Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Prosopopéia

Por Bento Teixeira (1601)

E vós, Ciclopes três, com fogo vivo,

Se os raios vibra Jove, irado e fero,

Eu na forja do monte lhos tempero.



LII

E com ser de tão alta Majestade,

Não me sabem guardar nenhum respeito?

E um povo tão pequeno em quantidade

Tantas batalhas vence a meu despeito?

E que seja agressor de tal maldade

O adúltero lascivo do meu leito?

Não sabe que meu ser ao seu precede,

E que prendê-lo posso noutra rede?



LIII

Mas seu intento não porá no fito,

Por mais que contra mim o Céu conjure,

Que tudo tem em fim termo finito,

E o tempo não há cousa que não cure.

Moverei de Netuno o grão distrito

Pera que meu partido mais segure,

E quero ver no fim desta jornada

Se vai a Marte escudo, lança, espada.



LIV

"Estas palavras tais, do cruel peito,

Soltará dos Ciclopes o tirano,

As quais procurará pôr em efeito,

Às cavernas descendo do Oceano.

E com mostras d’amor brando e aceito,

De ti, Netuno claro e soberano,

Alcançará seu fim: o novo jogo,

Entrar no Reino d’Água o Rei do fogo.



LV

Logo da Pátria Eólia virão ventos,

Todos como esquadrão mui bem formado,

Euro, Noto os Marítimos assentos

Terão com seu furor demasiado.

Fará natura vários movimentos,

O seu Caos repetindo já passado,

De sorte que os varões fortes e válidos

De medo mostrarão os rostos pálidos.



LVI

Se Jorge d’Albuquerque soberano,

Com peito juvenil, nunca domado,

Vencerá da Fortuna e Mar insano

A braveza e rigor inopinado,

Mil vezes o Argonauta desumano,

Da sede e cruel fome estimulado,

Urdirá aos consortes morte dura,

Pera dar-lhes no ventre sepultura.



LVII

E vendo o Capitão calificado

Empresa tão cruel e tão única,

Per meio mui secreto, acomodado,

Dela como convém se certifica.

E, dô a graça natural ornado,

Os peitos alterados edifica,

Vencendo, com Tuliana eloqüência,

Do modo que direi, tanta demência."



LVIII

— Companheiros leais, a quem no Coro

Das Musas tem a fama entronizado,

Não deveis ignorar, que não ignoro,

Os trabalhos que haveis no Mar passado.

Respondestes ‘te ‘gora com o foro,

Devido a nosso Luso celebrado,

Mostrando-vos mais firmes contra a sorte

Do que ela contra nós se mostra forte.



LIX

Vós de Cila e Caríbdis escapando,

De mil baixos e sirtes arenosas,

Vindes num lenho côncavo cortando

As inquietas ondas espumosas.

Da fome e da sede o rigor passando,

E outras faltas em fim dificultosas,

Convém-vos adquirir ô a força nova,

Que o fim as cousas examina e prova.



LX

Olhai o grande gozo e doce glória

Que tereis quando, postos em descanso,

Contardes esta larga e triste história,

Junto do pátrio lar, seguro e manso.

Que vai da batalha a ter vitória,

O que do Mar inchado a um remanso,

Isso então haverá de vosso estado

Aos males que tiverdes já passado.



LXI

Per perigos cruéis, per casos vários,

Hemos d’entrar no porto Lusitano,

E suposto que temos mil contrários

Que se parcializam com Vulcano,

De nossa parte os meios ordinários

Não faltem, que não falta o Soberano,

Poupai-vos pera a próspera fortuna,

E, adversa, não temais por importuna.



LXII

Os heróicos feitos dos antigos

Tende vivos e impressos na memória:

Ali vereis esforço nos perigos,

Ali ordem na paz, digna de glória.

Ali, com dura morte de inimigos,

Feita imortal a vida transitória,

Ali, no mor quilate de fineza,

Vereis aposentada a Fortaleza.



LXIII

Agora escurecer quereis o raio

Destes Barões tão claros e eminentes,

Tentando dar princípio e dar ensaio

A cousas temerárias e indecentes.

Imprimem neste Peito tal desmaio

Tão graves e terríveis acidentes

Que a dor crescida as forças me quebranta,

E se pega a voz débil à garganta.



LXIV

De que servem proezas e façanhas,

E tentar o rigor da sorte dura?

Que aproveita correr terras estranhas,

Pois faz um torpe fim a fama escura?

Que mais torpe que ver umas entranhas

Humanas dar a humanos sepultura,

Cousa que a natureza e lei impede,

E escassamente às Feras só concede.



LXV

Mas primeiro crerei que houve Gigantes

(continua...)

1234567
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →