Por Padre Antônio Vieira (1655)
66. Mas se todo este mundo, e tudo o que nele mais avulta, é vão, antes a mesma vaidade; como é possível que tenha tanto valor e tanto peso com os homens, que pese para com eles mais que o céu, mais que a alma e mais que o mesmo Deus? Tão falsas são as balanças do juízo humano! Não são elas as falsas, somos nós: Mendaces filii hominum in stateris, ut decipiant de vanitate in idipsum.12 São tais os homens – diz Davi – que com a balança na mão trocam o peso às coisas. – Não diz que as balanças são falsas, senão que os homens são falsos nelas: Mendaces filii hominum in stateris. E a razão desta falsidade, ou desta falsificação, é porque os mesmos homens se querem enganar a si mesmos com a vaidade: Ut decipiant de vanitate in idipsum. Não é o nosso juízo o que nos engana, é o nosso afeto, o qual, pendendo e emclinando para a parte da vaidade, leva após si o fiel do juízo. Nestas balanças – que são como as de S. Miguel, em que se pesam as almas – de uma parte está a alma, da outra o mundo; de uma parte está o temporal, da outra o eterno; de uma parte está a verdade, da outra a vaidade. E porque nós pomos o nosso afeto e o nosso coração da parte do mundo e da vaidade, esse afeto e esse coração é o que dá à vaidade do mundo o peso que ela não tem, nem pode ter. A vaidade não amada não tem peso, porque é vaidade; mas essa mesma vaidade, amada, pesa mais que tudo, porque o nosso amor e o nosso afeto é o que falsamente lhe dá peso. De maneira que o peso não está nas coisas, está no coração com que as amamos.
67.0 mesmo Davi o disse admiravelmente: Filii hominum, usquequo gravi corde? Ut quid diligitis vanitatem (SI. 4, 3)? Filhos dos homens, até quando haveis de ter os corações pesados? Até quando haveis de amar a vaidade? – Notai a conseqüência. Queixase de amarem os homens a vaidade: Ut quid diligitis vanitatem? E acusa-os de terem os corações pesados: Usquequo gravi corde? Porque o peso que achamos na vaidade não está na mesma vaidade, senão no coração com que a amamos. Amamos e estimamos a vaidade, e por isso a balança inclina a ela e com ela, enos mostra falsamente o peso onde o não há. Oh! se pesássemos bem e fielmente, com o coração livre de todo o afeto, como veríamos logo que a inclinação e movimento da balança pendia todo para a parte da alma, e que todo o mundo, contrapesado a ela, não pesa um átomo.
68. Agora entendereis a astúcia da tentação do demônio, no modo com que hoje mostrou a Cristo todos os reinos do mundo. Diz S. Lucas que lhos mostrou em um instante: Ostendit e iomnia regna orbis terrae in momento (Lc. 4,5). E por que razão em um instante? Porque não deu mais espaço de tempo a quem tentava com uma tão grande ostentação? Seria porventura porque ainda o demônio, quando engana, não pode encobrir a brevidade momentânea com que passa e se muda esta cena das coisas do mundo, aparecendo e desaparecendo todas em um instante? Assim o diz S. Ambrósio: Non tam conspectus celeritas indicatur, quam caduca fragilitas potestatis exprimitur: in momento enim, cuncta illa praetereunt: Mostrou o demônio todos os reinos e grandezas do mundo em um instante, porque as mostrou assim como elas são, e tudo o que há neste mundo não tem mais ser que um instante. O que foi, já não é; o que há de ser, ainda não é; e o que é, não é mais que no instante em que passa: In momento cuncta illa praetereunt. Boa razão, e verdadeira, como de tal autor. Mas ainda debaixo dela se encobria outra astúcia do tentador, o qual não quis dar tempo ao tentado para pesar o que lhe oferecia. O peso das coisas vê-se pela inclinação e movimento da balança. E como em instante não pode haver movimento, por isso lhe mostrou tudo em um instante. Veja o tentado o mundo que lhe ofereço, mas veja o em instante somente, e não em tempo, para que não possa averiguar o pouco que pesa: In momento omnia regna mundi.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.