Por Bernardo Guimarães (1883)
A acquisição da linda escrava Rozaura foi um motivo de festa por muitos dias na familia do major. Era um mirno, que ha muito o avô desejava fazer à Estella, linda e interessante netinha, que era o seu idolo ; e para esse fim tinha dado amplas autorisações ao genro. O mimo excedeo a sua expectativa, e valia realmente um thesouro. Rozaura nos primeiros dias foi antes o enlevo e admiração da familia, do que a escrava da casa. Adelaide a tratava com carinho maternal ; Lucinda a rodeava de cuidados e procurava adivinhar-lhe os desejos ; as creanças não comião um doce, uma golodice qualquer, que não repartissem com ella; o major a chamava de minha tetéia, e o senhor Moraes ficava ás vezes a contemplal-a com ar tão terno e embevecido, que não deixava de causar displicencia e inquietação à Adelaide.
E Rozaura merecia bem essas contemplações e deferencias. Activa, intelligente et habilidosa, não se recusava a serviço algum. Na cozinha ajndava a tia Lucinda com tal geito e desembaraço, que fazia pasmar a velha preta. Ne sala engomava, cosia e bordava de modo que encantava a sua senhora. Aos trabalhos mais delicados, como aos mais rudes e fragueiros se offerecia e prestava não só com promptidão, como tambem com certo 'ar affectuoso, que fazia crer que tomava gosto em seu captiveiro. Tratava das creanças com tal amabilidade, geito e carinho, que parecia não uma rapariga de quatorze annos, mas uma provecta mãe de familia, Reunindo-se a estas qualidades adoraveis o porte e o rosto de uma donzella que poderia figurar em um salão aristocratico, póde-se fazer idea do thesouro inapreciavel, que graças ao dinheiro do major eàs diligencias de seu genro era hoje propriedade da casa.
Quando estava em companhia, Rozaura era sempre alegre, meiga e affavel ; mas Lucinda e mesmo Adelaide a tinhão sorprehendido a sós scismando tristemente, e ás vezes com as lagrimas nos olhos.
— Que tens, Rozaura, que estás ahi tão triste e amuada e quasi a chorar Q — perguntou-lhe uma vez Adelaide com ternura.
— Nada, minha sinhá , é porque estava mc lembrando de minha mãe, que já morreo.
— Ora ! não chores ; — replicou Adelaide pousando a mão sobre a linda cabecinha de Rozaura. Eu tambcm quasi não conheci mãe, e não estou chorando. Não chores mais não ; eu tambem sou tua mãe.
E com estas doces palavras a menina sc consolou e recobrou seu ar sereno e jovial.
Este estado de paz e bemaventurança domestica infelizmente não poude durar por muito tempo. A força de contemplar todos os dias as bellezas plasticas da formosa Rozaura, Moraes se foi deixando arrastar por uma paixão insensata e frenetica por ella.
Ou fosse um amor verdadeiro, intimo e profundo, que lhe revolucionasse a alma, o que era bem possivel á vista da seductora belleza da captiva, ou fosse o demonio da libidinagem, que lhe turvava o espirito e lhe inflammava o sangue, o que é ainda mais provavel, o certo é que Moraes, sem attender nem ao menos ás conveniencias e ao decoro da familia, deixou entrever a cega paixão que o dominava. Um dia não podendo mais conter-se declarou suas impudicas intenções á ingenua e virtuosa escrava, que mal as podia comprehender. Senhor quasi absoluto da casa fazia quotidianamente á inexperta rapariga pomposas promessas de liberdade, dinheiro e mil felicidades, ás quaes a singela menina oppunha sempre a mais rude e obstinada negativa. Com as repulsas e esquivanças ainda mais recrudecia a febre de ardente sensualismo que abrazava o sangue de Moraes ; depois de ter empregado em vão todos os meios de seducção a seu alcance, lançou mão tambem da mais terriveis ameaças.
Si não cederes a meus desejos, Rozaura, dizia-lhe elle nos transportes de sua insensata e lasciva paixão, — vendo-te ahi a qualquer senhor libertino e sem coração, que fará comtigo o que eu não posso, nem tenho animo de fazer; que te amarrará de pés e mãos, e fará de ti o que muito bem quizer.
— Senhor, — respondia a escrava com uma resolução e firmeza para admirar em sua edade e condição, — é escusado ameaçar-me, pcrdc seu tempo ; nunca cederei, nunca ! faça de mim o que quizer, tenho fé que Deus me hade valer.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.