Por Padre Antônio Vieira (1670)
100. Pediu São Paulo a Cristo que o isentasse de certa pensão que pagava por conta de uma pouca de terra que herdara de seus pais e nossos, cujo exator o apertava e molestava muito, e fazendo três vezes esta petição: Propter quod ter Dominum rogavi,5 nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira se serviu o Senhor de lhe deferir: sempre saiu escusado. Pois a Paulo, que se não era o primeiro valido, não era o segundo, porque dos dois primeiros ministros da casa e reino de Cristo ele era um, a Paulo, que só para o meter em seu serviço, desceu o mesmo Cristo segunda vez do céu à terra, e o levou em vida ao céu para lhe comunicar seus segredos, a este ministro, a este valido, a este que tanto privava como seu príncipe, nega o Senhor uma pretensão tão justa e tão fácil, e não uma só vez na petição, senão outra vez na nova instância, e terceira na réplica? Sim: para que nem os validos estranhem as negativas, nem os príncipes se encolham e desanimem, ou cuidem que os agravam e faltam à sua obrigação, em lhes negar o que pedirem. Não era Paulo ministro que servisse em palácio, à sombra de tetos dourados, sem molhar o pé no mar nem o meter na campanha, mas era um ministro que, em serviço e honra de seu príncipe, peregrinava e corria o mundo em roda-viva, desde levante até poente, sempre com o montante na mão, em perpétuas batalhas e conquistas, por mar e por terra, e suportando no mar tais tempestades e naufrágios, que talvez passou um dia e uma noite debaixo das ondas: Die ac nocte in profundo maris fui (2 Cor. 11,25). E com que rosto – para que o digamos assim – ou com que palavras se atreveu Cristo a negar a um tal ministro o que lhe pedia? O mesmo S. Paulo as referiu, e são digníssimas de quem as disse: Et dixit mihi: Sufficit tibi gratia mea (2 Cor. 12,9): Nega-te, Paulo, o que me pedes, porque te basta a minha graça. – Aos validos, e que logram a graça do príncipe, basta-lhes a mercê da mesma graça, e todas as outras se lhes podem negar confiadamente. Confiadamente digo, e pudera dizer que com ressaibos de desconfiança, porque o ministro que se não contenta com a graça, e além da graça quer outra mercê, não só é indigno da mercê, senão também da graça. Mas há muitos que não conhecem o preço dela, e por isso, com injúria da mesma graça e do príncipe, fazem da graça degrau para outros interesses, que é o mesmo que pisá-la.
101. Mas ouçamos o que diz S. Paulo da sua graça, que pode ser tenha alguma escusa: Gratia Dei sum id quod som (2 Cor 14,10): Todo o ser que tenho o devo à graça de meu Senhor. – Assim o devem dizer e confessar ainda os que, por merecimentos seus, e não por nossos pecados, estiverem na graça, porque o contrário seria muita soberba, e maior ingratidão. Por diante: Et gratia ejus, continua Paulo, in me vacua non fuit: e a sua graça não foi em mim vazia. Aqui parece que entra a escusa. Logo, se a graça não há de ser vazia, há-se de encher? Por isso vemos os cheios da graça tão cheios: para se encher se aproveitam da graça. Mas Paulo não diz que se encheu a si com a graça, senão que a graça se encheu nele: Gratia ejus in me vacua non fuit. E como se encheu nele a graça? Muito havia mister para se encher, porque o vaso era muito grande: Vas electionis est mihi iste,6 e assim o fez o famoso Paulo. Gratia ejus in me vacua non fuit, sed abundantius omnibus laboravi.7 O modo com que a graça se encheu em mim, foi trabalhando e servindo não só muito, senão mais que todos. Porque essa é a diferença que hão de fazer aos demais os que estão na graça. Não se hão de encher com a graça, nem hão de encher a graça com mercês, senão com novos e maiores serviços. E segundo esta obrigação, bem lhes pode o príncipe negar o que pedirem, e eles prezarem-se muito dessas negações.
102. Os filósofos distinguem dois gêneros de negações: umas que se chamam puras negações, e outras a que deram nome de privações. A pura negação nega o ato, e mais a aptidão; a privação supõe a aptidão, e nega o ato. O silêncio é negação de falar, mas com grande diferença no homem e na estátua, porque a estátua não fala, nem é apta para falar, senão inepta: porém no homem é negação e privação, porque, ainda que o homem não fale, é apto e capaz de falar. Daqui se segue que, assim como o silêncio na estátua é incapacidade, e no homem virtude, assim o que se nega ao indigno é pura negação, a qual o afronta, e o que se nega ao digno é privação que o honra e acredita, e tanto mais quanto for mais digno. Tais são as negações que os príncipes fizeram e devem fazer aos seus validos. São privações com que não só se acredita a si, senão também a eles, porque o maior crédito do valido é que a sua privança seja privação. Por isso os validos, com mais nobre e heróica etimologia, se chamam privados. E quando eles folgarem de o ser, ou o príncipe fizer que o sejam, ainda que não folguem, as privações dos privados farão mais toleráveis as negações dos que o não são. E desenganados os demais com este exemplo, nem eles se atreverão a pedir o que se lhes deve negar, nem o príncipe será forçado a negar o que lhe pedirem, ficando livre por este meio de muitas e molestas ocasiões em que, contra o decoro e agrado da majestade, seja obrigado a dizer não.
§IV
Segundo meio de atalhar o não. a justiça e inteireza do príncipe em seus despachos. A inteireza de Catão. Resposta de el-rei Acab a Isaías. Salomão e o castigo de Adonias. Razão da negativa de Cristo. O dar por justiça e o dar por graça. Não cuidem os príncipes que podem tudo porque podem tudo.
103.O segundo meio ou indústria de prevenir e atalhar o não e as ocasiões de o dizer é que o príncipe em todos seus despachos e resoluções seja inteiro, justo e reto, e conhecido por tal. Desta justiça e inteireza – que por outra parte é a sua primeira obrigação – se seguirão dois efeitos notáveis. O primeiro, que ninguém se atreverá a pedir senão o que for justo; o segundo que, pedindo todos somente o justo, a todos concederá o príncipe o que pedirem, e nunca dirá não.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.