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#Sermões#Retórica

Sermão de Santo Inácio

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Mal pudera eu provar de uma vez tão grande discurso, se o céu, cujo é o assunto, não tomara por sua conta a prova. Vede se o provou evidente, elegante, e engenhosamente. Enfermo Inácio, e já nos últimos dias da vida, veio a visitá-lo seu grande devoto, o eminentíssimo cardeal Pacheco, e trouxe consigo um pintor insigne, o qual, de parte donde visse o santo e não fosse visto dele, o furto de sua humildade, o retratasse. Põe-se encoberto o pintor; olha para Santo Inácio, forma idéia, aplica os pincéis ao quadro e começa a delinear-lhe as feições do rosto. Toma a olhar (coisa maravilhosa!) o que agora viu, já não era o mesmo homem, já não era o mesmo rosto, já não era a mesma figura, senão outra muito diferente da primeira. Admirado o pintor deixa o desenho que tinha começado, lança segundas linhas, começa segundo retrato e segundo rosto; olha terceira vez (nova maravilha!) o segundo original já tinha desaparecido, e Santo Inácio estava outra vez transtornado com novo aspecto, com novas feições, com nova cor, com nova proporção, com nova figura. Já o pintor se pudera desenganar e cansar, mas a mesma maravilha o instigava a insistir. Insista repetidamente, olha e torna a olhar, desenha e torna a desenhar, mas sendo o objeto o mesmo, nunca pode tornar a ver o mesmo que tinha visto, porque quantas vezes aplicava e divertia os olhos, tantos eram os rostos diversos e tantas as figuras novas em que o santo se lhe representava. Pasmou o pintor, e desistiu do retrato; pasmaram todos vendo a variedade dos desenhos que tinha começado, e eu também quero pasmar um pouco à vista deste prodígio.

Santo Inácio, nunca teve dois rostos, quanto mais tantos. Foi cortesão, foi soldado, foi religioso; e nunca mudou de cores nem de semblante. Serviu em palácio a el-rei D. Fernando, o Católico, e a sua maior gala era trajar sempre da mesma cor, e trazer o coração no rosto. Os amigos viam-lhe no rosto o amor, os inimigos a desafeição, o príncipe a verdade, e ninguém lisonja. Quando soldado, nunca entre as balas mudou as cores; na comédia e na batalha estava com o mesmo desenfado. Teve uma pendência com certo poderoso, e diz a história que contra uma rua de espadas, sem fazer um pé atrás, se sustentou só com a sua; o braço mudava os talhos e os reveses, mas o rosto não mudou as cores. Depois de religioso ficou fora da jurisdição da fortuna, mas nem por isso fora das variedades do mundo. Era porém tão igual a constância e serenidade de seu ânimo, que ninguém lhe divisou jamais perturbação, nem mudança no semblante; o mesmo nos sucessos prósperos, o mesmo nos adversos: nos prósperos sem sinal de alegria, nos adversos sem sombra de tristeza. Pois se Inácio teve sempre o mesmo rosto, cortesão, soldado, religioso, se teve sempre e conservou o mesmo semblante, como agora se transfigura em tantas formas? Como se transforma em tantas figuras, quando querem copiar o seu retrato? Por isso mesmo. Era Inácio um, mas semelhante a muitos, e quem era semelhante a muitos, só se podia retratar em muitas figuras.

Antes de Cristo vir e aparecer no mundo, mandou diante o seu retrato, para que o conhecessem e amassem os homens. E qual foi o retrato de Cristo? Admirável caso ao nosso intento! O retrato de Cristo, como ensinam todos os Padres, foi um retrato composto de muitas figuras. Uma figura de Cristo foi Abel, outra figura de Cristo foi Noé. Uma figura foi Abraão, outra figura foi Isaac; uma figura José, outra figura Moisés; outra Sansão, outra Jó, outra Samuel, outra Davi, outra Salomão, e outros. Pois se o retratado era um só, e o retrato também um, como se retratou em tantas e tão diversas figuras? Porque as perfeições de Cristo, ainda em grau muito inferior, não se achavam nem se podiam achar juntas em um só homem; e como estavam divididas por muitos homens, por isso se retratou em muitas figuras. Era Cristo a mesma inocência: por isso se retratou em Abel. Era Cristo a mesma pureza: por isso se retratou em José. Era a mesma mansidão: por isso se retratou em Moisés. Era a mesma fortaleza: por isso se retratou em Sansão. Era a mesma caridade, a mesma obediência, a mesma paciência, a mesma constância, a mesma justiça, a mesma piedade, a mesma sabedoria: por isso se retratou em Abraão, em Isaac, em Noé, em Jó, em Samuel, em Davi, em Salomão. De sorte que sendo o retrato um só, estava dividido em muitas figuras, porque só em muitas figuras podiam caber as perfeições do retrato. Tal o retrato de Santo Inácio, como feito à semelhança de muitos: Et vos similes hominibus. Mas não me detenho na acomodação, porque estou vendo que aconteceu a Ezequiel com o retrato de Santo Inácio, o mesmo que ao pintor de Roma.

(continua...)

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