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#Contos#Literatura Brasileira

Decadência de dois grandes homens

Por Machado de Assis (1873)

O gato não pareceu reparar nessa adulação póstuma do nobre Bruto, e foi colocar-se no sofá em ação de querer dormir. Pus os olhos no animal, e admirei o que eram os destinos humanos. César estava reduzido à condição de animal doméstico! Aquele gato, que estava ali diante de mim, tinha escrito os Comentários, subjugado os Gauleses, vencido Pompeu, destruído a República. Saciava-se agora com uma simples ceia, quando outrora queria dominar todo o universo. 

Jaime veio tirar-me das minhas cogitações. 

— Poderia eu ter alguma dúvida acerca da identidade deste animal, disse ele; mas tudo me prova que é ele o meu divino Júlio. 

— Como? 

— Apareceu-me aqui uma noite sem que a porta estivesse aberta e começou a olhar para mim. Quis pô-lo fora; impossível. Então lembrou-me a ameaça da sombra. — “, disse eu, chamando o gato; e imediatamente começou ele a fazer-me festas. Era fado ou ocasião: mais tarde ou mais cedo o meu túmulo é o ventre deste nobre animal. — Acho que não tem razão de crer... 

— Ah! meu caro doutor... é razão e mais que razão. Quer ver? Júlio César! O gato, apenas ouviu este nome, pulou do sofá e começou a dar saltos mortais por cima de um Niágara imaginário, a ponto de me obrigar a sair da cadeira e ir para o sofá. — Aquieta-te, Júlio! disse o velho. 

O gato sossegou; trepou para uma poltrona e ali arranjou como a seu gosto. Quanto a mim, sentindo no corpo um delicioso torpor, estendi-me no sofá e continuei a pasmar ouvindo a narração do meu Jaime-Bruto.Durou esta ainda uma boa meia hora; falou-me o homem das coisas da República, da timidez de Cícero, da versatilidade do povo, da magnanimidade de César, da política de Otávio. Elogiou muito a antiga esposa de quem conservava eternas saudades; e por fim calou-se. 

Nenhum rumor, o trovão não trouxera chuva; as patrulhas andavam por longe; nenhum caminhante feria as pedras da rua. Eram mais de dez horas. O meu anfitrião, sentado na cadeira de couro, olhava para mim, abrindo dois grandes olhos e eis que estes começam a crescer lentamente, e já ao fim de alguns minutos pareciam no tamanho e na cor as lanternas dos bondes de Botafogo. Depois, começaram a diminuir até ficarem muito abaixo do tamanho natural. A cara foi-se-lhe alongando e tomando proporções de focinho; caíram as barbas; achatou-se o nariz; diminuiu o corpo, assim como as mãos; as roupas desapareceram; as carnes tomaram uma cor escura; saiu-lhe uma extensa cauda, e eis o ilustre Bruto, a saltar sobre a mesa, com as formas e as visagens de um rato. Senti os cabelos eriçados; tremia-me o corpo; batia-me o coração. 

No mesmo instante, o gato saltou à mesa e avançou para ele. Fitaram-se alguns instantes, o que me trouxe à memória aqueles versos de Lucano, que o sr. Castilho José nos deu magistralmente assim: 

Nos altos, frente a frente, os dois caudilhos, 

Sôfregos de ir-se às mãos, já se acamparam. 

Após curto silêncio, o gato avançou para o rato; o rato pulou ao chão, e o gato atrás dele. Subiu o rato ao sofá, e o gato também. Onde Bruto se escondesse, lá se metia César, às vezes o primeiro encarava de frente o segundo, mas este não se assustava com isso, e avançava sempre. Gemidos e roncos ferozes eram a orquestra desta dança infernal. Exausto de uma luta impossível, o rato deixou-se cair arquejante, e o gato pôs-lhe a pata em cima. 

Que pena descreveria o olhar triunfante de César quando viu debaixo de si o miserando Bruto? Não conheço nada em poesia ou pintura — nem sequer na música chamada imitativa —, nada conheço que produza a impressão que me produziu aquele grupo e aquele olhar. De uma rivalidade secular, que lutou à luz do sol e da História, passava-se ali o último ato, dentro de uma sala obscura, tendo por espectador único um provinciano curioso. 

O gato tirou a pata de cima do rato; este deu alguns passos; o gato tomou a pegá-lo; repetiu a cena uma porção de vezes; e se isto era natural de um gato, não era digno de César. Acreditando que me ouvissem, exclamei: 

— Não o tortures mais! 

O gato olhou para mim e pareceu compreender-me; efetivamente atirou-se ao rato com uma ânsia de quem esperava há muito aquela ocasião. Vi — que horror! — vi o corpo do nobre Bruto passar todo ao estômago do divino César, vi isto, e não lhe pude valer, porque eu tinha a presunção de que as armas da terra nada podiam contra aquela lei do destino. 

O gato não sobreviveu à vingança. Apenas comeu o rato, caiu trêmulo, miou alguns minutos e faleceu. 

Nada mais restava daqueles dois homens de Plutarco. 

Contemplei o quadro algum tempo; e fiz tais reflexões acerca das evoluções históricas e das grandezas humanas, que bem podia escrever um livro que faria a admiração dos povos. 

De repente, duas luzes surgiram dos restos miserandos daquele par da Antigüidade; duas luzes azuis, que subiram lentamente até o teto; o teto abriu-se e eu vi distintamente o firmamento estrelado. As luzes subiram no espaço. 

(continua...)

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