Por Coelho Neto (1890)
Ruy Vaz, com um esplêndido ramo de rosas, encaminhou-se para a sala de jantar deixando Anselmo no jardim, preocupado, a pensar na vida que lhe aparecia temerosa e nos olhos doces de Carlota, azuis como dois pequeninos céus cheios de esperança, com um Deus em cada uma das pupilas.
— Vem daí, homem. João de Deus já nos está mudando.
— E não é que estou apaixonado mesmo!? — murmurou o estudante encaminhando-se lentamente para a sala de jantar.
CAPÍTULO X
João de Deus, sempre gemendo, ia passando os trastes para casa de Gretchen e, ao meio dia, já estavam armadas, no quarto acanhado, as camas de Anselmo e de Ruy Vaz e as duas mesas, o divã e as cadeiras guarneciam a sala no meio da qual foi estendido o tapete com a cena lúbrica do serralho.
Toledo quis ver a instalação dos companheiros e achou-a confortável, sentindo, porém, não poder acompanhá-los, porque, como estava em vésperas de exame, ia, com o seu esqueleto, para a casa do primo, habitar o chalezinho que lhe fora oferecido com a comida, à sombra quieta do pomar.
Crebillon não aparecia. Teria ido, como dissera, dar cabo dos monadíssimos porcos que devastavam a roça de Fontainha? Eles não podiam ficar em conjecturas à porta do quarto do abolicionista — tinham de arranjar os novos aposentos e despediram-se da casa com a tristeza com que Boabdil abandonou Granada.
Adeus, salões incomensuráveis, largos e desafrontados como planícies! Adeus, vastíssimos e arejados quartos! Adeus, sala de jantar que faria as delícias de um voluptuoso Apício! Adeus, fogão monstruoso e flamejante; adeus, cachoeiroso banheiro, jardim redolente, adeus! O negro, fidelíssimo e resignado, no momento em que os dois rapazes despediram-se, pigarreou comovido.
— João, não te esqueças de nós; aparece de vez em quando porque no dia em que a sorte nos sorrir, tu, que tão dedicadamente nos acompanhaste nos tempos amargos da desventura, hás de participar do sorriso da fortuna. Por enquanto não podemos demonstrar generosamente a nossa gratidão, mas não vêm longe os dias prósperos: confia e espera.
João, de olhos baixos, ouviu sem palavra e, como os rapazes lhe estendessem as mãos, o pobre negro ficou tão lisonjeado que, apesar da enxaqueca e da fome, sorriu desvanecido.
— Adeus, Toledo.
— Adeus, Anselmo. Adeus, Ruy.
— Aparece.
— Sim, hei de aparecer. E abraçaram-se.
— Ficas à espera de Crebillon?
— Não, mudo-me amanhã. João de Deus toma conta da casa.
— Eu? — exclamou o negro aterrado. E se o dono vier?
— Não há perigo, João.
— Não, nhonhô, eu tenho muito medo de negócios com a polícia. Para acompanhar vosmecês, estou pronto, mas para ficar aqui sozinho, isso não.
— Quem sabe se tens medo de almas do outro mundo?
— Eu! Não, senhor: tenho medo da polícia. Sozinho, não senhor. Com vosmecês tudo está direito, mas comigo, um pobre preto velho... O homem chega aí, bate língua e me atira no cosmorama. Deus me livre! Sozinho, não!
— Então com quem há de ficar a chave?
— Fica na venda. — Isso não.
Para pôr termo à discussão Toledo resolveu demorar mais dois dias na casa à espera de Crebillon e, depois de novos abraços, trazidos até à porta da rua pelo anatomista, pelo negro e pelo gato, os dois partiram saudosamente para a casa contígua.
Arranjando as estantes Ruy Vaz começou a fazer considerações literárias.
— Vê tu, se um de nós fizesse aparecer num romance esse misterioso João de Deus, a crítica havia de bradar contra a inverosimilhança, porque, deixa lá! Esse negro é fantástico.
— Está ali um famoso idiota ou um santo.
— Um santo, Anselmo, um virtuosíssimo santo.
— Receberá ele os sessenta mil réis do ajuste?
— Sessenta mil réis! Crebillon não daria isso por toda a costa da África.
— Pobre João de Deus! — Paupérrimo!
Bateram à porta do corredor. Anselmo foi abrir: era Carlota com uma salva na qual fumegavam cheirosamente duas xícaras de café. Anselmo sentiu violenta pancada no coração como se houvesse estourado um dos vasos vitais e, trêmulo, muito agradecido, tomou a bandeja das mãos delicadas de Carlota; ela, porém, para poupar-lhe o trabalho, relutou e, entrando, consentiu apenas que ele retirasse a xícara que lhe cabia indo, ela mesma, oferecer a outra a Ruy Vaz.
O romancista, que estava de cócoras arranjando os últimos raios da estante, ergueu-se alvoroçado, e, chuchurreando o café, que estava delicioso de gosto e de aroma, dirigia amabilidades a alemã, confessando que começava a achar encantador o aposento e propício ao trabalho com aquele silêncio imperturbável da rua e da casa.
— Os senhores são estudantes?
— Não, senhora: jornalistas. Dizemos jornalistas porque no Brasil o nosso mister não tem ainda classificação. Somos forçados a tomar de empréstimo à imprensa um título de apresentação. Em verdade nada temos de jornalistas:
fazemos romances e contos e lá de vez em quando um folhetim.
— Ah! Fazem romances? — Sim, senhora.
Carlota lançou a Ruy Vaz um olhar cheio de incredulidade.
— Como são os seus romances?
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.