Por Gregório de Matos (1696)
1
Letrado, que cachimbais,
quando estudais nos Jasões
e assentais as conclusões
com as letras garrafais:
grande riso me causais,
quando no vosso cetial
dais audiência geral,
e as Partes aconselhando,
todas ides defumando
porque tornem ao pombal.
2
Vós graduado a borrões
em uma universidade
que fundou nesta cidade
o braço dos asneirões:
fazeis tais alegações
nas lides, causas, e pleitos,
que vos dão alguns sujeitos,
que afirmarn letrados velhos
fedem os vossos conselhos
tanto, como vossos feitos.
3
O que me vira o miolo
é o gabão, que trazeis,
que um Bártolo pareceis,
não sendo senão Bartolo:
comeis a queijada, e o bolo
desde a Baia ao Cairu;
eu vos peço, meu Mandu,
que se usais das vossas artes,
comendo das vossas partes,
que a primeira seja o cu.
4
Não vos culpo, asno barbado,
senão a esta simples gente,
que de um tão mau requerente
quer formar um bom letrado:
vós pondes todo o cuidado
em manter a vida cara,
e assim eu vos não culpara,
senão ao néscio, que quer
comprar-vos o parecer,
tendo vós tão torpe cara.
5
Irmão, não vos acelere
querer subir de repente,
que o cargo de requerente
vosso talento o requere:
assim o céu vos prospere,
que da vocacia honrada
torneis à vida passada,
que quem se entrega aos Jasões
comer pode os camarões
que comeu o Cutilada.
6
Não é o advogar de nós,
Santos são, os advogados,
dai ao demo os maus letrados,
e o primeiro sejais vós:
bem vistes o caso atroz,
que depois de Ave-Marias
sucedeu, há quatro dias,
ardendo os vossos papéis,
porque vós, e eles ardeis
pelas vossas heresias.
AO TABELIÃO MANUEL MARQUES TENDO SIDO ESPADEYRO HAVIA POUCO.
Há cousa, como ver o Sô Mandu
Mui prezado de ser Tabelião
Na Ilha descendente de um vilão,
E cá feito um Monarca do Pegu.
Aspecto reverendo, feio, e cru
Trombeteiro de sua geração,
E encaixando o barrete, e seu roupão
Representa um fatal Jacó Baru.
Que ignore este enfim seu nascimento,
Como o faz no Brasil qualquer Brichote,
Vade em paz, porque imita mais de cento:
Mas que sendo inda há pouco espadeirote,
Queira ser como Bruto grão talento;
Será: que manhas tem de Dom Quixote.
A OUTRO REQUERENTE DA MESMA CIÊNCIA E DA MESMA PRESUNÇÃO, MAS INFAMADO DE CHRISTÃO NOVO E DE MULATO CHAMADO PEDRO DE TAL.
1
Ó Galileu Requerente,
Macabeu solicitante,
quem vos deu tamanho guante,
tendo-vos de gozo o dente?
Se me dais cá por agente,
sois homens de tantas partes,
que me ganhais estandartes:
eu zombo de vossos pleitos,
porque são vossos direitos
de Pedro de malas artes.
2
Latis, e cuidais, que eu morro
de ouvir o vosso latir,
e eu zombo de vê-lo ouvir,
porque quem late, é cachorro:
vós latis, e eu me desforro
dando-vos estas pedradas,
que quando um cão nas estradas
late ao manso caminheiro,
assentando-lhe o cacheiro
deixa as partes sossegadas.
3
Guardais-vos Israelita,
que se me chega a mostarda,
talvez, que a casa vos arda,
porque é casa de mesquita:
se à força da jeribita
tendes a idéia turbada,
com que vos não dais de nada,
vede, que a minha Camena
como vos corta co'a pena
vos pode cortar co'a espada.
4
Dizem, que um Hebreu vos fez
entre o Porto, e entre Judá,
por isso não falais cá
nem hebreu, nem português:
temo, que caiais de vez
neste, ou noutro qualquer porto,
porque culpado no Horto,
e do Egito no desterro,
não me podeis pegar, Perro,
como eu a vós, Perro morto.
5
Quem vos meteu, canzarrão,
co demo, que vos atiça,
a ser membro da justiça,
se não sois membro cristão?
corre de vós opinião,
que bem pouco vos aflige,
que o mais a que se dirige
o vosso negro saber,
é somente o requerer
crucifige, crucifige.
6
Dirigi pois os sapatos
caminho da terra Santa,
onde heis de fincar a planta
no Pretório de Pilatos:
Lá tão sacrílegos tratos,
como em pretório fiel
fareis, Escriba cruel,
porque vejais entre os cães,
que há na Bahia escrivães,
e Escribas em Israel.
A OUTRO REQUERENTE APELLIDADO O PERALVILHO, QUE COSTUMAVA VENDER AS CAUSAS, E FURTOU AO POETA UM CAVALLO SELLADO.
1
Peralvilho: o Peralvilho
pudera de vos tomar
lições de peralvilhar,
para ser reperalvilho:
vós sereis muito bom filho,
como eu entendo em rigor,
mas sois mau procurador,
porque aqui para entre nós,
em procurar para vós
sois contra procurador.
2
Procurastes ao traidor,
e eu fiquei desenganado,
que fostes já procurado
para mau procurador;
lá entregou ao Senhor
um Judas Escariote,
vós, Peralvilho Quixote,
entregastes como acinte
ao vosso constituinte
como a simples sacerdote.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Letrados. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.