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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Aleixo Manoel sentia, gozava o contato das mãos ou de asas de anjo a traquinar suave e deliciosamente em sua cabeleira feliz, e após alguns minutos quase animado por aqueles afagos de mãos de cetim quase esquecido de que qüinquagenário bem pudera ter sido avô da mameluca, menina de dezessete para dezoito anos, sem mover a cabeça que conservava meio curva, e abandonada às travessuras dos dedos da bela mameluca, perguntou com voz comovida, e um pouco hesitante por aquele vexame, que é a consciência do desmerecimento, e que poderia chamar-se o pudor da velhice:

- Inês, se eu te desse a liberdade, tu me deixarias?...

A mameluca puxou pelo rabicho da cabeleira do senhor seu escravo, como subitamente impulsada pela impressão de idéia insólita e súbita:

- A liberdade?... que história é essa?... de que liberdade é que eu preciso?...

- Tu és minha escrava, Inês.

- Pois não sou!... disse a mameluca rindo e dando com os dedinhos leve piparote no nariz dovelho.

Aleixo Manoel riu-se também daquele sinal de reconhecimento da escrava, e logo depois tornou, dizendo:

- Falemos seriamente, é necessário.

Inês, curiosa, respondeu:

- Vamos!... seriamente...

- Dize a verdade: tens visto a rondar-nos a casa... certos fidalgotes vadios e insolentes...

- Tenho, tenho; às vezes, quando estou no jardim, vejo-os...

- E eles?... vêem o teu rosto... as formas de teu corpo?...

- É possível... provável... quase certo...

- Ah!... tu te mostras a eles, Inês?...

- Eu?... que aleive me levanta!... que pecados me quer pôr em cima do coração inocente!... estávirado em rabugento padre confessor...

- Mas então como é que os perversos te vêem o rosto, e...

- Ah!... é o vento...

- A que vem aqui o vento?...

- Vem como o único pecador; o vento às vezes levanta o véu que esconde o rosto, desarranja amantilha que esconde as formas do corpo.

- Inês, tu te confessas vaidosa; o vento é a tua vaidade.

A mameluca pechou pelos cabelos do senhor e disse-lhe:

- Que velho impertinente!... suponhamos que assim seja: então a gente há de ser bonita e vivere morrer sem amigo vento que levantando-lhe o véu e desarranjando-lhe a mantilha dê testemunho da sua boniteza?...

- Ah! portanto gostas de algum daqueles fidalgos libertinos, sedutores malvados...

- Não, não! eu gosto somente de que eles e todos me achem bonita.

- Inês!

- Tal e qual; não nego, nem dissimulo.

- E eu?... eu te acho bonita, Inês?

- Sim! sim! e muito! e a escrava beijou docemente a fronte de seu senhor.

Aleixo Manoel estremeceu todo, e disse:

- Inês! tu és filha de índia, e minha escrava: aqueles fidalgos desmoralizados, embora elegantesmancebos e fingidos namorados, só pensam em seduzir-te e lançar-te depois no desprezo da ignomínia...

- Também eu desconfio disso...

- Ah! pois bem: Inês, tu precisas de protetor legítimo...

- E não o tenho já?

- Falta-lhe condição essencial!

- Qual é?... eu ainda não senti a falta.

- Inês, queres passar e subir de minha escrava à minha legítima esposa?..,.

A dominante e leviana mameluca desatou a rir.

- De que te ris, doida?

- De três tolices na sua proposta: primeira, a escrava, que é senhora, passar a senhora escrava;- segunda, uma menina casar com um velho; - terceira, filha da segunda, por ser menina casada com velho usar dois véus em lugar de um e de duas mantilhas em vez de uma.

- E se a escrava que é senhora se tornasse ainda mais soberana, sendo esposa?...

- Não é muito seguro.

- E se o velho esposo fosse a proteção salvadora e o amor mais extremoso?...

- Isso eu creio.

- E se perfeitamente confiado na virtude da esposa o velho esposo só lhe impusesse véu emantilha quando ela saísse à rua?...

- Oh! duvido!...

Aleixo Manoel pôs-se em pé, voltou-se para a mameluca, e, vendo-lhe nos lábios zombeteiro riso, disse-lhe triste:

- Apesar do meu amor e da minha proteção, tu és filha da índia e escrava: pensa!

- E, tendo ajustado a cabeleira, saiu.

Inês foi passear no jardim.

Gil Eanes e logo depois Lopo de Melo, que eram os mais assíduos, passaram e tornaram a passar por junto da cerca do jardim, olharam e sorriram para Inês, que não os olhou nem lhes sorriu.

Gil Eanes, demorando os passos, disse-lhe:

- Linda tamoia, se queres ser minha catecúmena, eu te ensinarei a cultivar as flores em liçõesde amor: queres?...

Lopo de Melo passou pouco depois e disse-lhe:

- Bela selvagem, resolve-te a fugir comigo para as florestas que eu juro tornar-me selvagemtambém.

A mameluca fingiu não os ter ouvido, como fingira não tê-los visto. Era a primeira vez que eles lhe falavam.

Inês sentiu o desprezo da sua condição no modo por que lhe falaram os dois fidalgos que a namoravam.

E lembrou-se que Aleixo Manoel tinha acabado de dizer-lhe: - pensa.

E sem o pensar Inês pensou.

Nos seguintes dias quem mais cismava não era Aleixo Manoel, era Inês.

(continua...)

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