Por Machado de Assis (1862)
Outra causa devia haver, e Vicente tratou de indagar nesse mesmo dia sem nada obter; no dia seguinte, porém, a gazetilha do Jornal do Commercio tirou todas as dúvidas: noticiava a fuga do homem com alguns contos de réis.
Para acabar já com a história deste sujeito, acrescentarei que, depois de longos trabalhos do mesmo gênero, em Buenos Aires, fugiu ele para o Chile, onde consta que é atualmente empregado em umas obras das estradas.
A moça contou a Vicente qual era a sua posição, e pediu-lhe por esmola o seu auxílio. Vicente tinha bom coração; achou que naquele estado não devia fazer à moça um discurso inútil sobre o seu ato; cumpria-lhe socorrê-la. Tirou, portanto, um conto de réis do pecúlio que tinha e deu a Clara os primeiros auxílios necessários; alugou-lhe casa e uma criada; preparou-lhe uma mobília e despediu-se.
Clara recebeu agradecida e envergonhada os auxílios de Vicente; mas ao mesmo tempo não via nos atos do rapaz mais do que um sentimento de interesse.
No fim de quinze dias, Vicente foi à casa de Clara e disse-lhe que, não podendo adiantar lhe tudo quanto ela precisasse e não devendo ela ficar exposta aos perigos da sua situação, era conveniente que procurasse trabalhar, e para isso escolhesse o que mais lhe conviesse.
Clara achou justas as observações de Vicente, e ficou assentado que a moça trabalharia de costureira em casa de alguma modista.
Daí a dias estava a moça empregada.
Entretanto, Vicente não voltou lá mais; de quando em quando recebia um recado de Clara, mas era sempre em assunto que lhe dispensava uma visita pessoal. O procedimento do moço não deixou de influir na rapariga, que já se arrependia do seu primeiro juízo.
Um dia adoeceu Vicente, e Clara apenas o soube, obteve licença da modista e foi tratar do enfermo com a dedicação e zelo de uma irmã. A doença de Vicente durou dez ou doze dias; durante esse tempo não se desmentiu a solicitude da moça.
— Obrigado, disse Vicente à rapariga, quando se levantou da cama.
— Por quê? Sou eu quem lhe deve.
— Já pagou de sobra.
— Oh! nunca! disse Clara. O senhor livrou-me a vida, é verdade; mas não fez só isto, livrou-me de entrar numa carreira fatal... e mais...
— E mais nada, disse Vicente.
A moça voltou o rosto e enxugou uma lágrima.
— Por que chora? perguntou Vicente.
Clara não respondeu, mas levantou os olhos para ele rasos d’alma quando não vinha doutra parte.
— Meu caro genro, disse o capitão sentenciosamente, guardado está o bocado para quem o há de comer. Vim à corte para que Delfina casasse com Vicente, e vou para a roça com o genro que não esperava nem conhecia. Digo isto porque eu volto para a roça e não posso separar-me de Delfina.
— Acompanhá-lo-ei, respondeu Correia.
O capitão achou conveniente participar a Vicente o casamento da filha, mas desde logo viu o que havia de delicado naquilo, não porque cuidasse ferir-lhe o coração, já livre de uma momentânea impressão, mas porque sempre lhe seria ferir o amor-próprio. Havia três dias que Vicente não aparecia.
— Ia escrever-te, disse o capitão.
— Por quê?
— Dar-te uma notícia de que te vais admirar.
— Qual?
— Delfina casa-se.
— A prima?
— Sim.
Houve um pequeno silêncio; a notícia abalou o rapaz, que ainda gostava da moça, apesar dos ciúmes por Clara.
O velho esperou alguma observação por parte de Vicente, e vendo que ela não aparecia, continuou:
— É verdade, casa-se daqui a dois meses.
— Com quem? perguntou Vicente.
— Com o Correia.
Quando Vicente perguntou pelo noivo de Delfina, já o desconfiara, por se lembrar de que uma noite reparara em certos olhares trocados entre os dois.
Mas a declaração do tio não deixou de o abalar profundamente; um pouco de amor e um pouco de despeito causaram essa impressão.
A conversa ficou neste ponto; Vicente saiu.
Compreende-se a situação do rapaz.
Quando saiu da casa do tio, mil idéias lhe tumultuavam na cabeça. Queria ir brigar com o rival, reclamar de Delfina a promessa tácita que lhe fizera, mil projetos, todos mais extravagantes uns que outros.
Na posição em que se achava, o silêncio era a melhor solução. Tudo mais era ridículo. Mas o despeito é um mau conselheiro.
Agitado por esses sentimentos, entrou Vicente em casa, onde não encontrava ao menos o amor de Clara.
A moça com efeito estava cada vez mais fria e indiferente ao amor de Vicente. Não se alegrava com as suas alegrias, nem se entristecia com as suas tristezas. Vicente passou uma noite de desespero.
Preparava-se, entretanto, o casamento.
Vicente achou que não devia voltar à casa do tio, nem procurar o feliz rival. Mas oito dias depois de saber oficialmente do casamento de Delfina, recebeu ele de Correia a seguinte carta:
Meu Vicente,
(continua...)
ASSIS, Machado de. Nem uma nem outra. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.