo empenho, Gonçalinha!
- Isso é que eu não sei, João Gouveia...
- Sei eu!
E em confidência, na solidão da Calçadinha, João Gouveia revelou ao Fidalgo que o Cavaleiro ansiava pela ocasião de reatar a velha fraternidade com o seu velho Gonçalo! Ainda na semana passada o Cavaleiro lhe afirmara (palavras textuais): - "Entre os rapazes desta geração nenhum com mais seguro e mais largo futuro na Política que o Gonçalo. Tem tudo! grande nome, grande talento, a sedução, a eloqüência... Tem tudo! E eu, que conservo pelo Gonçalo todo o carinho antigo, gastava ardentemente, ardentissimamente, de o levar às Câmaras
- Palavras textuais, meu amigo!... Ainda há seis ou sete dias, em Oliveira, depois do jantar, a tomarmos ambos café no quintal.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.