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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Ainda assim, em quereres a nossa amizade, primo Afonso, nos dás grande satisfação. Vejo que vives muito amargurado, desde que morreu a nossa chorada mãe. Se te mortifica o pesar de não ter vindo assistir-lhe à morte, tranquilize-te a certeza de que ela te perdoou. Bem sabes que santinha e que mãe ela era. Eu fui ler à beira da sua sepultura a tua carta. Li-a em voz alta, cortada de gemidos. Depois orei muito, e levanteime de ao pé dela tão desoprimida e satisfeita que tomei por instinto do Céu a minha alegria. Pode ser que esta carta vá encontrar-te no gozo do alívio que eu senti então.

Bom seria, meu primo, que tu mandasses cuidar um pouco nos negócios de tua casa. Meu pai faz o que pode, e dirige o teu procurador; mas receia de não zelar os teus interesses como queria por falta de saúde e pela distância em que vivemos de Ruivães.Adeus, meu querido irmão. Cuida em ser feliz e lembra-te com amizade da tua Mafalda.

"Respondi logo a esta carta, participando a minha prima que ia sair para Paris, no propósito de assentar ali a minha residência. Expressões afectuosas escassamente lhe disse as vulgares, as necessárias à formalidade de relações entre primos que se estimam.

E que eu via em mim o aviltado homem que estava sendo, e de Mafalda mesmo tinha eu um certo pejo, vaidade ainda, a vaidade do homem que se julga desapreciado aos olhos de uma mulher, que o vê rejeitado de outra, embora vilíssima, embora repulsada da sociedade de mulheres aptas para honestamente avaliarem o merecimento do homem desprezado. Eu não queria nem podia, coberto de infâmia por Palmira, ir acolher-me ao amor de Mafalda. E depois, e sobretudo, meu amigo, bem que eu quisesse, não poderia amá-la então como a teria amado quinze dias antes, insuspeitoso da lealdade de Palmira.

Sabem os experimentados, poderás tu sabê-lo, que é uma excepção de almas fúteis a passagem rápida de uma afeição a outra quando nos pesa o opróbrio de uma perfídia. O coração está lanhado, a fronte não ousa erguer-se para a mulher do amor de salvação, a dignidade geme sob o peso de vilipêndio, que cuidamos ler nos olhares afrontosos de todo o mundo, olhares que por vezes exprimem compaixão. Mas o que é em casos tais a piedade, senão injúria?!

"Escrevi ao meu procurador ordenando-lhe a venda de todas as minhas propriedades, salvando a casa e quinta de Ruivães. Na volta do correio, avisou-me ele de que havia comprador pronto; e, poucos dias depois, recebi ordens de pagamento de trinta mil cruzados. Com estas ordens, vinha carta de meu tio Fernão de Teive. Dizia assim:

Tua prima está enferma, por isso te não escreve; e eu, também adoentado e tristonho, mal posso escrever-te. Recebemos a nova da tua mudança para Paris. Vai com Deus, Afonso. Pode ser que a tua felicidade lá esteja. Folgo de te ver ir desligado da personagem que, segundo me dizem, foi afinal o que era rigoroso que fosse. Diante da mulher perdida todos os homens são iguais. Quereres tu o privilégio que o marido não teve seria um absurdo do teu orgulho. Teodora está em Braga promovendo o divórcio a fim de levantar-se com o seu património. O Eleutério, por intervenção de um meu compadre, quis que eu entrasse como ouvinte e conselheiro em suas coisas. Aceitei o convite como quem tem pouco que fazer, e passa as suas horas na cama a agasalhar a gota. Sou o depositário do borrador das cartas que ela te escrevia, sedutoras em verdade, e dignas de irem à estampa. Onde foi esta mulher aprender tanta palavra?!

Estou em dizer que anda aqui muito amor de dicionário; e os sucessos posteriores levam-me à crer que era ainda pior o amor da criatura. Aqui estou eu a falar contigo à laia de rapaz! E o caso é que a dor do calcanhar esquerdo espalhou.

O teu procurador avisa-me que vendeu as tuas quintas de Leirós e Gestal. Para te não dizer coisas tristes, e evitar que torne a dor do calcanhar, ponho aqui ponto. Mas sempre te direi, como irmão de tua mãe e teu amigo deveras, que. exaurido o teu património, tens a minha casa. Se eu morrer - e ainda bem! - antes desse dia (dia, talvez. inevitável!), deixarei dito a Mafalda que seja sempre o que tua mãe e eu fomos para ti: o coração devotado sem condições. Adeus. Quando tiveres vagar, escreve-me de Paris. - Teu tio, F. de Teive.

"Alegrou-me a nova da ausência de Palmira de Lisboa. O dragão do ciúme desencravou-me as garras do peito. Que estúpida alegria! A suspensão da perfídia que importava ao desagravo do meu orgulho? Quão lastimáveis e ridículos somos, se uma vez perdemos o norte da legitima, da decente probidade! Nenhum liame de sã moral resiste a cancro do coração. Até o regenerarmo-nos tem para nós um certo ar de baixeza de ânimo, cena de comédia que faz rir o mundo.

"E eu, ansioso de um mundo novo, fui para França. Que cuidas tu que eu ia procurar em França?"

- O método mais fácil de gastar os trinta mil cruzados - respondi eu.

- Não me lembravam os trinta mil cruzados; ia procurar uma mulher; ia procurar o amor de salvação.

- E encontraste-o em França?

- Encontrei.

- Vejamos.

XX

(continua...)

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