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#Contos#Literatura Brasileira

Felicidade pelo casamento

Por Machado de Assis (1866)

— É, murmurou o doutor; mas como sabe? 

— Fui indiscreto, e dou graças a Deus de tê-lo sido. Não, não sou capaz de supor-lhe uma alma tão baixa; conheço a elevação dos seus sentimentos... Demais, eu já tencionava ir-me agora. 

— Já? perguntou Bento. 

— É verdade. 

— Ora, não! 

— Mas os negócios? 

— Ah!

Notei que ficaram tristes. 

— Pois ficarei, disse eu; ficarei ainda alguns dias. Entretanto vamos hoje buscar a filha desterrada. 

Acabado o almoço mandou-se preparar o carro e fomos os três buscar a filha do doutor. Ângela recebeu com verdadeira satisfação a notícia de que ia para casa de seu pai. Quem, ouvindo esta notícia, ficou logo carrancudo e zangado, foi um rapaz que lá encontramos na sala, a conversar com a tia e a sobrinha. Era uma dessas fisionomias que não mentem nem enganam ninguém. Respirava frivolidade a duas léguas de distância. Adivinhava-se, pela extrema afabilidade do começo e completa seriedade do fim da visita, que aquele coração namorava o dote de Ângela. Falo assim, não por ódio, como se poderá supor pelo correr desta história, mas por simples indução. Fisionomias daquelas não pertencem a homens que saibam amar, na verdadeira extensão desta palavra. Se não era o dote, eram os gozos dos sentidos, ou então simples vaidade, não faltando uma destas razões, e é essa a explicação plausível daquilo que eu já chamava namoro. 

Os meus dois hóspedes conheciam o rapaz. Quando Ângela deu parte de pronta, despedimo-nos e o doutor ofereceu a casa ao namorado, mas com uma fria polidez. Partimos. 

Ângela, a quem fui apresentado como amigo da casa, era um daqueles espíritos afáveis para quem a intimidade seguia-se à primeira recepção. Era um tanto gárrula, e eu compreendia o encanto do pai e do tio, ouvindo-a falar com tanta graça, e todavia sem indiscrição nem fadiga. 

A mim, tratava-me ela como se fora um velho amigo, o que me obrigou a sair da minha taciturnidade habitual. 

Enquanto o carro voltava a Andaraí e eu ouvia as mil confidências de Ângela sobre os passatempos que tivera em casa de sua tia, estudava eu conversando ao mesmo tempo as relações entre este espírito e o rapaz de quem falei. Que curiosidade era a minha? Seria simples curiosidade de quem estuda caracteres ou já algum interesse do coração? Não posso dizê-lo com franqueza, mas presumo, talvez orgulho meu, que era a primeira e não a segunda coisa. 

Ora, o que eu concluía era que, na vivacidade e na meiguice de Ângela, é que se devia procurar a razão do amor do outro. Os homens medíocres caem facilmente neste engano de confundir com a paixão amorosa o que muitas vezes não passa de uma simples feição do espírito da mulher. E este equívoco dá-se sempre com os espíritos medíocres, porque são os mais presunçosos e os que andam na plena convicção de conhecerem todos os escaninhos do coração humano. Pouca que seja embora a prática que eu tenho do mundo, o pouco que tenho visto, e algo que tenho lido, o muito que tenho refletido, deu me lugar a poder tirar esta conclusão. 

Chegamos finalmente a Andaraí. 

Ângela mostrava uma alegria infantil tornando a ver o jardim, a casa, a alcova em que dormia, o gabinete em que lia ou trabalhava. 

Dois dias depois da chegada de Ângela a Andaraí apareceu lá o sr. Azevedinho, que é o nome do rapaz que eu vira em casa da irmã do doutor. 

Entrou saltitando e espanejando-se como passarinho que foge à gaiola. O doutor e o irmão receberam o visitante com afabilidade, mas sem entusiasmo, o que é fácil de entender, atendendo-se a que a vulgaridade do sr. Azevedinho era a menos convidativa deste mundo. 

Ângela recebeu-o com alegria infantil. Eu, que começara o meu estudo, não perdi ocasião de continuá-lo atentamente para ver se era eu quem me enganava. 

Não era. 

Azevedinho é que se enganava. 

Mas, e é esta a singularidade do caso; mas por que motivo, apesar da convicção em que eu estava, entrou-me no espírito certo desgosto, em presença da intimidade de Ângela e Azevedinho?

Se ambos saíam a passear no jardim, não me podia eu conter, convidava o doutor a igual passeio, e seguindo os passos dos dois, não arredava deles os olhos atentos e perscrutadores. 

Se se retiravam a uma janela para conversarem sobre coisas fúteis e indiferentes, lá os seguia eu e tomava parte na conversação, tendo sobretudo um prazer especial em chamar exclusivamente a atenção de Ângela. 

Por que tudo isto? 

Seria amor? 

Era. Não posso negá-lo. 

Dentro de mim, até então oculto, dava sinal de vida esse germe abençoado que o Criador depôs no coração da criatura. 

(continua...)

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