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#Sermões#Retórica

Sermão do Nascimento da Virgem Maria

Por Padre Antônio Vieira (1657)

Estas são as propriedades rigorosas e benignas do sol e da luz natural. E as mesmas, se bem o considerarmos, acharemos no Sol e na Luz divina. Cristo é sol, mas sol de justiça, como lhe chamau o profeta: Sol justitiae (Mal. 4,2). E que muito que no sol haja raios e na justiça rigores? Todos os rigores que tem obrado no mundo o sol natural, tantas secas, tantas esterilidades, tantas sedes, tantas fomes, tantas doenças, tantas pestes, tantas mortandades, tudo foram execuções do sol de justiça, o qual as fez ainda maiores. O sol material nunca queimau cidades, e o sol de justiça queimau e abrasou em um dia as cinco cidades de Pentápolis inteiras, sem deixar homem à vida, nem dos mesmos edifícios e pedras mais que as cinzas. Tais são os rigores daquele sol divino. Mas a benignidade da luz que hoje nasce, e de que ele nasceu, como a poderei eu explicar? Muitas e grandes coisas pudera dizer desta soberana benignidade, mas direi só uma que vale por todas. É tão benigna aquela divina luz, que sendo tão rigorosos e tão terríveis os raios do divino sol, ela só basta para os abrandar e fazer também benignos.

Por que vos parece que nasce a Virgem Maria em tal dia como hoje? Se o dia do nascimento de Cristo foi misterioso, e misterioso o dia do nascimento do Batista, por ser o precursor de Cristo, quanto mais o dia da Mãe de Cristo? Pois que mistério tem nascer a Senhora neste dia? Muito grande mistério. O mistério do dia do nascimento de Cristo, como notou Santo Agostinho, foi porque naquele tempo volta o sol para nós, e começam os dias a crescer. O mistério do dia do nascimento do Batista foi porque naquele tempo se aparta o sol de nós, e começam os dias a diminuir. E o mistério do dia do nascimento da Senhora é porque neste tempo passa o sol do signo do Leão para o signo da Virgem, e começa o mesmo sol a abrandar. O caminho do sol é pelos doze signos celestes, em que tem diferentes efeitos, conforme a constelação e qualidades de cada um. Quando o sol anda no signo de Leão, como se tomara a natureza daquele animal colérico e assanhado, tais são os seus efeitos: calores, securas, enfermidades malignas, tresvarios, sangue, mortes. Porém tanto que o sol passa do signo do Leão ao signo de Virgem, já o Leão começa a abrandar, já vai manso, já vai pacífico, já vai cordeiro. O mesmo sucedeu aos rigores do nosso sol. Lede o Testamento Velho, e achareis que Deus antigamente afogava exércitos, queimava cidades, alagava mundos, despovoava paraísos. E hoje, sendo os pecados dignos de maior castigo pela circunstância do tempo, da fé e dos benefícios, não se vêem em Deus semelhantes rigores. Pois por que, se Deus é O mesmo, e a sua justiça a mesma? Porque então estava o sol no signo do Leão; agora está no signo de Virgem. Como o sol entrou no signo de Virgem, logo aquela benigna luz lhe amansou os rigores, lhe embargou as execuções, e lhe temperou de tal maneira os raios, que ao mesmo fogo abrasador de que eram compostos, lhe tirou as atividades com que queimava e só lhe deixou os resplendores com que luzia. Grande caso, mas provado!

Vê Moisés no deserto uma sarça que ardia em fogo, e não se queimava (Êx. 3, 3). Pasma da visão, parte a vê-la de mais perto, e quanto mais caminha e vê, tanto mais pasma. – Ser fogo, o que estou vendo, não há dúvida; aquela luz intensa, aquelas chamas vivas, aquelas labaredas ardentes, de fogo são; mas a sarça não se consome, a sarça está inteira, a sarça está verde. Que maravilha é esta? Grande maravilha para quem não conhecia o fogo nem a sarça, mas para quem sabe que o fogo era Deus, e a sarça Maria, ainda era maravilha maior, ou não era maravilha. O fogo era Deus que vinha libertar o povo. Assim diz o texto. A sarça era Maria, em quem Deus tomau forma visível, quando veio libertar o gênero humano. Assim o diz S. Jerônimo, Santo Atanásio, S. Basílio, e a mesma Igreja11. Como o fogo estava na sarça, como Deus estava em Maria, já o seu fogo não tinha atividades para queimar. Luzir sim, resplender sim, que são efeitos de luz; mas queimar, abrasar, consumir, que são efeitos de fogo, isso não, que já lhos tirou Maria. Já Maria despontou os raios do sol; por isso luzem, e não ferem, ardem e não queimam, resplandecem e não abrasam. Parece-vos maravilha que assim abrandasse aquela benigna luz os rigores do sol? Parece-vos grande maravilha que assim lhe apagasse o fogoso e abrasado, e lhe deixasse só o respíandescente e luminoso? Pois ainda fez mais.



(continua...)

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