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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Não gastou Otávio muito tempo em procurar objeto digno de suas atenções: em um camarote da primeira ordem, que lhe ficava um pouco para trás, viu ele um engraçado semblante que atirava seu tanto para o moreno (tipo com que, aqui para nós, simpatiza muito certo sujeito do nosso conhecimento), e que, além do mais, era animado por dois olhos vivos... belos... faiscantes... enfim, dois olhos brasileiros; porque, seja dito de passagem, tanto orgulho podem ter as espanholas de seu pequeno pezinho, e delgada cintura, como as brasileiras de seus lindos olhos pretos, que parecem haver passado para suas vistas todo o ardor da zona em que vivemos.

O tal camarote, onde estava a moça morena, era, sem pôr nem tirar, um viveiro de originais. Junto dela ostentava seu brilho, esplendor, e não sabemos que mais, uma senhora, que pelo que mostrava, e não pelo que diria, devia andar roçando pelos seus cinqüenta anos, e que, apesar de tal, endireitava-se na cadeira e tais ademanes fazia, como poucas meninas que querem casar, os fazem. Vestia um vestido de seda verde cruelmente decotado, tinha na cabeça uma touca de cassa da Índia, ornada com laços de fitas azuis etc.; segurava com a mão direita em um ramo de belos cravos, e conservava a esquerda esquecida sobre o elegante óculo, deposto no parapeito do camarote.

A segunda e última fila era formada por três marmanjos: começando pela esquerda, via-se um homem avelhentado, magro, alto, de rosto comprido, a cuja barba fazia sombra um enorme e afilado nariz, muito cuidadoso das senhoras, e tendo sempre derramada no semblante uma espécie de prazer, que a mais simples observação descobria ser fingido, era necessariamente o pobre pecador que, de antemão, curtia todos os seus pecados, passados, presentes e futuros, com a penitência de ser o chefe daquela família.

O que estava no meio era por força um daqueles homens que pertencem a todas as idades, que são conhecidos de todo o mundo, e aparecem em todos os lugares: tinha cara de hóspede daquele camarote.

O terceiro, enfim, era um rapaz de seus vinte e seis anos, amarelo, cabeludo, de enorme cabeça, e não fazia senão dar à taramela e comer doce.

Em menos de cinco minutos a atenção de Otávio foi sentida no camarote, e quase ao mesmo tempo pela menina morena, e pela senhora... idosa (velha é palavra que está formalmente reprovada, sempre que se trata de senhoras).

— Rosinha, disse aquela ao ouvido da primeira, não vês como aquele moço de gravata azul-celeste tem os olhos embebidos no nosso camarote?

— Não, minha mãe, respondeu a moça com fingimento, ainda não reparei.

— Pois atente, menina.

— Sim, parece que sim, minha mãe.

— Chamem-me velha, se aquilo não é com alguma de nós.

E a boa da senhora idosa levou até ao nariz o seu ramo de belos cravos, que fizeram um terrível contraste com o seu infeliz semblante.

— Oh, Sr. Brás, continuou ela falando com o segundo dos homens que foram descritos, conhece aquele moço que está ali de gravata azul-celeste?...

— Perfeitamente, é o senhor...

— Basta; dir-me-á depois; há um mistério na minha pergunta, que só mais tarde lhe poderei descortinar...

No entanto, a moça morena já tinha olhado seis vezes para o moço, três cheirando suas flores, e duas limpando a boca com seu lenço de cambraia.

Pela sua parte Otávio vingava-se do furor dos ultradiletantes, lembrando-se poucas vezes de que viera ouvir Ana Bolena.

O fim do primeiro ato veio suspender por momentos tudo isso; Otávio saiu do teatro para tomar algum refresco, e ainda mais para ter ocasião de mudar de vizinhos. Versado em todos os segredos da arte, mercê da qual os homens conhecem se têm ou não merecido particular atenção das senhoras, ele, entrando de novo para as cadeiras, tomou uma em direção contrária àquela que o primeiro ocupara. Um instante depois de levantar-se o pano, tirou logo resultado de seu estratagema; a senhora idosa e a moça morena davam tratos aos olhos para descobri-lo; depois de algum trabalho, deram por fim com ele; desgraçadamente, porém, o moço achava-se em piores circunstâncias do que no primeiro ato.

Com efeito, Otávio via-se então sitiado pela direita, pela esquerda, pela frente, e pela retaguarda: eram quatro diletantes de mão-cheia.

À direita, ficava-lhe um diletante sentimental, que no meio das melhores peças puxava-lhe pelo braço e exclamava: ouça! como é belo isto! aquela volata! esta tenuta! então de qual das duas mais gosta?... olhe, eu gosto de ambas... sou epiceno... quero dizer, comum-de-dois: — e enfim falava, falava e falava mais que três moças juntas, quando conversam sobre seus vestidos.

À esquerda, estava um diletante estrangeiro, que apontava ao infeliz Otávio os lugares onde mais brilhava a Grisi, aqueles em que primava a Pasta, e os pedaços harmônicos em que se fazia divina a Malibran, que ele tinha ouvido em Paris ainda em 1843.

Na frente, sentava-se um diletante perito, que era um eco de quanto se cantava; tinha a Ana Bolena de cor e salteada, e ia por entre os dentes estropiando em meia voz todas as peças que se executavam; de modo que, de redor dele, ouvia-se Ana Bolena dupla.

(continua...)

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