Por Machado de Assis (1876)
D. LEOCÁDIA — Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no médico. O pior é que daqui a pouco, talvez não se lembre dele.
CAVALCANTE — Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!
D. LEOCÁDIA — No fim de dois anos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, e talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido a namorada, consentirei que volte.
CAVALCANTE — Obrigado. Vou ter com seu sobrinho, e depois vou arranjar as malas.
D. LEOCÁDIA — Então não volta mais a esta casa?
CAVALCANTE — Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou tomar passagem no paquete4 de amanhã.
D. LEOCÁDIA — Jante, ao menos, conosco.
CAVALCANTE — Janto na cidade.
D. LEOCÁDIA — Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, dr. Cavalcante. Creia-me: o senhor merece estar doente. Há pessoas que adoecem se merecimento nenhum; ao contrário, não merecem outra coisa mais que uma saúde de ferro. O senhor nasceu para adoecer; Que obediência ao médico! Que facilidade em engolir todas as nossas pílulas! Adeus!
CAVALCANTE — Adeus, d. Leocádia. (Sai pelo fundo)
Cena VIII
D. Leocádia, d. Adelaide
D. LEOCÁDIA — Com dois anos de China está curado. (Vendo entrar Adelaide.) O dr. Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o meu exame médico?
D. ADELAIDE — Não. Que lhe pareceu?
D. LEOCÁDIA — Cura-se.
D. ADELAIDE — De que modo?
D. LEOCÁDIA — Não posso dizer; é segredo profissional.
D. ADELAIDE — Em quantas semanas fica bom?
D. LEOCÁDIA — Em dez anos.
D. ADELAIDE — Misericórdia! Dez anos!
D. LEOCÁDIA — Talvez dois; é moço, é robusto, a natureza ajudará a medicina, conquanto esteja muito atacado. Aí vem teu marido.
Cena IX
Os mesmos, Magalhães
MAGALHÃES, a d. Leocádia — Cavalcante disse-me que vai embora; eu vim correndo saber o que é que lhe receitou.
D. LEOCÁDIA — Receitei-lhe um remédio enérgico, mas que há de salvá-lo. Não são consolações de caracará5. Coitado! Sofre muito, está gravemente doente; mas, descansem, meus filhos, juro-lhes, à fé do meu grau, que hei de curá-lo. Tudo é que me obedeça, e este obedece. Oh1 aquele crê em mim. E vocês, meus filhos? Como vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão curados? (Sai pelo fundo.)
Cena X
Magalhães. d. Adelaide
MAGALHÃES — Tinha vontade de saber o que é que ela lhe receitou.
4 Navio a vapor veloz e luxuoso, que fazia transporte regular de passageiros.
5 Espécie de gavião do norte da América do Sul. O mesmo que carcará.
D. ADELAIDE — Não falemos nisso.
MAGALHÃES — Sabes o que foi?
D. ADELAIDE — Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez anos. (Espanto de Magalhães.) Sim, dez anos; talvez dois, mas a cura certa é em dez anos. MAGALHÃES, atordoado — Dez anos!
D. ADELAIDE — Ou dois.
MAGALHÃES — Ou dois?
D. ADELAIDE — Ou dez.
MAGALHÃES — Dez anos! Mas é impossível! Quis brincar contigo. Ninguém leva dez anos a sarar; ou sara antes ou morre.
D. ADELAIDE — Talvez ela pense que a melhor cura é a morte.
MAGALHÃES — Talvez. Dez anos?
D. ADELAIDE — Ou dois; não esqueças.
MAGALHÃES — Sim, ou dois; dois anos é muito, mas, há casos... Vou ter cm ele.
D. ADELAIDE — Se titia quis enganar a gente, não é bom que os estranhos saibam. Vamos falar com ela, talvez que, pedindo muito, ela diga a verdade. Não leves essa cara assustada; é preciso falar-lhe naturalmente, com indiferença.
MAGALHÃES — Pois vamos.
D. ADELAIDE — Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres...
MAGALHÃES — Não; ela continuará a zombar de ti; vamos juntos, estou sobre brasas.
D. ADELAIDE — Vamos.
MAGALHÃES — Dez anos!
D. ADELAIDE — Ou dois. (Saem pelo fundo.)
Cena XI
D. Carlota, entrando pela direita
D. CARLOTA — Ninguém! Afinal foram-se! Esta casa anda hoje cheia de mistérios. Há um quarto de hora quis vir aqui, e prima Adelaide disse-me que não, que se tratavam aqui negócios graves. Pouco depois levantou-se e saiu; mas antes disso contou-me que mamãe é que quer que eu vá para a Grécia. A verdade é que todos me falam de Atenas, de ruínas, de danças gregas, da Acrópole... Creio que é Acrópole que se diz. (Pega no livro que Magalhães estivera lendo, senta-se, abre e lê.) “Entre os provérbios gregos, há um muito fino: Não consultes médico; consulta alguém que tenha estado doente.” Consultar alguém que tenha estado doente! Não sei quem possa ser. (Continua a ler em voz baixa.)
Cena XII
D. Carlota, Cavalcante
CAVALCANTE, ao fundo — D. Leocádia! (Entra e fala ao longe a Carlota, que está de costas.) Quando eu ia sair, lembrei-me...
D. CARLOTA — Quem é? (Levanta-se.) Ah! doutor!
CAVALCANTE — Desculpe-me, vinha falar à senhora sua mãe para lhe pedir um favor.
D. CARLOTA — Vou chamá-la.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não consultes médico. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.