Por Machado de Assis (1876)
— Não sabe. A morte é um verme, de duas espécies, conforme se introduz no corpo ou na alma. Mata em ambos os casos. Em mim não penetrou no corpo; o corpo geme porque a doença reflete nele; mas o verme está na alma. Nela é que eu o sinto a roer todos os dias.
— Pois matemos o verme, disse eu, apresentando-lhe uma colher do remédio.
Damasceno olhou para o remédio e para mim, e sorriu, com uma expressão de tranqüilo ceticismo.
— Pobre moço! disse ele, depois de alguns instantes de silêncio.
— Vamos!
— Logo mais, amanhã, ou depois que eu morrer. Talvez ainda possa fazer algum benefício ao meu cadáver. A alma não bebe água.
Insisti, mas foi baldado. Damasceno resistiu intrepidamente. Quando as minhas instâncias lhe pareceram excessivas começou a irritar-se, e eu, receoso de algum novo delírio, proveniente da exacerbação, cedi; fui ter com o criado que me referiu haver Damasceno tomado apenas uma colher do remédio e um caldo. Voltei ao quarto, achei-o tranqüilo.
A luz do quarto era pouca, e esta circunstância, ligada ao espetáculo da doença e às feições do pobre velho alienado, não menos que às recordações que já me prendiam a ele, tornara a situação por extremo penosa. Sentei-me ao pé da cama e tomei-lhe o pulso; batia apressado; a testa estava quente. Ele deixou que eu fizesse todos esses exames sem dizer nada. Tinha os olhos no teto e parecia alheio de todo à minha pessoa e à situação. Pouco depois chegou o médico, soube da resistência do enfermo em continuar a tomar o remédio, examinou-o, fez um gesto de desânimo, e ao sair disse-me que o homem estava perdido.
A perspectiva não era para mim agradável. Não podia razoavelmente desampará-lo e tinha talvez de assistir à sua morte naquela noite. Chamei o criado e escrevi um bilhete a dois colegas de S. Paulo, residentes na Corte, pedindo-lhes que viessem passar a noite comigo. O criado saiu e eu sentei-me outra vez ao pé da cama.
No fim de alguns minutos, vi que Damasceno se agitava. Perguntei-lhe o que tinha.
— Nada, respondeu ele, mudo de posição. Que horas são?
— Nove e um quarto.
— E o senhor pretende passar a noite comigo?
— Naturalmente.
O rosto do enfermo iluminou-se.
— Boa alma! exclamou ele.
Depois procurou a minha mão e teve-a presa entre as suas algum tempo, olhando para mim com uma expressão de agradecimento, que lhe parecia tornar bela a fisionomia seca e dura.
— Que lhe fiz eu para merecer tanta dedicação? perguntou ele ao cabo de alguns minutos de silêncio.
— Não falemos disso.
Damasceno calou-se.
— Que idade tem?
— Vinte e dois anos.
— Feliz! feliz!
Calou-se outra vez e pareceu concentrar-se de novo. Pensei que iria dormir, mas ele voltou-se para mim dizendo:
— Quero pagar-lhe os seus benefícios.
— Pagará depois.
— Não; há de ser já.
Ergueu o corpo, apoiando o cotovelo na cama, pegou-me na mão e cravou em mim os olhos, acesos de uma luz repentina e única.
— Mancebo, disse ele, com a voz cava; não olhe nunca para a mulher do seu próximo.
— Sossegue, disse eu.
— Sobretudo não a obrigue a que ela olhe para o senhor. Comprará por esse preço a paz de sua vida toda.
A gravidade com que ele proferiu estas palavras excluía toda a idéia de loucura. A própria fisionomia parecia revelar o regresso da consciência. Olhei para ele algum tempo sem responder, nem ousar pedir-lhe explicação. Damasceno fitou o ar com expressão melancólica, abanou a cabeça três vezes e suspirou. Depois a cabeça caiu sobre o ombro, e ele ficou algum tempo quieto. Ouvindo o sino das dez horas, abriu os olhos e voltou-se para mim.
— Por quê se não vai deitar?
— Não tenho sono.
— Perder uma noite por causa de um desconhecido!
— Não se preocupe comigo; descanse, que é melhor.
Damasceno meteu a mão debaixo do travesseiro, como procurando alguma coisa. Era uma chave. Deu-ma.
— Abra-me a gavetinha da cômoda, a do lado da rua.
— E depois?
— Tire de lá uma caixinha.
A caixinha era de couro e teria um palmo de comprimento. Quando lha levei, ele pô-la sobre a cama e olhou mudo para ela. Depois, tocou em uma pequena mola; a caixa abriu-se, e ele tirou de dentro um pequeno maço de papéis.
— Se eu morrer, disse ele, queime isto.
— Feche tudo, é melhor.
— Não é preciso. O que aí está é um segredo, mas eu não quero morrer sem lho revelar. Não lhe disse há pouco que não consentisse nunca em olhar ou ser olhado pela mulher de seu próximo? Pois bem; saberá o resto.
A curiosidade pendurou-se-me dos olhos e, apesar da pouca luz da alcova, é possível que ele reparasse nisto, porque vi-o sorrir com uma expressão maliciosa e discreta.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Sem olhos. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1876.