Por Machado de Assis (1876)
— Creio que era o Alvarenga... Era, era o Alvarenga. Mostrei-lha, gostou muito... e pediu-ma.
— E o senhor?
— Eu não precisava daquilo e dei-lha.
Gustavo teve vontade de engolir o dono da casa de pasto. Como porém nada adiantasse com esse ato de selvageria preferiu fazer indagações relativas ao Alvarenga, e soube que morava na Rua do Sacramento.
— Ele guarda aquilo por curiosidade, observou João Gomes; se V. S.ª lhe contar o que há, estou certo de que lhe entrega a fita.
— Sim.
— Estou certo disso... Até se quiser eu mesmo lhe falo; ele há de cá vir almoçar e talvez a coisa se arranje hoje mesmo.
— Tanto melhor! exclamou Gustavo. Pois, meu amigo, veja se me consegue isso, e far-me-á um grande favor. O João aqui fica para me levar a resposta.
— Não tem dúvida.
Gustavo foi dali almoçar no Hotel dos Príncipes, onde João devia ir ter a dar-lhe conta do que houvesse. O criado demorou-se muito menos porém do que pareceu ao ansioso namorado. Já lhe parecia que ele não viria mais, quando a figura de João assomou à porta. Gustavo levantou-se à pressa e saiu.
— Que há?
— O homem apareceu...
— E a fita?
— A fita estava com ele...
— Achou-se?
— Estava com ele, porque o João Gomes lha tinha dado, como meu amo sabe, mas parece que já não está.
— Inferno! exclamou Gustavo lembrando-se de um melodrama em que ouvira exclamação análoga.
— Já não está, continuou o criado como se estivesse saboreando estas ânsias do amo, já não está, mas podemos dar com ela.
— Como?
— O Alvarenga é procurador, deu a fita à filhinha do desembargador com quem trabalha. Ele mesmo incumbiu-se de arranjar tudo...
Gustavo perdera de todo as esperanças. A esquiva fita nunca mais lhe tornaria às mãos, pensava ele, e com esta idéia ficou acabrunhado.
João entretanto reanimou-se como pôde, afiançando-lhe que achava no Sr. Alvarenga muito boa vontade de o servir.
— Sabes o número da casa dele?
— Ele ficou de ir à casa de meu amo.
— Quando?
— Hoje.
— A que horas?
— Às ave-marias.
Era um suplício fazê-lo esperar tanto tempo, mas como não havia outro remédio, Gustavo curvou a cabeça e foi para casa, disposto a não sair sem saber o que era feito da encantada fita.
CAPÍTULO VI
Cruelíssimo foi aquele dia para o mísero namorado, que não podia ler, nem escrever, que só podia suspirar, ameaçar o céu e a terra e que mais de uma vez ofereceu ao destino as suas apólices por um pedaço de fita.
Dizer que jantou mal, é noticiar ao leitor uma coisa que ele naturalmente adivinhou. A tarde foi terrível de passar. A incerteza misturava-se à ânsia; Gustavo ardia por ver o procurador, mas receava que nada trouxesse, e que a noite desse dia fosse muito pior que a antecedente. Pior seria decerto, porque o plano de Gustavo estava feito: atirava-se do segundo andar à rua.
A tarde caiu de todo, e o procurador, fiel à sua palavra, bateu palmas na escada. Gustavo estremeceu.
João foi abrir a porta:
— Ah! Entre. Sr. Alvarenga, disse ele, entre para a sala; meu amo está à sua espera.
Alvarenga entrou.
— Então que há? perguntou Gustavo depois de feitos os primeiros cumprimentos.
— Há alguma coisa, disse o procurador.
— Sim:
E logo:
— Há de admirar-se talvez da insistência com que procuro esta fita, mas...
— Mas é natural, acudiu o procurador abrindo a caixa de rapé e oferecendo uma pitada ao bacharel, que com um gesto recusou.
— Então parece-lhe que há alguma coisa? perguntou Gustavo.
— Sim, senhor, respondeu o procurador. Eu tinha dado aquela fita à filha do desembargador, menina de dez anos. Quer que lhe conte a maneira por que isso aconteceu?
— Não precisa.
— Sempre lhe direi que eu gosto muito dela, e ela de mim. Posso dizer que a vi nascer. A menina Cecília é um anjo. Imagine que tem os cabelos loiros e está muito desenvolvida...
— Ah! fez Gustavo não sabendo o que havia de dizer.
— No dia em que o João Gomes me deu a fita dizendo-me: “Tome lá o senhor que tem em casa exposição!” Exposição chama o João Gomes a uma coleção de objetos e trabalhos preciosos que tenho e vou aumentando... Nesse dia, antes de ir para casa, fui à casa do desembargador...
Neste ponto entrou na sala o criado João, que, por uma idéia delicada, lembrou-se de trazer uma xícara de café ao Sr. Alvarenga.
— Café? disse este. Não recuso nunca. Está bom de açúcar... Oh! e que excelente café! V. S.ª não sabe como eu gosto de café; bebo às vezes seis, oito xícaras por dia. V. S.ª também gosta?
— Às vezes, respondeu Gustavo em voz alta.
E consigo mesmo:
“Vai-te com todos os diabos! Estás apostado para fazer-me morrer de aflição!”
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de uma fita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, dez. 1875 a fev. 1876.