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#Comédias#Literatura Brasileira

O Judas em sábado de aleluia

Por Martins Pena (1844)

Maricota — Já lhe disse que escute. Ora diga-me: não lhe tenho eu dado todas as provas que lhe poderia dar para convencê-lo do meu amor? Não tenho respondido a todas suas cartas? Não estou à janela sempre que passa de manhã para a repartição, e às duas horas quando volta, apesar do sol? Quando tenho alguma flor ao peito, que ma pede, não lha dou? Que mais quer? São poucas essas provas de verdadeiro amor? Assim é que paga-me tantas finezas? Eu é que me deveria queixar...

Faustino — Tu?

Maricota — Eu, sim! Responda-me, por onde andou, que não passou por aqui ontem, e fez-me esperar toda tarde à janela? Que fez do cravo que lhe dei o mês passado? Por que não foi ao teatro quando eu lá estive com D. Mariana? Desculpese, se pode. Assim é que corresponde a tanto amor? Já não há paixões verdadeiras. Estou desenganada. (Finge que chora)

Faustino — Maricota...

Maricota — Fui bem desgraçada em dar meu coração a um ingrato!

Faustino (enternecido) — Maricota!

Maricota — Se eu pudesse arrancar do peito esta paixão...

Faustino — Maricota, eis-me a teus pés! (Ajoelha-se, e enquanto fala, Maricota rise, sem que ele veja) Necessito de toda a tua bondade para ser perdoado!

Maricota — Deixe-me.

Faustino — Queres que morra a teus pés? (Batem palmas na escada)

Maricota (assustada) — Quem será? (Faustino conserva-se de joelhos)

Capitão (na escada, dentro) — Dá licença?

Maricota (assustada) — É o Capitão Ambrósio! (Para Faustino:) Vá-se embora, váse embora! (Vai para dentro, correndo)

Faustino (levanta-se e vai atrás dela) — Então, o que é isso?... Deixou-me!... Foise!... E esta!... Que farei!... (Anda ao redor da sala como procurando aonde esconder-se) Não sei onde esconder-me... (Vai espiar à porta, e daí corre para a janela) Voltou, e está conversando à porta com um sujeito; mas decerto não deixa de entrar. Em boas estou metido, e daqui não... (Corre para o judas, despe-lhe a casaca e o colete, tira-lhe as botas e o chapéu e arranca-lhe os bigodes) O que me pilhar tem talento, porque mais tenho eu. (Veste o colete e casaca sabre a sua própria roupa, calça as batas, põe o chapéu armado e arranja os bigodes. Feito isto, esconde o corpo do judas em uma das gavetas da cômoda, onde também esconde o próprio chapéu, e toma o lugar do judas) Agora pode vir... (Batem) Ei-lo! (Batem) Aí vem!

CENA V

Capitão e Faustino, no lugar do judas.

Capitão (entrando) — Não há ninguém em casa? Ou estão todos surdos? Já bati palmas duas vezes, e nada de novo! (Tira a barretina e a põe sobre a mesa, e assenta-se na cadeira) Esperarei.(Olha ao redor de si, dá com os olhos no judas; supõe à primeira vista ser um homem, e levanta-se rapidamente) Quem é? (Reconhecendo que é um judas:) Ora, ora, ora! E não me enganei com o judas, pensando que era um homem? Oh, ah, está um figurão! E o mais é que está tão bem feito que parece vivo. (Assenta-se) Aonde está esta gente? Preciso falar com o cabo José Pimenta e... ver a filha. Não seria mau que ele estivesse em casa; desejo ter certas explicações com a Maricota. (Aqui aparece na porta da direita Maricota, que espreita, receosa. O Capitão a vê e levanta-se) Ah!

CENA VI

Maricota e os mesmos.

Maricota (entrando, sempre receosa e olhando para todos os lados) — Sr. Capitão!

Capitão (chegando-se para ela) — Desejei ver-te, e a fortuna ajudou-me. (Pegandolhe na mão) Mas que tens? Estás receosa! Teu pai?

Maricota (receosa) — Saiu.

Capitão — Que temes então?

Maricota (adianta-se e como que procura um objeto com os olhos pelos cantos da sala) — Eu? Nada. Estou procurando o gato...

Capitão (largando-lhe a mão) — O gato? E por causa do gato recebe-me com esta indiferença?

Maricota (à parte) — Saiu. (Para o Capitão) Ainda em cima zanga-se comigo! Por sua causa é que eu estou nestes sustos.

Capitão — Por minha causa?

Maricota — Sim.

Capitão — E é também por minha causa que procura o gato?

Maricota — É, sim!

Capitão — Essa agora é melhor! Explique-se...

Maricota (à parte) — Em que me fui eu meter! O que lhe hei-de dizer?

Capitão — Então?

Maricota — Lembra-se...

Capitão — De quê?

Maricota — Da... da... daquela carta que escreveu-me anteontem em que me aconselhava que fugisse da casa de meu pai para a sua?

Capitão — E o que tem?

Maricota — Guardei-a na gavetinha do meu espelho, e como a deixasse aberta, o gato, brincando, sacou-me a carta; porque ele tem esse costume...

Capitão — Oh, mas isso não é graça! Procuremos o gato. A carta estava assinada e pode comprometer-me. É a última vez que tal me acontece! (Puxa a espada e principia a procurar o gato)

(continua...)

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