Por Machado de Assis (1876)
Não havia muito que reler neste bilhete, que naturalmente estava decorado pela formosa prima. Ela o releu, contudo, não uma, mas três vezes; depois guardou de novo, abriu a janela que dava para a praia e deixou-se ir ao sabor das suas reflexões. Naturalmente, eram reflexões de alma saudosa; mas eram ainda outra coisa, dúvida, receios, tal ou qual despeito de moça bonita e namorada, enfim ciúmes, ciúmes que ela sentia roerem-lhe o coração.
— Que razão terá ele para não vir? dizia ela. Pouco caso, ou talvez... O espirito não chegou a formular o pensamento todo; não era preciso; estava escrito no coração. Lulu agitou impaciente a ponta do pé; mordeu o lábio, fechou a janela. Sentou se, depois, para escrever um bilhete; escreveu-o e rasgou-o quase imediatamente. Enfim, deitou-se. O sono não veio logo; a sombra daquele esquivo Alexandre ocupava-lhe todo o pensamento. Durante uma hora, a moça rolou inutilmente na cama; chamou-se tola a si mesma, insensata, e boa demais. Ouviu dar meia-noite; enfim, dormiu. A aurora seguinte raiou límpida e bela. O padre Sá acordava cedo; fazia as suas orações; e lia depois até a hora do almoço, se porventura não tinha alguma missa. Nesse dia, teve missa; e às sete horas, saiu de casa sem ver a sobrinha, o que era raríssimo, porque a moça levantava-se igualmente cedo. A noite, porém, fora mal dormida; Lulu acordou tarde e doente. Quando saiu do quarto batiam oito horas.
A doença era uma enxaqueca moral, que se curou alopaticamente com a esperança de Alexandre. Às oito horas e meia, voltou o padre Sá, pelo braço de um rapaz de vinte anos, que era nem mais nem menos o Alexandre de que se trata.
— Cá está o mariola, disse o padre abençoando o sobrinho; foi ouvir a minha missa, evitando assim o castigo que mereceu com toda a certeza, e de que só o pôde livrar a sua piedade religiosa. Já não há sobrinhos; há uns peraltas que tratam os tios como se fossem indiferentes.
— Não diga isso! protestou Alexandre.
— Nem digo outra coisa, insistiu o padre. Dois dias! Verdade é que a companhia de um velho padre rabugento...
— Prima, faça calar titio, suplicou o moço com um leve sorriso que imediatamente se lhe apagou.
— A maneira mais segura de fazer-me calar é mandar pôr o almoço. — Está na mesa.
— Já!
— Ou quase. Dei as ordens necessárias apenas o vi de longe.
Lulu concentrou no coração toda a alegria que lhe causava a presença do primo; o rosto mostrava ressentimento e frieza. Alexandre não pareceu notá-lo. Aceitou o almoço que o tio lhe ofereceu, sentando-se ao lado deste e em frente da prima.
O rosto de Alexandre, sem embargo do seu ar juvenil, tinha certa austeridade, não comum em tão verdes anos. Os olhos eram modestos e repousados. Toda a figura estava em oposição com a viveza natural da mocidade. O tio amava-o justamente por lhe ver aquela gravidade precoce.
— Cada idade, dizia ele, tem o seu ar próprio; mas o mais perfeito moço é aquele que, às graças juvenis, reúne a seriedade e a reflexão da idade madura.
Durante alguns instantes, ficaram sós os dois primos. Houve um intervalo de silêncio, em que ambos pareciam acanhados. Alexandre foi o primeiro que falou: — Recebeu ontem o meu bilhete? disse ele.
— Recebi.
— Tenho andado muito ocupado estes dias.
Lulu abriu um sorriso de amorável escárnio, se estes dois termos podem estar juntos, mas em todo o caso aí ficam, para exprimir uma coisa melhor de entender que de dizer. Era escárnio, porque a moça achava ridícula a razão dada pelo primo; e era amorável, porque não vinha eivado de ódio ou desprezo, mas de certa ternura e misericórdia. Escárnio de namorada, que já perdoou tudo ou não tarda a perdoar.
Alexandre nada respondeu ao sorriso da moça; estavam à mesa; começou a contar os fios da toalha e a moça a brincar com um palito, toalha e palito que eram os compassos da situação. Mas o palito quebrou-se entre os dedinhos raivosos da moça, e a vista de Alexandre turvou-se de tanto olhar para o tecido. Afinal, foi Lulu quem rompeu o silêncio. — Continuam ainda os seus trabalhos? disse ela com ironia.
— Agora não.
— Ah!
— Agora estou mais livre.
— Tem casado então muita gente nestes últimos dias?
A pergunta da moça aludia ao emprego de Alexandre, que era na câmara eclesiástica. Ocupava o moço um lugar de escriturário naquela repartição, lugar que obteve por influência do tio.
Lulu não esperou resposta do primo; ergueu-se logo da mesa e Alexandre imitou-a. — Está mal comigo? perguntou ele com meiguice.
— Estou, respondeu a prima, com um modo tão benévolo e doce que desdizia da sequidão da resposta.
Efetivamente, a moça estava contentíssima. Desde que o vira, acreditou logo que só por motivo forte deixaria ele de vir ali. Antes de se separarem, as mãos tocaram-se, e os olhares do mesmo modo, e tudo acabou num sorriso, amoroso da parte de Lulu, acanhado e severo da parte de Alexandre.
O padre Sá esperava o sobrinho no gabinete.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.