Por Camilo Castelo Branco (1862)
Enxuguei o suor, relanceei em derredor os olhos e vi, a distância de cem passos, Tomásia, sentada à beira dum tanque, coberto de ramagens de para, costurando e cantando a meia voz.
- Boas tardes, Sr. Silvestre! - disse ela, risonha.
- Ande lá, que se regalou de dormir; e, se não sou eu, as moscas e os mosquitos chupavam-lhe o sangue.
- Muito obrigado, menina.
- Menina! - tornou ela. - Eu sou mulher, não sou menina.
Ergui-me e fui lavar a cara na bica do tanque. Tomásia tirou o seu avental de linho para eu me limpar.
Sentei-me, depois, à sua beira, e vi que ela estava remendando uma camisa.
- Remenda o teu pano, e chegar-te-á ao ano; torna-o a remendar, e tornará a chegar – disse ela. Estivemos silenciosos alguns segundos. Cortou Tomásia o silêncio, perguntando: - Vai-se embora amanhã?
- Vou.
- Não gosta de estar conosco?
- Gosto; mas cada um de nós tem a sua casa.
- Isso é verdade... - disse ela, com a mão da agulha suspensa e os olhos fitos em qualquer coisa dis-
tante.
- É feliz, não é, Sra. Tomásia?
- Feliz é quem está no Céu. Diz meu tio padre João que neste mundo ninguém é contente da sorte que tem.
- Que lhe falta a si? Não tem tudo o que deseja?
- Eu desejo pouco...
- Então que mais quer para ser feliz?
- Queria que o Sr. Silvestre se deixasse estar mais alguns dias por aqui; mas, se tem que fazer na sua casa, vá. Lembra-se quando estivemos, faz anos para a Semana Santa, nas Endoenças de Santo Amaro?
- Lembro.
- Pois olhe que nunca mais me esqueceu! Vossemecê lembra-se de me ver? - Mal me recordo...
- Lá me parecia...
- Porquê? Tem razão para supor que eu não a devia lembrar?
- É dum modo de dizer... Nem se lembra que eu lhe dei duas cavacas em casa do Sr. Vigário? - Ah!, agora me lembro... levava os cabelos louros com laços de fita, não levava?
- E vestido vermelho de cetim.
- Tal e qual. Que linda ia! Fiquei a pensar em si muitos dias...
- Mas esqueceu-se, e nem me conheceu agora. Uma rapariga em dez anos muda de cara; estou já ve-
lha...
- Não está sequer mudada, menina.
- E ele a dar-lhe!... não gosto que me chame menina.
Chame-me Tomásia.
Neste momento chegou o sargento-mor e disse com muito afável gesto:
- Ó rapariga, olha que teus tios já lá estão perguntando se tu fugiste com o Sr. Silvestre.
- Estamos a tratar disso, meu pai; quer vossemecê fugir também connosco? - respondeu ela com muita graça e desembaraço.
- Pois vamos lá com Deus.
E o velho, aproximando-se mais, reparou na costura de Tomásia, e disse:
- Não tens vergonha de estar a remendar camisas diante deste senhor?
- Agora tenho! Pois isto é vergonha? Vergonha é trazê-las rotas. Ó Sr. Silvestre, ainda que eu seja confiada, diga-me: quem lhe arranja a sua roupa?
- A minha roupa está sempre desarranjada; quando se rompe, compro outra.
- É bom governo esse! - tornou ela -, assim é que há-de ir para diante a sua casa!... Se eu morasse mais perto de si, dizia-lhe que mandasse a roupa para cá... Ri-se? Talvez cuide que eu não sei engomar! Veja o colarinho da camisa de meu pai como está rijo!
- Pois o melhor de tudo - atalhou o velho - é que o Sr. Silvestre venha cá para casa de vez, e então lhe tratarás da roupa.
Tomásia compreendeu o figurado do dizer e pôs os olhos na costura.
Chegavam os padres, discutindo outro ponto do artigo de fundo da Nação, e caminhámos todos polemicando, até chegarmos a um campo marginal do rio, onde o sargento-mor tinha uma pequena casa com adega.
Entrámos na adega, cuja frescura consolava. Pouco depois chegou uma rapariga com o cesto da merenda. Era uma travessa de barro vermelho cogulada de trutas fritas.
Tomásia foi a uma poça colher celgas e agriões, de que fez salada, depois de esfregar as mãos com areia da margem do rio.
Rodeámos uma dorna de fundo ao alto, sobre a qual se colocou a travessa das trutas e o alguidar da salada, donde nos servimos todos com garfos de ferro mui lustrosos.
Tomásia tirou uma truta para cima duma fatia de pão e sentou-se no socalco da pipa, donde tirava o vinho, que ressaltava espumando pelo batoque. Bebíamos todos do mesmo pichel de estanho; e o pichel, quando caia na mão dum padre, voltava vazio à torneira.
- Dão-me que fazer os tios!... - disse Tomásia a rir.
- Anda lá, rapariga - acudiu o padre João -, que tu também gostas de ver o fundo da caneca... Essas cores não se criam com água.
- Bebe, bebe, cachopa - disse o sargento-mor -, que o vinho é meia mantença.
Quando o pichel passou da minha mão à de Tomásia, reparei que ela assentou os lábios no rebordo molhado por onde eu tinha bebido. E, como visse que eu dera fé, corou. Ao entardecer voltámos a casa.
VI
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.